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No dia das mulheres, não dê flores - dê informação e poder real

13.03.2014
 
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Rachel Moreno

No dia das mulheres, não dê flores - dê informação e poder real

Por Rachel Moreno, do Observatório da Mulher

Fonte: FNU - Federação Nacional dos Urbanitários,

Edição especial sobre Mulher e Água, Março 2014, www.fnu.org.br .

 

A natureza, a água e a mulher são flexionadas no feminino.

 

Por nossa conexão fisiológica com o nascimento e a nutrição,  pelo ciclo lunar que regula a nossa menstruação, assim como as marés, as mulheres têm sido vistas como mais próximas da natureza.

 

Entretanto, essas relações e conexões têm sido socialmente degradadas o que leva a atitudes que oprimem e desvalorizam tanto as mulheres, como a natureza , como apontam as ecofeministas.

 

Na divisão social do trabalho, o cuidado maior com a prole, com suas necessidades, sua segurança e garantias, têm ficado a cargo das mulheres. Com isso, as necessidades de reposição da vida têm se caracterizado como incumbência nossa, ao mesmo tempo em que a sociedade - organizada como a conhecemos - se estrutura e valoriza a produção de mercadorias. Tudo gira, portanto, em torno do trabalho remunerado. E o trabalho doméstico - limpar a casa, lavar, cozinhar, dar banho às crianças, cuidar dos velhos, dos adoentados - necessário à reposição da vida, não é merecedor de remuneração ou sequer valorizado.

 

A mesma lógica -  a fonte é inesgotável, e pouco valorizada -  é aplicada tanto para as mulheres, como para a natureza.

 

As mulheres e o manejo da água

  

A água, que cobre 71% da superfície de nosso planeta, é fundamental à vida. À hidratação do corpo, ao plantio, à terra, à produção, aos hábitos de higiene, à saúde.

 

Em qualquer condição, o seu manejo doméstico é fundamentalmente função feminina.

 

As doenças decorrentes de sua escassez ou má qualidade ficam sob os cuidados da mãe, ou mulher da casa, desesperada com a precariedade das condições com que conta. Por vezes, a mulheres caminham por quilômetros, indo buscar o líquido precioso. Outras vezes, entram no rio para lavar a sua roupa e se banhar. E em outras situações, ainda, basta-lhes abrir a torneira para fazer uso dela.

 

Vandana Shiva denuncia que a economia não leva em conta os números importantes, "como o número de crianças que sofrem desnutrição ou os quilômetros que uma mulher tem que andar para conseguir água". (1)

 

Mas também às situações de maior conforto, tem correspondido um  maior isolamento feminino.

 

Nada de brincar na água - quer no rio, quer na lagoa de Itapoã, com as demais mulheres da comunidade, ensaboando sua roupa, quarando-a, se banhando como os índios nos mostraram ser gostoso, quando os primeiros de nós aqui chegaram; refinando os fluidos, como os negros registraram na cultura nacional, com a sua grande diversidade de funções dos banhos; banhando os nossos filhos e brincando com a água.

Hoje corresponde ao moderno padrão aspiracional, enclausurar cada mulher em sua área de serviço ou quintal, em seu banheiro ou cozinha, limpando, lavando, dando banho, numa cena que se reproduz com equipamentos individualizados, mas solitariamente e ao infinito. Somos uma única espécie do zoológico em que a fêmea limpa a gaiola do grupo familiar...

 

A importância de seu envolvimento

  

Por outro lado, justamente pela sua responsabilização na gestão das águas, ao nível doméstico, descobriu-se a importância de envolver as mulheres em todos os momentos em que um controle e parcimônia maiores são exigidos. Como diante das mudanças climáticas e da escassez.

 

"É muito importante incluir as mulheres nas negociações climáticas, já que elas exercem um papel central no modo de vida das famílias e nos costumes das comunidades. Elas também apresentam uma maneira diferente de encarar os desafios e possuem uma preocupação natural com a gestão de recursos", afirmou Amina Mesdoua, diretora da Divisão de Políticas para as Famílias do Instituto Internacional de Doha.

"Existe um reconhecimento crescente de que a questão feminina é importante também no contexto das mudanças climáticas. A participação das mulheres é fundamental se os governos realmente desejam o engajamento da sociedade na luta contra o aquecimento global", disse Ulrike Röhr, fundadora da Life e.V, grupo alemão de promoção da educação e da igualdade. (2)

 

A essa "descoberta", porém não corresponde uma maior equidade em termos de atribuição de importância, ou de ampliação do poder de decisão das mulheres.

 

A nível local

  

Esquentou, e não choveu, em São Paulo. A manutenção dos reservatórios ficou aquém do que seria necessário, gerando uma  crise no abastecimento de água nas cidades do interior e na Grande São Paulo, com perspectivas que podem se agravar a partir de abril, quando as chuvas cessam e tem início, de fato, o período de estiagem.

 

O consumo de água tende a aumentar com o calor. Os diversos atores sociais envolvidos no processo - indústria, agricultura, manutenção da rede e de seus vazamentos, o consumo doméstico - deveriam ter sua função adequada checada, implementar planos de emergência e colaborar na solução do problema.

 

 Neste momento de evento extremo com estiagem fora de época e com as represas que compõem o Sistema Cantareira em seus piores níveis dos últimos dez anos, o MPE e MPF solicitam aos órgãos gestores dos Sistemas de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo e da União, e isso inclui o governador Alckmin, que revejam as regras da outorga, diz a Revista Carta Capital.

Se as quantidades colossais que estão sendo retiradas do Sistema Cantareira para abastecer a Grande São Paulo persistirem, toda a água se esgotará em menos de dois meses, alertam engenheiros do Consórcio das Bacias Piracicaba, Capivari e Jundiaí, o PCJ. - Cibele Buoro é jornalista e professora universitária.

Qual a proporção de dependência do abastecimento de água, com relação ao regime de chuvas, e com relação a um planejamento sério e eficiente?

 

São Pedro nos pegou de surpresa, ou a situação era previsível e o governo de São Paulo não fez o suficiente para multiplicar as fontes de captação, como lhe foi recomendado pela Agência Nacional de Águas (ANA) ?

 

Enquanto isso, sem que sejam dadas informações oficiais sobre os diversos fatores de surgimento e agravamento da crise de abastecimento, suas perspectivas, a importância da ação combinada dos diversos atores sociais, consta que a Sabesp teria assinado às pressas um contrato de publicidade no valor de R$ 22 milhões com a agência Lew Lara para  "conscientizar a população" com ações de propaganda da campanha de verão 2013/2014, cujo principal enfoque é a economia de água na alta temporada... em casa. (3)

 

E dirige-se predominantemente à mulher - quer no seu discurso, quer nas imagens utilizadas na campanha, focando predominantemente as mulheres. Não como agentes importantes na coordenação desta ação, também não lhes dando nenhuma informação sobre a ação dos demais atores sociais, mas quase como se a crise fosse resultado de sua atitude incorreta, de seu esbanjamento. Quase como se o mau humor de São Pedro se somasse à irresponsabilidade das donas de casa, resultando na falta de água, que nos chega como castigo dos céus.

 

E nos mandam encurtar o banho, a rega das plantas, a limpeza da casa, das crianças, do carro, do quintal empoeirado, como se fossemos as únicas responsáveis tanto pela crise, como por sua solução - sem que isso devesse nos despertar nada além de má-consciência e obediência às ordens da campanha publicitária do Governo Estadual.

 

Desta vez, eles decidiram até "premiar" com um desconto, os consumidores abastecidos pelo Sistema Cantareira, numa generosidade que não se estendeu porém aos demais consumidores da Região Metropolitana de São Paulo, cuja economia resultasse na melhoria do sistema. Afinal, premiar já é uma medida relativamente inovadora (ao invés de só culpabilizar), e não pode ser extensivamente justa, sem comprometer os lucros e a remuneração do capital com que a empresa - mista - se preocupa.

 

Outros atores sociais

  

Mas a Sabesp, que assina a campanha, tem feito a sua parte nos programas de "Redução de Perdas"?  Afinal, também consta que, apesar de ter recebido 1,1 bilhão de reais, entre 2008 e 2013, o programa não só não alcançou a sua meta de 30,2% de redução das perdas, como registram os 31,2% de perdas em2013.

 

O que se perde no caminho entre a  estação de tratamento e a torneira dos consumidores daria para abastecer a cidade de Campinas, de 1,1 milhão de habitantes, que quase entrou em racionamento nos últimos dias. O padrão de países desenvolvidos fica abaixo dos 20%. (4)

Divulgar amplamente essas informações certamente ajudaria as mulheres - e todos - a entender a complexidade da rede de atores sociais envolvidos na questão e, quem sabe, decidir se manifestar a respeito.

 

A quem caberia esta divulgação? Ao governo estadual? Às empresas (Sabesp e similares)? Á grande mídia - rádio, tv, jornais diários e de grande circulação, revistas femininas (já que o público-alvo são particularmente as mulheres)? Aos trabalhadores organizados e conhecedores desta realidade?

 

Que interesses subjazem a este pacto do silêncio? Como podemos fazer para ampliar o alcance da comunicação do nosso segmento?

 

Outras questões relevantes

  

1-      As mais pobres entre os pobres

O artigo do Léo Heller sobre A Ética do Capitalismo e o Saneamento no Brasil, levanta ainda questões de suma importância sobre o déficit do saneamento, em nosso país, e a sua distribuição seletiva e perversa, com uma leitura de seu recorte de classe e cor.

Ademais, localizam-se claras correlações entre o déficit e indicadores socioeconômicos, como renda, escolaridade e cor da pele. Estudo com base no Censo 2000 revelou que uma família numerosa e de baixa renda agregada, cujo chefe é do sexo masculino, jovem, cor da pele negra e de baixa escolaridade, apresenta probabilidade cem vezes menor de estar conectada a uma rede de esgotos se comparada com outra que apresente características opostas.2

Ora, sabe-se também que cresce o número de famílias chefiadas por mulheres (chegando a cerca de 45%), assim como mostram as estatísticas que "a pobreza tem gênero e cor", e que estão na base da pirâmide - entre as mais pobres - as mulheres em geral, seguidas pelas mulheres negras.

 

2 - Acesso ao saneamento

  

Entretanto, só acesso à água não basta.

 

O saneamento é reconhecido pelas Nações Unidas, como um direito humano e, apesar disso, a meta dos Objetivos do Milênio a ele relacionada está longe de ser atingido até 2015, como proposto, e que consiste em reduzir à metade a proporção de pessoas sem acesso ao saneamento básico (água, esgoto, drenagem e resíduos sólidos).

 

Hoje, cerca de 2.500 milhões de pessoas carecem de saneamento básico, 1.100 milhões defecam ao ar livre e mais de 5.000 pessoas, em sua maioria crianças, morrem diariamente por enfermidades relacionadas à água, à falta de saneamento e à de higiene decorrente.

E cabe a nós, mulheres, os cuidados com a higiene e com a saúde das crianças, dos idosos, da família em geral.

 

2 - A privatização x a universalização do acesso

  

Artigos anteriores, em nosso próprio jornal, bem como nos eventos, debates e preocupações da categoria, focam de forma crítica a privatização desses serviços que, apesar do discurso enganador dos governos privatistas, não resultam em universalização do acesso da água tratada e do saneamento.

 

Além disso, as PPPs e a privatização em geral, têm antes levado à terceirização e precarização do trabalho e do preparo e segurança dos trabalhadores terceirizados, da redução dos salários, bem como da dispersão destes trabalhadores, distantes da organização sindical.

 

Como ficamos nós, mulheres, diante desta questão, desta precarização do trabalho e salário - tanto nosso quanto de nosso companheiro?

Onde podemos fazer ouvir nossa voz, para acusar a não-melhoria e não-universalização destes serviços, que não chegam  nas nossas torneiras e comunidades?

 

4 - O consumismo x a teoria do decrescimento econômico

  

Já ouvimos com alguma frequência falar do papel da população na defesa do planeta, reiterando-se a importância da adoção de novos hábitos de vida, como principal conselho dado àquele que quer "fazer a sua parte".

 

E, entre esses novos hábitos de vida consta uma crítica ao consumismo, inserida numa abordagem do que se convencionou chamar de "decrescimento".

 

Novamente, a mulher será foco deste discurso, na medida em que 80% das decisões de compra têm lhes cabido (somos responsáveis pela compra de itens tão diversos como a cueca do marido, a fralda do nenê, a comida para todos, o creminho para disfarçar as rugas e nos manter sempre jovens e desejáveis).

 

Serge Latouche ressalta que o decrescimento é a bandeira de um projeto alternativo para uma política do pós-desenvolvimento, explicando ser este um slogan para inicialmente provocar e permitir o entendimento de que um crescimento ilimitado não é possível em um mundo com recursos limitados.

 

Mas também nos diz ele que "Quando 20% da população mundial consomem 86% dos recursos naturais, podemos dizer que para os 80% consumirem mais, para terem uma vida digna, os 20% têm de decrescer seu consumo. Por isso, a proposta do decrescimento não é para todos os lugares e nem para todos. O decrescimento deve ser necessariamente equitativo e seletivo. Os primeiros que têm muito a ganhar com essa proposta são os mais pobres. A primeira meta do decrescimento é o decrescimento das desigualdades"

 

5 - Conclusão

  

Estas, e tantas outras questões, interessam não só às mulheres, como a todos os trabalhadores.

 

Formadas, informadas e posicionadas a seu respeito, seremos fortes, resistindo à nossa infantilização e manipulação pelo discurso oficial e pela publicidade que lhe serve.

 

Enfrentamos o desafio de nos posicionar a respeito disso? Em eventos, cursos e formações diversas às quais possamos estar presentes? E quem cuida dos filhos, e do jantar do maridão enquanto isso?

 

Alguma sugestão?


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