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O que fazer?

13.02.2017
 
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O que fazer?

No início do século passado, Lenin escreveu um livro clássico para o movimento socialista russo, tentando responder quais suas tarefas mais imediatas, num momento em que ele estava disperso e desorganizado, cujo título era uma pergunta: o que fazer?

Talvez esteja faltando alguém que diga hoje para as esquerdas brasileiras o que fazer nesse momento de derrota e perplexidade geral.

A professora Céli Pinto, do Departamento de História da UFRGS, faz uma tentativa nesse sentido, num artigo muito interessante que escreveu para o Sul 21, com o título "Eles fazem o que querem, porque podem"

Eles, são os golpistas que se apossaram do poder e agora chegaram a este ponto, inimaginável tempos atrás:  o Temer indicar o seu Ministro da Justiça  para o Supremo Tribunal Federal  e isso não causar nenhuma reação maior da classe política, para não falar da população, totalmente indiferente ao que acontece em Brasília.

O que se pode sentir na leitura do artigo da Professora Céli, é o seu profundo desalento pela falta de qualquer perspectiva de reação.

E, não é apenas ela.

Todos nós, ao que parece, sentimos o mesmo.

Como ela disse, "eles fazem porque podem fazer".

Estamos como o José, do poema clássico de Carlos Drummond de Andrade, sozinhos no escuro e sem saber o que fazer.

"Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia, 
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope
você marcha, José!
José, para onde".

Arrisco a dizer que o atual arremedo de democracia em que vivemos é pior que a ditadura, que os mais velhos experimentaram a partir de 64.

Naquela ocasião, a divisão era clara. Era mais fácil escolher um lado. A democracia contra a ditadura.

Lutávamos - uns mais, pegando até em armas, os mais corajosos, como a Presidenta Dilma -  e outros, com menos coragem, como a maioria de nós, torcendo pelos mocinhos contra os bandidos. Mas estávamos unidos, lutando pela mesma causa, quando mais não fosse, ouvindo as músicas de protesto do Chico.

"Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que eram subtraídas
Em tenebrosas transações"

Hoje, dizem que vivemos numa democracia, uma estranha democracia, onde um grupo de parlamentares, eleitos com o dinheiro de empresários e pelo obscurantismo de seitas religiosas, com o apoio da mídia e a indiferença geral da população, revoga o resultado de uma eleição legítima.

Dizem que os direitos são respeitados, mas um governo nascido na ilegalidade retira conquistas históricas dos trabalhadores.

Jornais, revistas e televisão, em voz uníssona, transformam em figura nacional, um juiz de província, que usa seu poder para misturar casos policiais com políticos.

Apesar de todos esses sinais de que o Brasil está se transformando naquela imagem clássica que os americanos sempre tiveram de nós - uma república das bananas - não se vê, ou se vê muito pouco - sinais de reação.

O que se discute como opção para a resistência?

Lula em 2018?

Se o que disse a Professora Céli está certo, de que eles podem tudo, alguém pode imaginar que eles permitirão uma candidatura do Lula com chances de vitória?

Nunca é demais relembrar o que disse Carlos Lacerda, quando Getúlio se lançou como candidato em 1950.

"O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar".

Embora chamasse de revolução, o que Lacerda ajudou a construir foi um golpe de estado que acabou em 54 com o suicídio de Vargas.

Retornando ao ponto de partida, voltamos à pergunta que a Professora Céli não respondeu em seu artigo ou respondeu de forma vaga, o que fazer?

"É duro para nós ter de dizer isto, mas se não nos convencermos da urgente necessidade de nos recolocarmos politicamente na arena pública, não teremos como reagir".

Diz ela, finalizando seu artigo.

O que me parece, é que existe hoje no Brasil é uma batalha pelos corações e mentes das pessoas e essa batalha se trava fora da arena política, se imaginarmos esta arena como um local onde atuam partidos e políticos.

A primeira tarefa é identificarmos nossos inimigos.

Hoje, a maior inimiga das esquerdas é a grande mídia e é contra ela que devemos iniciar essa batalha.

E ela quem legitima o estado de exceção em que vivemos e convence os brasileiros que não vale à pena lutar por uma sociedade mais justa e humana.

Aqui no Rio Grande do Sul, ela se chama RBS. 

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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