Pravda.ru

CPLP » Brasil

Vida, luta e martírio do sargento Manoel Raimundo Soares (2)

07.05.2009
 
Pages: 123
Vida, luta e martírio do sargento Manoel Raimundo Soares (2)

Manoel Raimundo teve a prisão decretada em abril, e foi expulso do Exército em junho de 1964. Para não ser preso e poder integrar-se à luta antiditatorial, apenas estourou o golpe, desertou de seu quartel em Campo Grande, junto ao sargento Araken Galvão, também destacado no Mato Grosso. Manoel Raimundo e Araken viajaram para Juiz de Fora e, a seguir, para o Rio de Janeiro, de onde partiram, mais tarde, para o Rio Grande do Sul.

A sub-oficialidade nacionalista

A frustração ensejada pela derrota sem resistência e o crescente descontentamento popular levaram a que suboficiais nacionalistas de esquerda das forças armadas, em especial do Exército e da Marinha, presos e reformados em grande número, tenham sido o setor social que se disponibilizou prontamente para a luta antiditatorial direta, no contexto prático e político próprio ao mundo castrense, organizando-se em torno de Leonel Brizola, que seguia no Uruguai disposto a lutar pelas forças das armas pelo fim da ditadura.

Manoel Raimundo teve a prisão decretada em abril, e foi expulso do Exército em junho de 1964. Para não ser preso e poder integrar-se à luta antiditatorial, apenas estourou o golpe, desertou de seu quartel em Campo Grande, junto ao sargento Araken Galvão, também destacado no Mato Grosso. Manoel Raimundo e Araken viajaram para Juiz de Fora e, a seguir, para o Rio de Janeiro, de onde partiram, mais tarde, para o Rio Grande do Sul. Manoel Raimundo teria declarado à polícia que viajou para Porto Alegre em 26 de janeiro de 1965 à procura de emprego, retornando ao Rio de Janeiro em 6 de março. Em 29 de setembro teria voltado ao Sul, sob promessa de trabalho feita pelo suboficial Leony Lopes, que lhe teria igualmente apresentado Edu Rodrigues, civil pretensamente oposicionista, mas nos fatos informante da polícia, como veremos.

Mais de 20 sargentos teriam viajado, como Manoel Raimundo, do Rio de Janeiro a Porto Alegre para integrar-se à resistência. Uma transferência mais do que compreensível, pois desde 1964 o Rio Grande do Sul tornara-se a principal via para alcançar ou manter contatos com o Uruguai, então centro anti-ditatorial. Em 1965, haveria mais de 2.000 brasileiros refugiados naquele país. De 1964 a 1966, o ex-governador Leonel Brizola depositou grande esperança na possibilidade de sublevar Porto Alegre e o Rio Grande do Sul apoiado em oficiais e suboficiais constitucionalistas, nacionalistas e de esquerda ainda em serviço.

A primeira resposta armada à ditadura

Foi precisamente do Uruguai, em 20 de março de 1965, que o coronel do Exército Jéferson Cardin de Alencar Osório e o sargento da Brigada Militar Alberi Vieira dos Santos ingressaram no Rio Grande do Sul para organizar coluna de pouco mais de 20 homens. O grupo armado, após tomar a cidade sulina de Três Passos, em 25 de março, dirigiu-se ao oeste do Paraná, onde no dia 27 foi dispersado após combate desigual com as forças da ditadura. No combate morreu um sargento das forças repressivas. O objetivo da coluna do Movimento Nacionalista Revolucionário, ligado a Leonel Brizola, era sublevar militares oposicionistas no Rio Grande do Sul e a seguir no Brasil.

Em Porto Alegre, desde começos de 1965, como assinalado, o sargento Manoel Raimundo, companheiros seus do Comando Geral dos Sargentos e outros resistentes locais participaram ativamente da organização de dois levantes de quartéis da Brigada e do Exército da capital. O primeiro contaria com "entre 40 e 70 pessoas prontas para fazer a insurreição", "espalhadas por aparelhos em Porto Alegre", e mais outros suboficiais que chegariam do Rio de Janeiro. O plano teria desandado devido à prisão de Araken Vaz Galvão.

Em fevereiro-março de 1966, após o fracasso da chamada "Guerrilha de Três Passos", um segundo projeto de levante em Porto Alegre não prosperou, devido à denúncia do plano ao comandante Osvino Ferreira Alves, um dia antes da sua eclosão por capitão da Brigada Militar envolvido no movimento, com a prisão de oficiais, suboficiais, trabalhadores, estudantes etc. O fracasso do segundo levante fortaleceu a proposta da organização da luta antiditatorial através de focos armados rurais, desejada pelos suboficiais do Exército e Marinha, e à qual Leonel Brizola resistia.

A queda de Manoel Raimundo

Às 17h35 da tarde de 11 de março, Manoel Raimundo foi preso ao entregar entre 500 e 2.000 panfletos, possivelmente por ele escritos, com os dizeres "Abaixo a ditadura militar", contra a chegada naquele dia a Porto Alegre do general-ditador Castelo Branco, e a Edu Rodrigues, um civil alcagüete, em frente ao auditório Araújo Viana. Na distribuição dos manifestos estariam envolvidos funcionários da Carris, empresa pública com antiga tradição de luta sindical e política. Conhecido pelo serviço de informação do Exército como uma das principais lideranças do movimento dos sargentos e, possivelmente, por seu envolvimento nos movimentos de resistência em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, Manoel Raimundo era uma presa valiosa para a repressão, já que, se vergado, causaria baixas duríssimas entre seus companheiros de luta e no movimento de resistência à ditadura.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular