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A questão nacional não entrou na questão eleitoral

08.10.2018
 
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A questão nacional não entrou na questão eleitoral

Pedro Augusto Pinho*

Desde o momento que o capitalismo financeiro, que denomino banca, dominou o mundo capitalista, novas prioridades passaram a definir a luta dos povos por suas independências. E, como é óbvio, este novo poder dominante criou novos mitos, novas questões para desviar desta luta seus principais conteúdos, quais sejam as ações nacionais pela soberania e pela cidadania.

Ter colônia de escravos, e no mínimo número necessário para produzir seus lucros, é o objetivo da banca.

Temos, por exemplo, a violência e a corrupção como temas eleitorais, em 2018, enquanto se entregam bens insubstituíveis de propriedade do Brasil aos estrangeiros. Bens naturais, dádivas de um território rico, e bens intelectuais, fruto do esforço e dos investimentos dos brasileiros como a Embraer e a tecnologia de produção de petróleo em águas ultraprofundas.

A banca e suas ações no poder

A banca assumiu o poder em 1990. Pode-se estabelecer data diversa, mas foi naquele ano - após as desregulações financeiras adotadas pelo Reino Unido (Margaret Thatcher) e pelos Estados Unidos da América (EUA) (Ronald Reagan) e tendo fim o socialismo industrial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) - que a banca pode incorporar em seus ativos toda imensa fortuna dos ilícitos - tráficos de droga, das escravidões humanas, comércio de órgãos humanos, vendas de armas, enfim, dos valores colossais de todos os crimes - uma vez revogadas as regulamentações financeiras que impediam ou criavam dificuldade para suas  inclusões formais nas transações internacionais.

A banca já constituíra os paraísos fiscais mas, com esta liberdade de ação, eles seriam estimulados e fortalecidos. O economista Gabriel Zucmann, em notícia no BBC News, afirma que 55% dos lucros das empresas estadunidenses passam por paraísos fiscais.

Usando dados do Fundo Monetário Internacional (FMI - World Economic Outlook) verificamos que a economia, formalizada, em valores constantes, cresceu 2,1 vezes entre 1980 e 2000, e 1,5 vezes entre 1990 e 2000. Pode-se entender, que este acréscimo no último decênio do século XX foi possível, em boa parte, pela inclusão de valores até então não passíveis de contabilização.

E a banca, especialista em lavagem de dinheiro, passa a constituir fundos financeiros com os quais comprará as grandes empresas internacionais. Meu prezado leitor já sabe que a Unilever, a General Motors, a Exxon, a BP, a Ford, a Colgate-Palmolive, a IBM, e toda multinacional que queira conferir, terá entre seus principais acionistas o Blackrock, o Vanguard, o State Street e outros trilionários fundos de investimentos. E que seus investidores, em significativo montante financeiro, tem origem em paraísos fiscais.

Com a expansão desregulamentadora pelo mundo - por fraudes eleitorais, golpes e compra de congressos/dirigentes - criou-se o mito da globalização, que apenas se aplica às finanças; para tudo mais, serão necessárias permissões, de um passaporte, de uma autorização para constituição de negócio comercial ou industrial ou para construção de estrada etc.

A tomada do Estado pela banca

Como é evidente, para conseguir as desregulações, mantê-las e evitar os custos e constrangimentos de burocracias individualizadas por Estados, assim como ônus tributários redutores dos lucros, a banca passar a tomar os Estados Nacionais ou demoli-los por revoltas provocadas (primaveras árabes).

Fiquemos, tanto quanto possível, no Brasil. Em 1989, por fraude nas informações, os brasileiros votaram em Collor, cujas primeiras medidas, a título de desburocratizar, criar o Estado mínimo e outras baboseiras, congelou as poupanças e investimentos (valeriam menos ao serem descongelados) e abriu o caminho para banca. Em seguida a banca passa ao programa de privatizações, retirando poder do Estado e transferindo para as empresas que seriam ou já estavam sendo compradas pelos fundos financeiros. Com Fernando Cardoso a banca foi o próprio governo, revogando tudo que fora conseguido pelas forças nacionalistas e progressistas na Constituição de 1988. Conseguiu até extinguir os ministérios militares, no embalo da oposição à ditadura.

Neste momento, a banca já construía sua nova ditadura jurídico-midiática, expandindo para parlamentar, pela pressão das mídias e das Lava Jato.

Veja o caro leitor, que não há espaço para amadorismo. A banca chega ao poder com a academia, que lhe proporciona os melhores cérebros para simulações, e com a comunicação de massa, em todos os veículos, inclusive aqueles que influenciarão os novos acadêmicos e a intelectualidade progressista.

Assim como já utilizara a ecologia, na primeira metade do século XX, para combater o capitalismo industrial, a banca incentiva as questões transversais - feminismo, liberdade sexual, uso de drogas, homoafetividade, religiosidades - para desfocar a luta nacionalista e desenvolvimentista.

Para combater os partidos e lideranças contra os projetos da banca, esta usa seu aliado: o judiciário. Em outro tempo, o capitalismo industrial incentivou, a partir da própria nação colonizadora, a junção com os militares: complexo industrial-militar. Foi assim que se construiram, majoritariamente, os golpes no século XX.

Agora se darão pelas Lava Jato, pela luta contra corrupção, o que chega a ser incrivelmente cínico pois a corrupção é, sempre foi, arma da banca.

Equador, Argentina estão sofrendo suas Lava Jato para Presidentes que não se curvaram à banca. Como o judiciário venezuelano não se deixou comprar, a ameaça sobre a Venezuela é a invasão dos EUA com suas colônias vizinhas: Brasil e Colômbia.

Mudando paradigmas de poder

Em sintética referência histórica, a partir da Idade Média europeia, o poder se expressou pela propriedade fundiária e pela propriedade da dívida, sucessivamente. Tanto o mercantilismo, como o impulso colonial estiveram a serviço destes poderes nacionais. O fenômeno industrial é moderno e teve seu empoderamento com o desenvolvimento estadunidense.

O poder da dívida, que se expressa na banca, difere não apenas pelas tecnologias da informação e da comunicação, mas pelas novas demandas da sociedade. Por isso, a banca global, do século XXI, não repete o financismo das oligarquias rurais brasileiras da I República, ou República Velha, secundando o financismo inglês.

Hoje há, efetivamente, o poder do capital sem pátria, como o qualificava Karl Marx, e até financismos regionalizados, como da República Popular da China (China).

É de suma importância saber retirar as maquiagens e verificar o que representa, efetivamente, o poder nacional e que outros poderes, nosso poder nacional pode, eventualmente, ter como aliado e como opositor.

Com todas ressalvas da análise pessoal, apontaria cinco manifestações de poder atuando no mundo, nesta segunda década do século XXI:

1) a banca, o mais poderoso e com maior atuação, dominando estruturas de Estados e, por óbvio, o sistema financeiro internacional e seus organismos: Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu (BCE), e a quase a totalidade dos Bancos Centrais, principalmente os que não sejam do Estado Nacional, como o Banco da Inglaterra e o estadunidense (Sistema de Reserva Federal - FED), e os que tenham total autonomia como o Banco do Japão;

2) renascimento industrial dos EUA, surgido com a eleição de Donald Trump, que pretende retomar a condição de árbitro dos negócios internacionais, com acordos preferenciais, perdida para a banca e, na análise estadunidense, também para a China, ao tempo que incentiva, igualmente, seu  complexo industrial-militar. A bem da verdade, este sistema já vem produzindo frutos: aumentou o número de empregados e o valor de salários estadunidenses e, gradualmente, as taxas de juro;

3) desenvolvimentismo russo. Após a queda do comunismo, a Federação Russa (Rússia) foi tomada pela banca e pela marginalidade que vivia no submundo soviético. A chegada de Putin renovou o industrialismo e a pesquisa científica e tecnológica. Hoje a Rússia dispõe de armamentos mais avançados do que os EUA e tem presença marcante nos conflitos em seu entorno. Está lutando em várias frentes, com bloqueios e sanções, mas conseguindo manter apoio interno e prosseguir seu desenvolvimento e sua expansão asiática, velha política dos czares;

4) desenvolvimentismo chinês, com financismo à margem da banca. É sempre complexa a análise de um império milenar, que foi a grande potência do século XV, mas não se dedicou à colonização, fora de seus espaços geográficos mais restritos. Ainda hoje, a China se especializa na batalha comercial e, mais recentemente, nos empréstimos internacionais. Mas seu uso da dívida é comercial, tanto para venda de produtos como para garantia de insumos, e não, por enquanto,  para dominação colonial;

5) desenvolvimentismos autônomos. São casos de países de pequena população e expressão internacional, como países nórdicos e a Bolívia, com características diversas. O Brasil tentou e fracassou nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Mas não é objetivo deste artigo estudar esta questão.

Desde o fim dos governos militares (1967-1985) o Brasil perdeu um projeto nacional de poder.

É até curioso verificar quantas semelhanças encontramos no tenentismo com o Brasil pós-golpe.

Os governos de Collor e Fernando Cardoso conduziram o País para a República Velha, talvez para o Império. Nenhum projeto de nação, destruição das conquistas industriais, tecnológicas, submissão vergonhosa aos interesses coloniais. É preciso ter claro que os interesses da banca e dos EUA se conjugavam no novo modelo colonizador, assimilado pelas elites brasileiras.

Pequena reflexão sobre nossa elite

Darcy Ribeiro, este gênio brasileiro, antropólogo, pedagogo, pensador, afirmava serem nossas elites maldosas e mesquinhas, acrescento ignorantes e covardes. Parodiando Euclides da Cunha, diria que lhe agrada a postura servil, curvada ao estrangeiro, embora invejosa e cruel com os que dela dependam.

Os raros momentos em que parcela desta elite, crítica e nacionalista, buscou um projeto ou o fortalecimento da nação foi-lhe atirada, com injustiça e apoio estrangeiro, a pecha de corrupta. Assim ocorreu com Getúlio Vargas (morreu mais pobre do que nasceu, tendo sido ditador e presidente eleito por quase 20 anos), Juscelino Kubitschek, João Goulart e Lula.

A Era Vargas, que juntou o poder nacional ao reconhecimento dos direitos sociais, tem sido objeto da destruição de todos governantes, representantes desta alienada elite brasileira e, em consequência, de interesses estrangeiros. O período militar também não foi o da expressão desta elite, principalmente no Governo Geisel, mas a opressão do poder e a covardia calaram estas elites.

Quem são seus representantes? Os escravistas, os racistas, os que se envergonham da nacionalidade brasileira e buscam, mesmo remotamente, origens europeias para se justificarem. Os que fraudam impostos e direitos dos outros, Mas são, principalmente, os ignorantes, como a imensa maioria da denominada classe média, que, sem qualquer capacidade de entender nossa realidade, acusam o pobre, por ser pobre, de prejudicar o país.

Esta elite, só a contragosto ou por interesse político, mora no Brasil.

Reconstruindo um paradigma para o Brasil

Os tenentistas tiveram esta análise, naquela época, e seus movimentos, ainda que desarticulados, nos anos 1920, buscavam a saída pela educação e pela industrialização. O golpe de 2016 buscou retroceder exatamente na industrialização e na educação; a Lava Jato, o corte de gastos são a demonstração, como se esta fosse necessária, tão evidente é sua ação.

Os partidos políticos do atraso foram, no passado, a União Democrática Nacional (UDN), hoje, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e seus parceiros Democratas (DEM) e Partido Progressista (PP). A imensa maioria dos políticos e dos partidos não tem posição nacional, por incrível que possa parecer. São paroquiais: pelas regiões ou propósitos clientelistas. O que não exclui, evidentemente, algumas poucas figuras políticas.

O professor André Martin, da Universidade de São Paulo, em palestra no Congresso, defendeu a ideologia "meridional" para o desenvolvimento nacional. Sem dúvida uma proposta bem fundamentada e interessante. Mas, entendo que mais importante, neste momento, é desconstruir a pedagogia colonial. Esta está de tal modo entranhada em nossas mentes que, mesmo com quase trinta anos de domínio da banca, ainda há, e não poucos, brasileiros que raciocinam em termos de guerra fria. Ou com receio do comunismo ou com novos "comunismos", os bolivarianismos.

O professor Martin, com clareza e correção, afirmou que sem uma ideologia nacional não se constrói uma nação. E deve ser generosa, não imperialista. Realmente, os EUA, antes de vender o anticomunismo, construiram o "american way of life" como ideologia conquistadora.

Na construção da cidadania, como venho escrevendo, é parte integrante a construção da consciência, de sua própria existência, da aceitação de seu ser, do respeito aos outros, e, certamente, da consciência nacional brasileira.

A campanha eleitoral revelou, além de toda farsa e fraude que o poder jurídico-midiático nos impôs, um sentimento de reerguimento nacional que pode e deve, no sentido da construção do poder nacional, se dar pelas Forças Armadas.

O fortalecimento das Forças Armadas, como visto pelos tenentes, se efetiva pela educação e pela industrialização. Sem esta importação imbecil da luta contra a corrupção, como ideal brasileiro.

Este não é projeto de um antagonismo, impróprio para nosso momento, mas da reconstrução do Brasil, soberano e cidadão.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

Fonte: http://www.patrialatina.com.br/a-questao-nacional-nao-entrou-na-questao-eleitoral/

 


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