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Entrevista com Michael Löwy: Bolsonaro é ícone da intolerância que marca o Brasil

13.10.2018
 
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Entrevista com Michael Löwy: Bolsonaro é ícone da intolerância que marca o Brasil

"Mesmo a ditadura militar nâo chegou a defender uma ideologia tâo abertamente fascista. Praticou em grande escala a tortura, mas nâo ousou legitimar publicamente esta infâmia, como faz Bolsonaro", analisa Michael Löwy, sociólogo brasileiro de projeçâo internacional.

A realidade brasileira vem sendo algo extremamente difícil de ser sociologicamente compreendido em todo o mundo desde junho de 2013, quando estouraram as tais "Jornadas" que, desembocando no impedimento inconstitucional da presidenta Dilma Rousseff, identificavam-se sobremaneira com as multitudinárias "Primaveras" sem lideranças e objetivos claros, com final antidemocrático e altamente repressivo em diversas regiões do mundo, comprovavamente promovidas desde os porões do regime de Washington (que as denominam Revoluções Coloridas idealizadas pelo norte-americano Gene Sharp, com o intuito de derrubar governos ainda que democraticamente eleitos, que de alguma maneira contrariem os interesses de Tio Sam) aos quais, desde 1964 até os días de hoje, os mais cínicos e ignorantes nacionais insistem em tapar os olhos a que pese sua importância histórica nos golpes à democracia no Brasil, na América Latina e em todo o mundo.

Questionado sobre o que pode explicar a ascensão de um sujeito com profundo nível de ignorância e ímpar capacidade de destilar ódio como Jair Bolsonaro, o especialista franco-brasileiro expõe alguns pontos que podem ter cooperado para isso, até concordar que, sociologicamente, é ainda um enigma a ser desvendado "o surgimento de um fenômeno de patologia política destas proporçôes".  

Na seguinte entrevista a Pravda.ru, Löwy analisa o cenário social e político brasileiro às vésperas do segundo turno das efervescentes eleições presidenciais, que vêm chamando negativamente a atenção do mundo pelo clima de guerra mergulhado em profundo ódio. "O estranho, evidentemente, nâo é a pregaçâo fascista de um indivíduo, mas a adesâo de mais de grande parte do eleitorado a estas ideias...". 

Partindo das considerações do golpe jurídico-midiático contra Dilma, o especialista desacredita em uma vitória de Bolsonaro no segundo turno. "Seria um desastre imenso para o País, para a democracia, para o povo brasileiro".

Ao mesmo tempo, Löwy acredita que a possibilidade de novo golpe militar existe em intensidade jamais vista desde a propalada "redemocratização" brasileira, em 1985. "Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar, generais começam a intervir na vida política".

Ao considerar mais provável uma vitória de Haddad no próximo dia 28 de outubro, o analista traz outro cenário tao possível quanto pouco comentando entre especialistas: um novo golpe parlamentar, com o intuito de minimizar as capacidades presidenciais: "O Parlamento no Brasil é uma caricatura de democracia, inteiramente dominado pelas bancadas do Boi (agronegócio), da Bala (militares, policiais e paramilitares), da Bíblia (evangélicos conservadores), e dos Bancos (representantes do capital financeiro)".  

A seguir, a íntegra da entrevista.

Michäel Löwy e sociólogo pela Universidade de São Paulo (USP) desde 1960 doutorou-se na Sorbonne, sob a orientação de Lucien Goldmann em 1964. Autor de diversos livros, entre eles Ecologia e Socialismo (São Paulo, Cortez, 2005) e A Teoria da Revolução no jovem Marx (Petrópolis, Vozes, 2002), vive em Paris desde 1969, onde trabalha como diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).

Edu Montesanti: A ascensão do capitão da reserva Jair Bolsonaro tem sido majoritariamente justificada no descrédito da sociedade em relação à política e as instituições democráticas, a um vácuo deixado pelo PSDB, partido das classes dominantes que tem carecido há muitos anos de qualquer projeto que não seja o antipetismo ao se opor a qualquer política do PT ainda que se trate de bandeira histórica tucana, e até a um cenário internacional favorável ao crescimento da direita radical pelo mundo, especialmente nos Estados Unidos através do magnata Donald Trump, cujo regime deseja, como todos os anteriores, fazer da América Latina quintal de seu país. Em sua concepção, a que se deve a ascensão do Bolsonaro?


Michäel Löwy: Todos os fatores acima mencionados fazem parte da conjuntura que levou ao espetacular desenvolvimento da candidatura do fascista Bolsonaro.

Cabe acrescentar outros aspectos: o impacto social da criminalidade, levando setores da sociedade a optar pela repressâo violenta como única soluçâo; o ódio de certas camadas sociais ao PT, conduzindo-as a apoiar propostas de "liquidar a petralhada"; o peso político do evangelismo conservador, visceralmente oposto aos direitos das mulheres (aborto), às minorias sexuais (LGBTI), às culturas afro-brasileiras; a hostilidade à democracia de importantes setores das classes dominantes.

Mesmo assim, é dificil explicar o surgimento de um fenômeno de patologia política destas proporçôes. Nâo se trata simplesmente de um candidato conservador, reacionário, anti-democrático, mas de um personagem autenticamente fascista tal como o Brasil nunca havia conhecido em sua história, salvo nos anos 30 com o integralismo de Plínio Salgado, na época de "glória" do nazi-fascismo europeu.

Mesmo a ditadura militar, entre 1964 e 1985, nâo chegou a defender uma ideologia tâo abertamente fascista; praticou em grande escala a tortura, mas nâo ousou legitimar publicamente esta infâmia, como faz Bolsonaro.

Hipocritamente, negou que houvesse tortura nos porôes do Doi-Codi. O estranho, evidentemente, nâo é a pregaçâo fascista de um individuo, mas a adesâo de mais de grande parte do eleitorado a estas ideias...
 
Bolsonaro, que recentemente disse que nâo se importa em ser comparado com Hitler, porém o preocuparia ser comparado a um gay se já nâo bastasse seu histórico de ditos e feitos cheios de intolerância e ódio, tem sido o ícone destes sentimentos que marcam o Brasil nos últimos anos.

 

Edu Montesanti: O senhor falou em intolerância e ódio: eram sentimentos já latentes porém um tanto camuflados em meio à sociedade brasileira, em especial nas clases dominantes bem antes desse estágio assustador em que vive o País, que apenas se afloraram com a crise econômica dos últimos anos somada a um terrorismo midiático? Ou tratam-se de subprodutos, exatamente, do crescimento vertiginoso da desigualdade social dos últimos três anos?


Michäel Löwy: Nâo me parece que a crise econômica seja uma explicaçâo. Muitos países na America Latina sâo atingidos pela crise, sem que apareça um Bolsonaro com tanto apoio. Tampouco me parece relevante o papel da midia, que esta bastante dividida em relaçâo ao ex-capitâo.

Quanto à desigualdade, que certamente cresceu muito nos ultimos anos, prejudica as camadas mais pobres da populaçâo, precisamente as menos atraidas pelo discurso fascista do "Coiso"; é verdade que a intolerância e ódio haviam se intensificado nos últimos anos, sobretudo à partir do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Mas poderiam ter sido canalisados pelos partidos "tradicionais"; da direita neoliberal, o que nâo foi o caso. O espetacular sucesso de Bolsonaro é algo que precisa ainda ser explicado...
 


Edu Montesanti: O que representaria ao Pa
ís uma vitória do Bolsonaro? Há chance de um autogolpe, o que parece claro em suas declarações e nas do seu vice, o general Hamiltom Mourâo?

Michäel Löwy: Nâo acho provárvel a vitória de Bolsonaro, embora nâo se possa excluir esta hipótese. Seria um desastre imenso para o País, para a democracia, para o povo brasileiro.

E nâo acredito que possam impedir a vitória de seu adversário, Fernando Haddad, apesar de suas bravatas e ameças.

 

Edu Montesanti: Bolsonaro tem dito que aceitará apenas sua vitória como resultado das urnas no pleito presidencial: isto poderia resultar em golpe militar caso Haddad seja eleito?

Michäel Löwy: Outro perigo possível é a intervençâo militar. Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar, generais começam a intervir na vida política, por exemplo ameaçando caso os juízes libertem Lula e permitam sua participaçâo nas eleiçôes.

Nâo sabemos como reagirâo a uma provavel vitória de Fernando Haddad. Uma ameaça da qual se fala pouco, seria um novo "golpe parlamentar", instituindo o "parlamentarismo" e retirando do presidente a maioria dos seus poderes.

Como sabemos, o Parlamento no Brasil é uma caricatura de democracia, inteiramente dominado pelas bancadas do Boi (agronegócio), da Bala (militares, policiais e paramilitares), da Biblia (evangelicos conservadores), e dos Bancos (representantes do capital financiero). Em 1961, a oligarquia burguesa tentou aplicar esta manobra contra Joâo Goulart, mas ele convocou um referendo que demoliu esta rasteira jurídica.

Mas a Constituiçâo de 1988 decretou que somente a Assembleia tem o poder de convocar um referendo... A oligarquia, que controla a Assembleia, tem perdido todas as eleiçôes presidenciais desde 2002, dai o possivel golpe "parlamentar" contra a presidência.

 

Edu Montesanti: Como o senhor explica o golpe jurídico-midiático-parlamentar contra Dilma, sob apoio maciço e raivoso da sociedade com posterior derrota clamorosa do PT nas eleiçôes municipais de 2016, em comparaçâo com o bom desempenho do candidato petista a Presidência, Fernando Haddad, nesta campanha, superando em muito o tucano Geraldo Alckmin inclusive no Estado de Sâo Paulo, onde inclusive o PT deve perder de longe a eleiçâo para governador? 

Michäel Löwy: O golpe contra Dilma se explica pelo desejo da oligarquia - agronegocio, empreendedores, capital financeiro, rentistas - de por fim ao prolongado reino do PT, apesar da disposiçâo dos governos de centro-esquerda a negociar acordos e fazer inumeras concessôes.

A oligarquia, na nova conjuntura economica criada pela crise, já nâo queria negociar nada, e nâo se contentava com concessôes: quería governar diretamente, e realizar a integralidade de seu programa neoliberal antipopular.

Num primeiro momento, graças à midia e aos escandalos da corrupçâo (envolvendo também dirigentes do PT), uma parte importante da populaçâo pareceu aceitar os argumentos dosgolpistas.


Mas isto durou pouco. Com o agravar da crise socio-economica, com as medidas profundamente antipopulares do governo Temer, com os processos por corrupçâo contra varios membros deste governo e de sua base parlamentar, e sobretudo, com o crescimento bruta do desemprego, da pobreza e da desigualdade social, boa parte da populaçâo está depositando suas esperanças em Fernando Haddad.
 

Edu Montesanti: Quais os prinicipais desafios a serem enfrentados pelo novo presidente, e quais medidas mais urgentes ele deveria tomar nas áreas cruciais do pais, a seguranca publica e o combate as desigualdades sociais?
 
Michäel Löwy: No primeiro turno, apoiei os candidatos da esquerda radical, Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que representaram um projeto de profunda transformaçâo social no pais mesmo sabendo que o unico candidato do campo democratico com chance de ganhar esta eleiçâo (no segundo turno) era Fernando Haddad.

Ele terá que enfrentar a oposiçâo dos fascistas bolsonaristas, da Assembleia nas mâos da bancada parlamentar dos quatro Bs, e, possivelmente, dos militares.

Terá votade politica, e condiçôes, para tomar as medidas urgentes necessárias, no combate aos privilegios da oligarquia e na luta contra a desigualdade?

Dependerá, em ultima análise, da capacidade da populaçâo, dos trabalhadores da cidade e do campo, da juventude, das mulheres, do povo negro, a se organizar e lutar por seus intereses.

 


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