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A ocupação do continente

10.02.2011
 

 

Milton Lourenço (*)  

Embora tenha sido tema de uma série de reportagens publicadas pelo jornal santista A Tribuna há 38 anos, a ocupação da área continental pelo Porto de Santos voltou a ser apresentada como uma "nova" saída para o estrangulamento das atividades portuárias. Para tanto, tornar-se-á imprescindível fazer o que os desbravadores já faziam em meados do século XVIII - aproveitar o sistema hidroviário com que a mãe-natureza dotou a região.

            É de lembrar que aqueles pioneiros já executavam o que se propõe agora com ares revolucionários, ao promover a travessia sobre barcaças do açúcar em sacos que descia a Serra do Mar sobre o lombo de burros e bestas, aproveitando-se as trilhas e os caminhos abertos pelos indígenas em tempos imemoriais.

            Quem se der ao trabalho de consultar a documentação referente à capitania de São Paulo do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, que está em microfilmes no Arquivo Público do Estado de Estado de São Paulo, irá perceber que a grande dificuldade daqueles pioneiros era fazer com que o carregamento de açúcar atravessasse o Largo do Caniú, desde o Cubatão Geral, onde os jesuítas tiveram sua fazenda, até os trapiches no porto do Valongo sem que viesse a ser danificado pelas águas.

            Quase três séculos depois, a saída para o crescimento do porto continua a passar pelo bom aproveitamento dos rios e canais da região, com a criação de áreas retroportuárias e terminais em locais próximos a esses cursos d´água. Assim, como na Alemanha, as cargas tanto a granel como em contêineres poderiam ser movimentadas mais rapidamente e com maior eficiência por barcaças. Até porque será, praticamente, impossível utilizar-se caminhões, sob o risco de se estrangular ainda mais o sistema rodoviário e os acessos viários ao porto, ou trens, que decididamente não constituem um modal rentável para curtas distâncias.

            Ao que se saiba, ainda não existe pronto nenhum estudo sobre a utilização desses canais e rios regionais entre Cubatão e o Porto de Santos, mas, a princípio, não haveria como evitar investimentos em infraestrutura que seriam necessários para elevar pontes ferroviárias e rodoviárias que, nas atuais circunstâncias, impediriam o livre tráfego das barcaças. Além disso, alguns canais teriam de passar não só por obras de dragagem como de retificação do curso para evitar algumas curvas perigosas. Com algumas obras pontuais, será possível viabilizar esse sistema hidroviário em curto espaço de tempo.

            Essa seria uma boa maneira de começar a diversificar a matriz de transporte do Estado de São Paulo - hoje concentrada em 93% no modal rodoviário -, o grande desafio desta década que se inicia. Ao mesmo tempo, será necessário expandir a taxas superiores à expansão do Porto outros modais, como o ferroviário e o dutoviário. Se tudo isso ocorrer, a natureza também vai agradecer. Até porque, dificilmente, a Serra do Mar suportaria uma nova rodovia.

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(*) Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC).

E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

 


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