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Como resistir?

06.12.2018
 
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Em 1964, quando os militares deram um golpe de estado, afastando o Presidente João Goulart, os partidos que formavam o núcleo de apoio ao governo deposto - basicamente o PTB e o PCB - e os representantes das entidades civis que, ainda que criticamente, defendiam o governo, os sindicatos e as entidades estudantis principalmente, cometeram dois erros de avaliação.

 Primeiro, a percepção de que se tratava de mais uma quartelada e que logo as forças políticas conservadoras que apoiaram o golpe, logo voltariam a controlar o governo. O segundo erro foi quando, percebendo que os militares pretendiam se eternizar no poder, partiram para o confronto armado, dando aos militares, muito mais fortes nesse campo, a oportunidade de dizimarem as oposições, envolvendo nessa destruição não apenas os que pegaram em armas, mas também os que faziam apenas oposição política.


Todos nós sabemos que os militares ficaram 20 anos no poder e só admitiram o retorno dos civis após negociarem uma anistia que os livrou de todos os crimes que praticaram.


Trinta anos depois, um novo golpe derrubou a vacilante democracia brasileira e instaurou um sistema híbrido, onde permaneceram algumas conquistas democráticas, ao lado de práticas autoritárias.


O golpe parlamentar, com o apoio do Judiciário e da Mídia, que derrubou uma presidenta legitimamente eleita e colocou no seu lugar um político continuamente acusado de corrupção, só podia se encaminhar para uma eleição fraudada pelo uso de uso de instrumentos ilegais de convencimento de eleitores que colocaria no poder o mais inabilitado de todos os que exerceram essa função, mesmo considerando o período ditatorial.


A partir de primeiro de janeiro, um país gigantesco, com imenso potencial econômico, com uma população de mais 200 milhões e que já foi considerado a sexta economia do mundo, será comandado - pelo menos nominalmente - por uma figura extremamente tosca, que em cada um dos seus pronunciamentos mostra uma ignorância extrema sobre os temas que aborda.


Um capitão do exército, que um general como Geisel, o penúltimo dos presidentes da era militar, considerou um militar nocivo a instituição e que só não foi expulso pela benevolência dos juízes do tribunal militar, vai nos encher de vergonha perante o mundo civilizado quando tiver que falar em nome do País.


Como resistir, então, sem cair nos erros do passado.
O que os partidos de esquerda, com o PT a frente, derrotados nas últimas eleições, podem fazer?


De todos os segmentos de oposição hoje existentes, nos partidos, nas universidades, nos sindicatos e em outras associações de classe, só o PT dispõe de estrutura para coordenar essa luta.


São quase 50 milhões de votos dados ao PT nas últimas eleições, são quadros burocraticamente organizados internamente e que dispõe de meios de comunicação com toda a população e são principalmente alguns políticos que ainda são ouvidos pelo povo.
O PT precisa rapidamente assumir essa luta. Mas para isso, precisa ouvir as criticas que lhe são feitas e não repetir os erros do passado.
Como já disse em outro texto, não tenho dúvidas que os governos Lula e Dilma foram extremamente benéficos para os trabalhadores, mas infelizmente também para os banqueiros, os empresários e à grande mídia.


Fundamentalmente, o PT perdeu a oportunidade histórica de conquistar para os trabalhadores não apenas o governo, mas também o poder, ou pelo menos, uma parcela dele.
Foi incapaz de mobilizar politicamente o povo, preferindo em vez disso os pactos espúrios e negociações nebulosas, onde se perdeu também a respeitabilidade de muitos dos seus líderes.


Mais do que isso, armou seus inimigos e em nome de um republicanismo que ninguém nunca respeitou no Brasil, entregou postos chaves no parlamento, no judiciário e na policia federal, para inimigos declarados.
Quando se armou a farsa do impeachment contra Dilma, o PT jamais convocou o povo para sair às ruas e defender seu mandato, preferindo acreditar nas negociações parlamentares.
Quando, um juiz articulado com o movimento golpista,mandou prender o presidente mais importante da história recente do Pais, o PT o não protegeu seu líder e criador, preferindo aconselhá-lo a se entregar.


O golpe contra Dilma e a eleição do Bolsonaro, mudaram o quadro político do país, com a emergência de novos segmentos com poder de interferir nas questões mais importantes para o Brasil.


São as igrejas pentecostais com grande influência sobre as populações mais pobres, dispondo para isso de uma rede comunicação que inclui uma rede de emissoras de televisão com influência crescente na política.  São organizações proto fascistas, com o MBL, com forte capacidade de mobilização dos setores jovens da cidade. 


Elas vão funcionar como organismos de ponta no combate a qualquer ideia mais progressista, agindo a serviço de quem realmente continuara mandando no país, os grandes empresários e os banqueiros, e agora, também com um novo componente, o exército,  que depois de 30 anos com seus generais voltados apenas para seus problemas internos, reassume um papel importante na vida nacional.


Esse não é apenas o fenômeno brasileiro.
 O mundo inteiro marcha para um confronto inevitável entre os defensores da barbárie, com seus representantes exemplares - Trump e agora Bolsonaro - e os que defendem uma nova forma de organização social.


O que deve ser defendida agora no Brasil, não é a volta do passado. Precisamos esquecer essa visão sebastianista da história, para que se discuta a qual o melhor caminho para a conquista do poder pelos trabalhadores.


Marino Boeira é jornalista formado em História pela UFRGS

 


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