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Marx nas bancas, quem diria

09.12.2010
 

por Amilcar Neves

Passei segunda-feira numa banca de jornais na Trindade e comprei uma edição encadernada de Marx, O Capital. Simples assim: passar na banca, pegar o livro maldito, pagar R$ 17,90 e sair com ele debaixo do braço, sem embrulhar nem enfiar num saco plástico. Simples e inofensivo.

Mas houve época, neste País, em que Karl Marx era palavrão dos mais horrendos. Dava cadeia. Sem metáfora: dava cana apenas citar Marx. Ou falar do marxismo, discutir o comunismo, defender o socialismo ou, simplesmente, ler O Capital. Ou melhor: ter O Capital em casa. Sair com ele à rua tornava a empreitada uma operação de alto risco, uma temeridade, uma irresponsabilidade, um desafio imprudente à ditadura que campeava por estas terras - e também, depois, por terras vizinhas.

Bananas, por exemplo, o quarto filme dirigido por Woody Allen, coisa lá de 1971, só pude assistir no Uruguai, ainda democrático, porque no Brasil foi proibido pelos militares. Conforme a Wikipédia, "Fielding Mellish (Woody Allen) vai para San Marcos, uma republiqueta na América Central, e lá se une aos rebeldes e, no final das contas, se torna o presidente do país." O fator subversivo no filme, para a nossa censura oficial, é que Allen usa barba e veste-se como Fidel, Che e o pessoal de Cuba que... derrubou uma ditadura apoiada pelo governo dos Estados Unidos - ou seja, seu personagem é um perigoso marxista em potencial.

Nesse aspecto, livros, filmes, canções, jornais, peças de teatro e quaisquer manifestações culturais que discutissem a realidade eram colocados lado a lado com revistas como Status e Playboy: estas somente poderiam circular se, nas fotos, os mamilos das mocinhas fossem borrados, mostrados sem nitidez - além de não poderem aparecer dois bicos de seio na mesma foto. Tudo para respeitar a tradição de um povo que nunca falava em sexo e, se o praticava, só o fazia no escuro da sua privacidade, e para defender a família brasileira, a "célula-mater da sociedade", como gostavam de dizer, violentamente ameaçada pelo comunismo internacional.

Depois, como a situação política foi se deteriorando (do ponto de vista da ditadura), as revistas de mulher pelada foram sendo liberadas até o inimaginável nu frontal - para distrair as massas, ocupando-as a fim de não criticarem o governo.

Marx e as manifestações artísticas hostis, entretanto, continuaram censurados.


"Uma das senhoras da tal escola havia organizado uma festa para as adolescentes da escola e havia convidado um atorzinho da Globo, desses que estouram em determinada novela e são totalmente esquecidos em seguida, para dançar uma valsa com a 'sortuda' aluninha sorteada para realizar este 'sonho de Cinderela'. E disse-nos a dita senhora [a nós, à pobre Marcia Kupstas e ao pobre eu, que não receberíamos sequer um tostão de cachê] que o evento fora um sucesso e que o tal atorzinho havia cobrado 'apenas'... 3 mil dólares de cachê!"


Pedro Bandeira, O escritor-brinde.
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Amilcar Neves é escritor com sete livros de ficção publicados, diversos outros ainda inéditos, participação em 32 coletâneas e 44 premiações em concursos literários no Brasil e no exterior. http://www.guiasaojose.com.br/web/coluna_ler.asp?id=4774

 


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