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Brasil: O futuro das exportações

08.08.2006
 
Brasil: O futuro das exportações

Milton Lourenço (*)

As exportações brasileiras, na última década, registraram um crescimento de 9,3% ao ano. Nos últimos cinco anos, no entanto, esse crescimento ficou em torno de 21% ao ano. Visto a partir dos números, o panorama parece muito alentador e permite concluir que, nos próximos dez anos, o crescimento deverá ser muito mais significativo, quem sabe a ponto de tirar o País da humilhante condição de responsável por apenas 1% do comércio internacional.

A questão, porém, é que os números são frios e, geralmente, escondem algumas nuances que precisam ser debatidas a fim de que surjam as correções de rumo. Caso contrário, o futuro poderá reservar surpresas desagradáveis. Como se sabe, o avanço das exportações brasileiras, nos últimos anos, deu-se em função da forte evolução da demanda mundial e de uma taxa de câmbio desvalorizada até o ano passado, além de um baixo crescimento interno, que, em tese, estimula a busca do mercado internacional. Portanto, não foi um crescimento sustentável, o que significa que, se a conjuntura internacional mudar, dificilmente, aquelas taxas haverão de se repetir.

Mais: nos últimos meses, apesar do dólar barato, a maior parte das empresas exportadoras abriu mão da rentabilidade para continuar no mercado. É uma medida sensata, pois atuar no mercado externo pressupõe continuidade e persistência, mas a verdade é que muitas empresas só conseguiram manter o volume de exportação do ano passado porque reduziram os preços de seus produtos.

Isso ficou claro num estudo que a própria Agência de Promoção às Exportações (Apex-Brasil), entidade ligada ao Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC), promoveu para saber como empresas de 32 setores da economia sobreviveram ao câmbio desfavorável. Segundo o estudo, mesmo com a maré contrária, alguns setores, como café e carne bovina, esperam aumentar suas exportações a partir da conquista de novos mercados, especialmente com a eliminação de restrições sanitárias impostas por outras nações. As perspectivas, porém, não são muito favoráveis, pois a União Européia já anunciou que pretende reforçar as restrições a vários produtos em razão de precauções sanitárias.

Há outros setores que nem mesmo essas perspectivas têm. Calçados, móveis e têxteis já anunciaram que esperam queda nas exportações. São setores que já tiveram queda nas exportações e não conseguiram reajustar os preços. Contra esses setores, há o avanço do produto chinês, quase sempre de qualidade inferior, mas de preço infinitamente mais baixo. Para enfrentar essa concorrência predatória, só mesmo com a agregação de valor aos produtos. E, claro, é preciso buscar mercados dispostos a pagar mais por um produto melhor.

Como já era de se esperar, a pesquisa encomendada pela Apex-Brasil constatou que a valorização do real foi fatal para a sobrevivência das pequenas e médias empresas no comércio exterior. Das 4.038 empresas que deixaram o mercado externo em 2005, 82% exportavam até US$ 100 mil por ano. Mais da metade das empresas que pararam de exportar — 2.304 — eram indústrias, principalmente dos setores de calçados, couro, têxteis, vestuário, móveis, máquinas e equipamentos. Também algumas tradings deixaram de atuar. Como causa, todas apontaram a perda de rentabilidade em razão do câmbio.

Outras pesquisas têm mostrado que as exportações brasileiras vêm crescendo mais pelas quantidades vendidas do que pelos preços. Ou seja, o País está exportando mais em volume de commodities, enquanto nos produtos de alto valor agregado o crescimento é pouco significativo. Mas, seja como for, os mercados que realmente contam para o Brasil são a América Latina e os EUA.

Embora nos números as exportações tenham crescido menos no governo anterior, o que se conclui é que a política comercial da década passada estava no caminho certo, ao priorizar a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Ao condenar ao fracasso a Alca, o governo atual, depois do malogro das negociações da Rodada de Doha em Genebra, começa a levar o comércio exterior a uma situação crítica.

Diante desses números, não se pode olhar com muito otimismo para o futuro das exportações brasileiras, principalmente porque, hoje, o País não têm acordos comerciais relevantes. E o governo não parece disposto a sair em busca deles, o que significa que o Brasil corre um sério risco de ficar excluído dos mercados internacionais.

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(*) Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP (www.fiorde.com.br). E-mail: fiorde@fiorde.com.br


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