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Expedição envia os primeiros relatos diretamente da TI Yanomami

09.11.2012
 
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No ano em que se comemoram os 20 anos da homologação da Terra Indígena (TI) Yanomami, teve início no dia 27 de outubro último, uma expedição integrada por Funai (Fundação Nacional do Índio), HAY (Hutukara Associação Yanomami), Exército e ISA, que vai percorrer até 18 de novembro cerca de 280 quilômetros no leste da TI, em Roraima. A iniciativa é apoiada pela Fundação Rainforest da Noruega. Leia os primeiros relatos da série e confira as fotos que o ISA começa a publicar hoje, enviados diretamente da Terra Indígena.

 A viagem começou no último sábado e vai até 18/11 e pretende colher dados para um diagnóstico da área entre os rios Ajarani e Apiau, onde há invasões não indígenas. Os primeiros relatos começam a publicados hoje (6/11). O antropólogo Moreno Saraiva MArtins enviou o diário de campo dos sete primeiros dias da expedição. Confira no mapa abaixo a rota da expedição.

Leia os relatos do antropólogo do ISA Moreno Sariva Martins e confira as fotos.

Sábado, 27 de outubro de 2012 (Primeiro dia de expedição)

"Saímos, eu e Morzaniel Yanomami, de Boa Vista, às 8h da manhã. Morzaniel é coordenador de comunicação da Hutukara Associação Yanomami, autor de diversos vídeos sobre os Yanomami. No dia anterior, uma parte da equipe já tinha chegado no Ajarani, com os equipamentos e a alimentação.

Saí dirigindo a kombi do ISA, pela BR-174, que liga Boa Vista a Manaus, até a altura de Caracaraí, onde pegamos a Perimetral Norte. Viajamos 35km até a primeira aldeia da região. Aldeia Xikawa, que significa "flecha" em língua Yanomami. Ou melhor, na língua Yaroamɨ, falada pelos Yanomami da região, que se autodenominam Yawari. São pelo menos 5 as línguas da família Yanomami.

 

Logo no início da Perimetral, o primeiro fato curioso da expedição: na beira da estrada uma figura diferente nos chama a atenção. Um senhor de mais de 60 anos, pedalando uma bicicleta com uma mochila dessas de acampamento na garupa e com uma máquina fotográfica no peito. Obviamente não era um morador da região. A excentricidade da figura me fez parar a kombi para conversar. Não falava português. Em inglês, descobri que era da República Tcheca, e que é um apaixonado pela Amazônia. "A Amazônia é como uma droga para mim". É a terceira vez que visita a Amazônia nos últimos 10 anos. Tem 64 anos e é médico em seu país. Estava vindo da Venezuela. Comprou a bicicleta em Boa Vista, e tinha o objetivo de chegar justamente nas margens do Rio Ajarani, dentro da TI Yanomami. Ali, ele montaria o caiaque inflável que estava em sua mochila, deixaria a bicicleta e seguiria descendo o Rio Ajarani até o Rio Branco, e daí até o Rio Negro, para chegar em Manaus.

 

Estamos usando o posto de saúde indígena da região como ponto de apoio logístico, estocando alimentos, equipamentos e combustível. Amanhã, 28, sairemos para percorrer os três primeiros trechos da expedição, e temos a previsão cumpri-los até o dia 2 de novembro. Estamos um pouco apreensivos, pois esta é a estação seca do ano, os rios estão bem baixos, e isso pode dificultar bastante o nosso deslocamento. Esses seis primeiros dias da expedição serão todos por rio. Desceremos o Rio Ajarani e depois subiremos, até as cabeceiras do Igarapé 30 e do Rio Repartimento. Estes dois últimos trechos provavelmente serão os mais complicados.

 

Hoje o dia foi para acertar a participação dos indígenas da região e também acertar os últimos detalhes de nossa logística. Primeiro, fomos até a comunidade do Xikawa. Tínhamos já combinado que alguns indígenas nos acompanhariam. Porém, um deles, se negou a participar, e também disse que ninguém mais da comunidade participaria. Ele participou da Assembleia da Hutukara realizada em outubro e ficou fora nos últimos 10 dias. Nesse meio tempo sua mulher o traiu, o que abalou diversas relações de parentesco da comunidade. Cada parte envolvida tomou o partido de sua família, e algumas tensões pré-existentes afloraram. Depois de muita conversa e de uma expedição frustrada de Kombi para tentar encontrar a mulher que fugiu da comunidade logo após ter sua traição revelada, conseguimos duas pessoas da comunidade para nos acompanhar.

 

Em seguida, fomos para a outra comunidade da região. De lá, duas pessoas participarão. Essa comunidade está na beira do Rio Repartimento. Aproveitamos para levar os dois motores de popa para testá-los nos barcos. Tudo certo. Nessa comunidade descobrimos que uma das canoas que usaríamos na expedição foi furada pelos próprios indígenas da região, em um momento de bebedeira. O uso abusivo de álcool é um problema crônico desde os primeiros contatos dos yanomami dessa região com os não indígenas, durante a construção da Perimetral Norte. Tive que ir até a cidade de Caracaraí, dirigindo por mais 120km de estrada de terra, para comprar uma cola e vedar o buraco.

 

O outro barco que poderíamos usar na expedição foi levado pelos indígenas dessa comunidade, acompanhados por não indígenas, para pescar rio acima. Vai ficando claro que não basta somente um trabalho de fiscalização na região, pois os próprios indígenas, durante todo o seu dramático processo de contato, foram sendo empurrados para atividades irregulares dentro da TI.

Saindo dessa comunidade, vimos um barco de pescadores subindo o rio. Eram amigos e familiares de um dos fazendeiros que ainda ocupam a região do Ajarani, dentro dos limites da TI Yanomami. Esse fazendeiro, segundo relatos dos funcionários da saúde e da Funai, sempre dá apoio logístico para às atividades, suprindo parte da deficiência dessas instituições.

 

Tudo pronto para dormir, me levanto para fumar um cigarro e tropeço em um degrau do posto de saúde. É bem provável que tenha torcido o pé. Espero que não seja o fim da expedição para mim, antes mesmo de ela começar".

 

Ler relatório na íntegra:

http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=3698


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