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Veja bem: malandro demais se atrapalha

07.10.2007
 
Veja bem: malandro demais se atrapalha

A revista Veja, edição 2022, de 22/08/2007, publicou uma "pesquisa" cujo propósito seria "...verificar a percepção dos brasileiros em relação às diferentes cores de pele". A revista informa que "...o autor da pesquisa submeteu os entrevistados a um questionário em que eram apresentadas fotografias de brancos, negros e pardos. As pessoas tinham de associar atributos positivos e negativos aos indivíduos retratados."


Eis o resultado:


Inteligência: Brancos (42%), Negros (22%) e Pardos (10%)
Honestidade: Brancos (30%), Negros (26%) e Pardos (14%)
Modos educados: Brancos (44%), Negros (22%) e Pardos (9%)
Preguiçoso: Brancos (35%), Pardos (23%) e Negros (9%)
Criminoso: Pardos (29%), Negros (16%) e Brancos (8%)
Malandro: Negros (23%) Pardos (22%) e Brancos (15%)
Diante disso, pergunto eu aqui fazendo pesquisa como o tal sociólogo: se as fotos fossem expostas num estande de tiro, no lugar dos alvos, qual delas viraria peneira?


Porém vamos analisar a tal "pesquisa" que a Veja nos apresentou. Vejamos a correlação entre esses três itens:
Inteligência: Brancos (42%), Negros (22%) e Pardos (10%)
Preguiçoso: Brancos (35%), Pardos (23%) e Negros (9%)
Malandro: Negros (23%) Pardos (22%) e Brancos (15% )
Agora vamos abrir o Houaiss e os aurélios em geral.


Se considerarmos "malandro" interpretando apenas através de algumas de suas acepções, como, por exemplo, "que ou aquele que não trabalha, que emprega recursos engenhosos para sobreviver; vadio" ou "que ou aquele que leva a vida em diversões, prazeres", ou ainda "que ou aquele que tem preguiça; mandrião, indolente", então os negros deveriam estar na frente dos brancos no item preguiça, preguiçosos disparados! Pois foram considerados "malandros". E malandro aqui é sinônimo de vadio. No entanto os negros aparecem como menos preguiçosos, e com uma diferença gritante: Brancos 39% preguiçosos x Negros apenas 9% indolentes.


Se considerarmos outros significados da palavra "malandro", como aquele que é "sagaz, arguto, dotado de sagacidade; perspicaz, fino; que não se deixa enganar; esperto", aí, então, por mais que queiramos dissociar essas qualidades da "inteligência", não podemos. Inteligente e otário não combinam numa mesma pessoa. E os negros, neste caso, deveriam estar ganhando no item "inteligência", pois ganham em "malandro"; portanto, considerando-se este significado da palavra, seriam muito mais inteligentes que os brancos.


Acontece que, ao invés de perguntar qual o mais "laborioso", o sujeito preferiu perguntar qual o mais "preguiçoso", do contrário ficaria difícil associar os negros ao "malandro". Sim, claro, se são os menos preguiçosos, eles teriam ganhado como os mais trabalhadores, lógico! Então seria como dizer que um diligente trabalhador poderia ser o "malandro" que agora está escondendo o jogo. Aí, só vai na chibata! Certamente a pergunta sobre preguiçoso está relacionada àquelas primeiras conotações de "malandro", as que concluem em "vadio". Portanto, o "malandro" também está relacionado ao "vadio", ao "preguiçoso". Se o tal pesquisador tivesse perguntado qual o mais trabalhador, então, ganharia o negro, pois a tal "pesquisa" indica que são os "menos preguiçosos".


Malandro, no sentido de "sagaz, arguto, dotado de sagacidade; perspicaz, fino; que não se deixa enganar; esperto", é o que o negro, na nossa sociedade, muitas vezes é obrigado a ser; pois, sem isso, a maioria dificilmente sobreviveria. A malandragem do negro se diferencia daquela do branco que sempre teve o poder da grana que ergue e destrói coisas belas (favor ouvir "Homenagem ao Malandro", Chico Buarque).


Malandro no sentido de "que ou aquele que não trabalha, que emprega recursos engenhosos para sobreviver; vadio" ou "que ou aquele que leva a vida em diversões, prazeres", ou ainda "que ou aquele que tem preguiça; mandrião, indolente", isso ficou "provado" que é o branco, pois aparece como o mais "preguiçoso".


Bom, pelo visto, se o item "honestidade" fosse feito entre os que fazem a revista Veja, provavelmente os brancos perderiam para os negros de nove a zero, pois na redação da Veja deve existir, pelo menos, 10% de negros. Idem para a questão "modos educados". Quanto a "criminoso" prefiro deixar por conta da Justiça.


Mas que paradoxo!


Eu disse "paradoxo"? Bom, foi só um eufemismo. É malandragem mesmo!


Pois tudo mundo sabe: malandro demais se atrapalha.

Fernando Soares Campos

Brasil


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