Pravda.ru

CPLP » Brasil

Brasil: Dez desafios para o segundo turno

06.10.2006
 
Pages: 123
Brasil: Dez desafios para o segundo turno

Por Altamiro Borges*

A confirmação de que a sucessão presidencial será decidida no segundo turno, em 29 de outubro, gerou um otimismo marqueteiro na direita – “Lula teve a sua chance e deixou passar; sua derrota é inevitável”, afirmou o excitado devoto do Opus Dei, Geraldo Alckmin – e causou certo abatimento na militância que apostava na reeleição do atual presidente já no primeiro turno. Mas nada justifica a aparente euforia nas hostes liberais-conservadoras nem o pessimismo entre os lutadores de esquerda bem no meio da batalha.

Em primeiro lugar, porque a votação do presidente Lula foi bastante expressiva, o que mostra a aprovação de algumas políticas do seu governo, o seu carisma popular e a vitalidade da coligação “A força do povo”. Lula obteve mais votos do que no primeiro turno de 2002 – 48,6% contra 46,1% – e sai agora com uma vantagem de 6,7 milhões de votantes. Alckmin é quem precisa correr atrás do prejuízo; Lula deve manter sua base eleitoral, que é bastante consistente segundo vários institutos de pesquisa, e ampliá-la.

Em segundo lugar, porque não se deve subestimar o jogo sujo da direita golpista e da mídia venal. Desde maio de 2005 que a oposição neoliberal, com o descarado apoio da mídia, investe na desestabilização do atual governo. Qualquer outro presidente já teria caído diante deste bombardeio cerrado. Na reta final da eleição, desta vez com a ajuda de alguns petistas “aprendizes de mafiosos”, ela partiu para total baixaria. Até fotos foram vazadas ilegalmente da PF, com o silêncio da mídia. Apesar deste jogo sujo, o presidente Lula ainda saiu na frente no primeiro turno, o que evidencia sua impressionante capacidade de resistência.

Em terceiro, porque o segundo turno se dará numa nova configuração de forças no país. Caciques do PFL foram escorraçados no Nordeste e no Norte, com destaque para o fiasco de ACM, o que pode aumentar a votação de Lula nestas regiões. Mesmo no Sudeste, os tucanos eleitos têm vôo próprio e não bicam com o fanático do Opus Dei. Além disso, a bancada da esquerda não definhou como sonhava a mídia; já o PSDB perdeu cinco deputados e o PFL, 19. Por último, parcelas de esquerda contrárias a Lula no primeiro turno e mesmo setores que se omitiram podem agora, com lucidez, cumprir papel de relevo no segundo turno.

Esta análise, que visa se contrapor à falsa euforia da direita neoliberal e ao veredicto antecipado, parcial e maroto da mídia hegemônica, não deve resultar numa nova subestimação das forças direitistas. A batalha do segundo turno será sangrenta. Nada está decidido. Se a direita jogou pesado na etapa anterior e a mídia simplesmente tirou sua máscara, imagine o que farão a partir de agora. Diante do perigo real da revanche neoliberal, os setores populares, democráticos e patrióticos precisarão arregaçar as mangas, unir forças e concentrar todas as energias no segundo turno. Entre outros desafios, alguns parecem urgentes:

1- Polarizar e politizar a campanha.

O primeiro turno evidenciou uma nítida divisão no país, quase num corte de classes. Com Lula ficaram as camadas populares do Norte e Nordeste e da periferia dos centros urbanos do Sul e Sudeste; com Alckmin estiveram os barões da mídia, das finanças, do agronegócios e da indústria, camadas médias envenenadas e parcelas descontentes com o governo e iludidas com a cruzada moralista. Sem se descuidar da chamada classe média, é preciso explicitar a divisão entre o candidato das elites e o candidato dos trabalhadores e dos “excluídos”, trazendo à tona a gravíssima polarização social no Brasil. Além de polarizar, é urgente politizar o debate, desnudando a plataforma neoliberal contra os trabalhadores e as camadas médias.

2- Desmascarar Alckmin e FHC

Enquanto Lula se preocupou em fazer o balanço do seu governo e apresentar propostas para o futuro, bem ao estilo “lulinha paz e amor”, todos os outros candidatos concentraram seus ataques no atual presidente. Agora é hora de desmascarar o inimigo da direita. Demonstrar a devastação causada por seu desgoverno em São Paulo, com a privatização criminosa das estatais, a redução dos investimentos nas áreas sociais, a explosão do desemprego e da miséria, o descontrole na segurança pública. É preciso, ainda, desengavetar e elucidar a plataforma de Geraldo Alckmin, com as suas propostas ultraliberais. O que mais atormenta o direitista, porém, é o seu vínculo a FHC, o político mais odiado pelo povo brasileiro. A comparação entre os desastrosos oito anos de FHC e os avanços nos quatro anos de Lula é fatal para Geraldo Alckmin.

3- Priorizar o debate programático

No primeiro turno, os adversários insistiram na presença de Lula nos debates da televisão, orquestrando verdadeiras arapucas para emboscá-lo. A sua ausência no debate da TV Globo ainda gera controvérsias, mas parece que a expectativa criada de sua ida teve efeitos negativos nos dois últimos dias de campanha. Agora é Lula quem deve estimular ao máximo o debate na mídia. Com duas candidaturas diametralmente opostas, é mais fácil contrapor projetos, comparar as realizações dos dois últimos governos e denunciar a nefasta administração em São Paulo. Mas o debate programático não depende apenas do candidato. Deve ser feito pelas universidades, sindicatos, associações comunitárias e assentamentos, ajudando apolitizar a sociedade, a desnudar a plataforma neoliberal e a avançar na construção do projeto de mudanças no país.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular