Pravda.ru

CPLP » Brasil

O papel da mídia no debate da maioridade penal

09.03.2007
 
Pages: 1234
O papel da mídia no debate da maioridade penal

 Gustavo Barreto, da Rede Nacional de Jornalistas Populares, março de 2007. Adaptado de entrevista concedida a Jamile Chequer, do Portal Ibase .

A “reivindicação” da redução da maioridade penal sempre retorna à pauta da imprensa de grande alcance. E a cobertura da imprensa é bastante triste, quase tão triste quanto os últimos acontecimentos. A vida de um ser humano é algo extremamente valioso, único, algo que os parentes das vítimas entendem bem. Quem parece não entender isso são as pessoas que compõem parte do sistema midiático contemporâneo.

De que forma a descrição contínua e irracional de que “o menino foi arrastado por 7 quilômetros e 4 bairros até a morte” ajuda na compreensão do que aconteceu? Perceba que esta é a grande frase da imprensa. Não é uma sentença do tipo “precisamos repensar o peso que damos à vida” ou algo parecido. Não podemos dizer que inexistem reflexões desse tipo, mas não é esse o tom da cobertura.


Logo após o acontecimento, importantes telejornais começaram a destacar diversos crimes em que jovens menores estavam envolvidos. A ênfase era sempre no fato de que um dos envolvidos em um crime tinha menos de 18 anos. Dentro desta linha de pensamento, a maioridade penal seria decorrência de uma incoerência do Código Penal. Neste momento, poucos registram – não me recordo de nenhum jornal, rádio ou TV – estatísticas sobre quantas crianças estão fora das escolas por falta de vagas ou sem moradia adequada. Não tentam esclarecer como funciona uma escola ou como os professores se relacionam com a comunidade ou com os pais. Nada disso é pauta. Relações muito mais absurdas, como a idade de um adolescente infrator, são destaque nas primeiras páginas.


Sociedade mobilizada?

É equivocado supor que a sociedade esteja mobilizada em relação a este tema. Ouvi frases em importantes telejornais como “Existem seis propostas para reduzir a maioridade penal que entraram em pauta nesta semana no Congresso...”. Este é o tipo de pressão legítima que um grupo organizado faz para chamar a atenção do grande público em relação a uma causa. É absolutamente legítimo, repito, em uma sociedade democrática.

A nossa questão é que não há democracia real no Brasil. Como escreveu um leitor (Jorge Afonso) sobre um texto que escrevi recentemente, “Democracia começa com ampla participação das organizações populares na mídia. Sem isso, é ditadura, é manipulação oligárquica em prejuízo do povo e do País”.


Portanto, não há controle social, não há pacto social, não há diversidade cultural. Se houvesse, não haveria problema em um grupo fazer pressão pela redução da maioridade. Teríamos outros seis, sete grupos, com seis ou sete outras propostas diferentes. Em algum momento, chegaríamos a um consenso. Avançaríamos, apesar das diferenças. Isto não acontece em um país onde, em centenas de anos, todas as grandes mudanças políticas se deram de cima para baixo. Felizmente, a meu ver, essa cultura sofre uma forte resistência, uma forte contracultura.


Foco no problema

A concentração de riquezas – cultural, econômica ou política – é uma questão que considero central quando se percebe a defesa que a imprensa de grande circulação faz da redução da maioridade. O mínimo de investigação sobre a violência na juventude – estudos de casos internacionais, literatura sobre o tema, entre outros – nos faz admitir que estamos falhando na formação da nova geração.

O modelo que adotamos, cujo principal traço é o consumo, já é por si só uma violência brutal e cotidiana contra os jovens. É um erro fatal aceitar a violência simbólica como menor que a violência física. Rubem Fonseca publicou um conto definitivo sobre o tema denominado “O Cobrador” (1979). Não há sociedade possível com esse modelo de consumo e concentração de riquezas.


Não sei se é possível responder sobre o que torna possível essa postura por parte da mídia. Mas aceito arriscar que a tentativa de negar esta contradição fundamental do capitalismo – o consumo e a concentração de um lado; a exclusão e a pobreza do outro – é uma peça-chave nesse jogo. Muitos dos formadores de opinião bem-pagos, desfrutando de todas as benesses da vida contemporânea, nunca conseguirão entender que o estilo de vida que vendem por meio da indústria cultural e midiática também é desejado por outras pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Em vez disso, põem a culpa na lei.


Com isso, perdem todos aqueles que gostariam de discutir coisas úteis para o nosso futuro. Ganham aqueles que estão satisfeitos com as mortes, com o caos urbano – e muitos estão. Perdem os que sofrem diariamente com este caos.

Nunca vi um repórter de uma grande TV ir lá na Avenida Brasil, onde trabalho, para falar sobre o caos no sistema de transporte mais popular da minha cidade, que é o ônibus. Compare, apenas para citar um exemplo, com a cobertura do sistema de transporte aéreo.


Direitos negados

Pages: 1234

Loading. Please wait...

Fotos popular