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Balança, Mas Não Cai

10.12.2008
 
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Balança, Mas Não Cai

Por: Valdeck Almeida de Jesus

São Bento e São Crescenciano são nomes de santos usados em prédios residenciais, prática comum em um país católico, onde os fiéis crêem na força dos céus para resolver problemas terrenos. Ao invés de esperar por milagres, os moradores desses dois edifícios preferiram recorrer a forças e conhecimentos de gente de carne e osso para solucionar as pendengas administrativas.

Moradores do edifício Crescenciano dos Santos, no bairro Sete Portas, sabem o que é morar num prédio que enfrenta todos os problemas inerentes a uma grande cidade. A administração faz de tudo para manter os serviços em dia, mas a inadimplência e as diversas dívidas não permitem fazer muito. Uma comissão de moradores administra o condomínio há seis anos e tem conseguido melhorar as condições de moradia. Não muito longe dali, na Barroquinha, o condomínio São Bento também enfrentou, por muitos anos, situação parecida. A solução foi colocar um administrador para gerenciar as finanças. O resultado foi a valorização do prédio e a melhoria geral do edifício. Nesta reportagem, detalhamos como a mobilização dos moradores para a causa comum possibilitou a melhoria da situação financeira dos dois prédios.

[24 de novembro é o dia de São Crescenciano, um dos santos da igreja católica. O nome tem origem latina e significa 'crescer', crescente, [aquele] que cresce. O edifício homônimo foi construído para ser grande, numa época em que Salvador era uma cidade horizontal e não tinha tantos problemas de habitação e de trânsito, como atualmente. Ainda hoje o prédio é um destaque nas imediações do bairro Sete Portas, pela altura e largura. Alguns moradores do edifício reclamam que o intenso fluxo de veículos nas proximidades causa uma pequena vibração, motivo do apelido "Balança, mas não cai".]

São Bento, por sua vez, também um santo da igreja Católica, italiano, nasceu por volta de 480aC, estudou em Roma e fundou um mosteiro, onde escreveu a Regra, cuja finalidade era formar cristãos perfeitos, de acordo com os ensinamentos do evangelho. Morreu em 21 de março de 547 e depois se tornou padroeiro da Europa. O princípio básico de São Bento foi Ora et Labora (Oração e Trabalho), com a finalidade de equilibrar projeto com prática.

A população de Salvador em 1950 era de pouco mais de 417 mil habitantes, e 655 mil em 1960, de acordo com o IBGE. Eu não vivenciei a época em que a cidade era menos habitada, então precisei recorrer à memória de Augêncio Almeida, 64 anos, comerciante aposentado, campeão baiano de Box em 1960, e brasileiro em 1961, dono de uma academia há vinte e cinco anos numa parte do playground do Edifício Crescenciano: "por volta de 1957, eu morava no Jardim de Nazaré – Praça Almeida Couto, onde se localizam os hospitais Santa Luzia, Santa Isabel, da Marinha e Manuel Vitorino", explica, "e esta área compreendida entre a praça e o Barbalho era praticamente mato.

Onde hoje é a avenida J. J. Seabra, passava o bonde, em frente ao terreno no qual o mestre de obras Crescenciano dos Santos construiu o maior edifício da região", relembra. Perguntado sobre o que fazia uma criança de 12 anos para se divertir, ele emenda "era aqui que a meninada brincava de bola, de esconde-esconde e também se divertia nas caminhadas pelos arredores do bairro Nazaré e também para brincar e ficar olhando os peões trabalhando". As crianças se divertiam vendo os trabalhadores cavarem o terreno para preparação da estrutura do edifício, que nasceria nas proximidades da Fonte da Vovó. Augêncio fala da Fonte com saudade, pois o Beco da Vovó, nas imediações do minador de água, era onde residiam muitos parentes e amigos e por onde ele perambulava em suas peraltices de toda criança na faixa etária dele à época.

No local onde era a fonte, em frente ao Crescenciano, foi construída uma oficina mecânica e um lava a jato. A água que brota dali até hoje é usada para lavagem de carros e para socorrer eventuais vizinhos em busca do precioso líquido. Ênio Benício, 46 anos, comerciante e dono da oficina, relembra a falta de água no edifício. "Muitos moradores vinham com baldes, panelas, garrafas pet e outros vasilhames e eu dava água a todo mundo". O síndico do prédio também tentou negociar a compra de água, de acordo com Benício, mas não houve viabilidade técnica. Para levar a água para o outro lado da rua, seria necessário quebrar o asfalto e os custos seriam altíssimos.

Inchaço das cidades

Desencanto com a vida rural devido à supervalorização da produção industrial, aliado a fatores como a seca nordestina e a falta de investimento na produção agrícola, motivaram a migração do interior para a capital e para as cidades maiores. A busca por melhores condições de vida e acesso foi o sonho de parte dos migrantes, entre as décadas de 40 e 60.

Na cidade grande, no entanto, famílias inteiras se depararam com um problema grave: a sobrevivência sem preparo profissional e a falta de emprego para a maior parte dos novos habitantes.

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