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"É uma ofensa conceitual criar mercado que vende poluição"

11.10.2013
 

Em 2009 Jornal Comércio do Jaú entrevistou Amyra El Khalili, filha de beduíno, 44 anos, autora de Commodities Ambientais em Missão de Paz. Quatro anos depois, está a ser confirmado tudo que ela disse. Reproduzimos a entrevista com a permissão da entrevistada.

AMYRA EL KHALILI proferirá palestra no dia 05/11/2013 (terça-feira) às 10:20hs  na Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS), na cidade de Chapecó-SC com o tema "Commodities Ambientais: o que são?"

 

Por João Guilherme D´Arcadia

Da redação, 14/11/2009

Ou a humanidade desenvolve um novo processo econômico, baseado na consciência ambiental, ou entrará em colapso. Essa é a opinião da ambientalista e economista Amyra El Khalili, 44 anos, autora de Commodities Ambientais em Missão de Paz (disponível para download em http://amyra.lachatre.org.br). Seu objetivo é capacitar os pequenos produtores para que o solo e os recursos naturais não se esgotem. O esgotamento provocaria guerras, como ocorre no Oriente Médio.


Filha de beduíno, articula o entendimento entre árabes e judeus, motivo pelo qual foi indicada para compor o Prêmio Mil Mulheres para o Nobel da Paz. A ambientalista não mede palavras para defender que ou economia e ambiente andam juntos ou ambos vão desaparecer. Amyra ministrou palestra na Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Jaú e concedeu a entrevista ao Comércio no dia 5 de novembro (2009).

Comércio - A senhora tem uma vasta experiência no mercado financeiro. Quando percebeu que era possível aliar essa experiência com as questões ambientais?


Amyra El Khalili - Minha experiência no mercado financeiro é em commodities e derivativos. O bom operador de commodities tem de conhecer mudanças climáticas, questões energéticas e hídricas. Naturalmente tem de ser um grande ambientalista, é consequência. E eu sempre fui uma menina que gostava do mercado financeiro, o que não significa que eu seja neoliberal. Há uma grande confusão entre modelos econômicos e vocações. Nós vivemos em um modelo neoliberal imposto aos países subdesenvolvidos.

Comércio - Se a relação entre mercado e meio ambiente é inescapável, as commodities ambientais seriam a única saída? Como elas funcionam?


Amyra - Justamente ao contrário das commodities tradicionais. As convencionais exigem grandes escalas de produção, cada vez mais tecnologia e menos mão-de-obra. Vou empregar um exemplo da região de Jaú, a cana-de-açúcar. Hoje há uma migração, o cortador está sendo substituído por maquinário. Essa pessoa precisa ser capacitada e retirada da condição sub-humana em que muitas vezes ela se encontra. Para se produzir a commodity que eu defendo é preciso inverter tudo. Se de um lado eu tenho mais escala de produção, do outro eu proponho pequena escala. Em vez da monocultura intensiva, vamos fazer diversificação produtiva. Se aqui é transgênico (convencional), nós vamos respeitar o ciclo da natureza (ambiental). Temos de nos preocupar com os recursos e também temos de saber como vamos dividir o dinheiro. É um modelo econômico. Atualmente o lucro está na mão de um grande produtor, de um Blairo Maggi (governador do Estado de Mato Grosso), agora nós vamos falar de lucro para os pequenos.

Comércio
- O estudo da senhora sobre commodities ambientais considera como inseri-las no mercado atual, que está aparentemente estabelecido?


Amyra - Nós precisamos trazer aquilo que está subavaliado para dentro do mercado formal. Não estamos inventando a roda. Precisamos organizar as associações no sentido de aliá-las à comunidade científica para orientar, capacitar e treinar essas pessoas. O que impede isso hoje é a carga tributária, a questão fiscal, a burocracia com que as instituições são estabelecidas... Esses produtos já estão lá, eles só não estão comoditizados*, padronizados, dentro do mercado formal.

Comércio - E como isso se daria na prática? Como um pequeno produtor iria inserir sua produção na Bolsa de Valores?


Amyra - O nome Bolsa se mantém, mas nós precisamos de uma rede de cooperação comunitária onde você encontra parceiros de vocação. Por exemplo, temos um árabe no Oriente Médio que tem um mel especial de pequenos apicultores. Eu, no Brasil, posso me juntar a ele, exportar o mel e fechar o preço dele lá fora. Não há necessidade de cotar isso em Bolsa.

Comércio - Esses produtores teriam condições de competir com o maior exportador de mel do mundo, por exemplo?


Amyra - Não teriam em função de escala de produção, mas quando nós falamos em commodities ambientais pensamos no contrário do modelo convencional. Ele não compete porque ele tem diferencial. O mel que o consumidor vai comprar é diferente porque é uma especiaria.

Comércio - Mas não ficaria muito caro para o consumidor, tendo em vista que é uma produção em pequena escala?


Amyra - Não necessariamente. Pode ser que eu consiga consorciar um contêiner exportando várias outras especiarias. Naquela mesma região que tem o mel pode ter a noz, o tempero, a banana. É só dividir tudo isso no mesmo contêiner. O que acontece com o preço da logística? Cai.

Comércio - O que a senhora pensa sobre os créditos de carbono?


Amyra - A intenção é boa, mas o modus operandi está errado. Nós precisamos eliminar, então, é uma ofensa conceitual criar um mercado que vende poluição. Se o aquecimento global é um problema gravíssimo para a espécie humana, não pode ser objeto de negociação financeira, é objeto de leis e regras. Vamos reduzir isso aí. Você não pode pegar o direito fundamental à vida e à saúde e rasgar para fazer instrumento flexível para reduzir o carbono. Se ele está matando, tem de eliminar o assassino. Você vai ficar dando habeas corpus toda hora para um criminoso? É como aqueles casos em que as empresas jogam produto químico nos rios e aí falam "vamos criar um instrumento flexível para a 'fabriquinha' parar de poluir. 'Tadinha', você só está matando 40 mil pessoas".

Comércio - Como a senhora avalia a gestão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc?


Amyra - Eu não quero avaliar o Minc porque aí eu precisaria avaliar a Marina (Silva, ex-ministra do Meio Ambiente), o José Sarney (presidente do Senado) e todos os que fazem parte do processo. Eu não vou falar de ministro, vou falar de ministério. Eu o considero como um ente estranho porque ele tem de se meter em tudo e não tem poder de nada. E é difícil demais você ser ambientalista e gestor público. Alguém vai falar mais alto.

Comércio - A região de Jaú é conhecida por "selva de cana", uma vez que 70% da nossa terra está ocupada por essa cultura. Corremos o risco de esgotamento dessa terra?


Amyra - Claro. Quando você exporta cana, soja, milho, boi, você está exportando solo. Eu falo que a água está comoditizada. O que você tira do ambiente e manda para o processo produtivo vira commodity ( mercadoria padronizada). Nas regiões onde não há água, as pessoas têm de comprar a mercadoria pronta. O que eles estão comprando? Água.

Comércio - Como se dá seu ativismo na questão israelo-palestina? Ele também tem fundamento ambiental?


Amyra - Não tem como separar as coisas, quem me conhece sabe que eu sou de origem palestina e pacifista, mas eu sou ambientalista. Eu não acredito em um ambientalismo que não respeita o ser humano. Falar para mim que Israel é exemplo de agricultura sustentável no deserto, mas deixa a Palestina sem tomar água, para mim não é ambientalismo. O que eu faço é ter um diálogo com os setores, não faço nenhum confronto, mas Israel precisa reconhecer o direito dos palestinos de terem seu Estado.

Comércio - Foi a partir dessa conduta que a senhora foi indicada para o Prêmio Mil Mulheres para o Nobel da Paz? O que significou?


Amyra - Fui indicada por mais de 350 entidades e pacifistas israelo-palestinos. Não fui selecionada como uma das mil mulheres, mas fui indicada com muita legitimidade e eu tenho muito orgulho. Quando levo para as comunidades a ideia de commodities ambientais para criar um novo mercado financeiro, estou falando de amenizar os riscos que o atual sistema produz, como guerra por recursos naturais. A indicação que é o prêmio, porque ela é natural, espontânea.

 

 

* Pós RIO+20 - Reflexões conceituais sobre a "comoditização" dos bens comuns

http://port.pravda.ru/cplp/brasil/12-12-2012/34094-reflexoes_rio-0/

 


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