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Entrevista: Para Pomar, postura do governo brasileiro no caso Bolíva é correta

08.05.2006
 
Pages: 123
Entrevista: Para Pomar, postura do governo brasileiro no caso Bolíva é correta

Para Pomar, além de reconhecer a soberania daquele país, o Brasil obteve garantias de fornecimento de gás boliviano e diferenciou os interesses do país dos interesses da estatal Petrobras.

O dirigente petista diz ainda que a reação tranqüila do governo brasileiro e o sucesso da reunião realizada ontem (4) entre os quatro presidentes (Lula, Evo Morales, Hugo Chávez e Nestor Kirschner) atrapalhou os planos da oposição, que esperava tirar proveito ao tentar transferir ao Brasil a responsabilidade pela decisão do governo boliviano.

“Na origem imediata da crise, está um acordo patrocinado pelo governo FHC, que não previu alternativas para uma situação como essa”, lembra Pomar.

Ele ressalta ainda que, por trás da crise, há quatro fatores fundamentais: 1) uma batalha mundial pelo acesso a fontes energéticas, como o petróleo e o gás; 2) uma tentativa de manter baixos os preços do gás, que tende a ser puxado para cima pela alta do preço do petróleo; 3) uma tentativa de impedir que tenha curso a aproximação entre os governos de esquerda e progressistas existentes na América Latina; 4) a existência de preconceito ideológico, racista, xenofóbico.

Valter Pomar discorre sobre cada uma delas na entrevista abaixo, concedida ao Portal do PT:

Como você avalia a reação do governo brasileiro frente à decisão da Bolívia de nacionalizar a exploração de gás e petróleo?

A postura do governo brasileiro foi a mais correta possível. Reconheceu o direito soberano da Bolívia de decidir sobre seus recursos naturais. Obteve garantias de que não haverá suspensão no fornecimento do gás boliviano. Defendeu os interesses da Petrobras, mas soube diferenciar o que são os interesses da empresa enquanto tal, dos interesses do país. Sustentou a necessidade da integração continental, impedindo que a situação evoluísse para um conflito que só teria como beneficiário os Estados Unidos e as demais forças conservadoras do continente. E alertou para o fato de que, na origem imediata da crise, está um acordo patrocinado pelo governo FHC, que não previu alternativas para uma situação como essa.

Qual a sua opinião sobre o decreto de Morales?

Evo Morales defende, há muitos anos, a mais ampla soberania da Bolívia sobre seus recursos naturais. Deixou claro, na campanha eleitoral em que se elegeu presidente, que faria o que efetivamente fez. Ademais, seu decreto prevê prazos e procedimentos. Portanto, do ponto de vista dos interesses do povo boliviano, ele fez o que devia ser feito. Além disso, Evo Morales tem deixado claro que não pretende ruptura de negociações com o Brasil nem com a Petrobras.

A Petrobras investiu, desde 1996, cerca de US$ 1,5 bilhão na Bolívia, e outros US$ 2 bilhões para trazer o gás para o Brasil. O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, disse que os termos do decreto não foram discutidos previamente com a empresa e classificou a decisão como “inamistosa”. Não houve excesso por parte do governo boliviano?

As declarações de José Gabrielli devem ser compreendidas, em parte, devido à situação da Petrobras, que foi parcialmente privatizada, que tem ações negociadas em bolsa, cujos proprietários poderiam questionar a direção da empresa caso esta claudicasse na defesa de seus interesses. Mas, como disse antes, é preciso levar em conta outros elementos. Por exemplo, a decisão de que a Petrobras iria investir na Bolívia, a maneira como o fez, a dependência gerada em relação ao gás boliviano, o fato de o Brasil ter pago durante muito tempo um gás que não consumiu, as denúncias de que as petrolíferas lesaram o Estado boliviano em mais de US$ 500 milhões, devido a impostos não pagos. É preciso levar em conta, também, que o patrimônio efetivo da Petrobras no país não chega a US$ 400 milhões. Finalmente, não vamos ser ingênuos: algumas empresas, como a Repsol YPF, de capital hispano-argentino, bem que gostariam que a Petrobras tirasse as castanhas do fogo para eles. Por outro lado, a idéia de que houve "excesso" do governo boliviano precisa ser analisada em comparação a uma história de espoliação sistemática daquele país por capitalistas estrangeiros. Um exemplo disso é o senhor Eike Batista, dono da siderúrgica EBX. Este senhor instalou quatro fornos sem licença ambiental, apoiou movimentos separatistas na província de Santa Cruz e agora quer aparecer como um pobre empresário brasileiro ameaçado pelo governo boliviano.

A postura do governo brasileiro diante da decisão de Morales gerou críticas duras no Congresso e também na sociedade. A oposição inclusive tenta transferir para o governo brasileiro a responsabilidade pela decisão do governo boliviano. Você acha que isso pode gerar ônus eleitorais para a eventual campanha à reeleição?

A oposição está mesmo sem gás e achou que ia conseguir algum com esta crise. Mas a reação tranqüila do governo brasileiro e o sucesso da reunião entre os quatro presidentes mostra que não vão ter sucesso. Ou melhor: que só terão sucesso se nós quisermos e deixarmos. De toda forma, é importante perceber o que está por trás desta crise. Primeiro, há uma batalha mundial pelo acesso a fontes energéticas, como o petróleo e o gás. Nesse quadro, tudo o que os Estados Unidos não querem é ver governos de esquerda ou simplesmente

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