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Entrevista João Carlos Cavalcanti, geólogo

06.09.2011
 

Entrevista João Carlos Cavalcanti, geólogo. 15531.jpegEmpresário precisa ter visão

A Bahia sempre foi, do ponto de vista geológico, o Estado com o maior diversidade de ocorrências minerais. Se a Bahia fosse um país, seria autossuficiente em petróleo. Aqui foram descobertas as primeiras reservas do Brasil na famosa bacia do Recôncavo. Mas ainda hoje existe muito petróleo aqui.

DONALSON GOMES

Em entrevista exclusiva A TARDE, o geólogo João Carlos Cavalcanti, prestes a anunciar descoberta de novas reservas de ferro, avalia que o setor de mineração deve embasar nova revolução industrial na Bahia, atividade que, segundo ele, está imune à crise econômica mundial. Ele defende a interiorização de investimentos e planejamento s longo prazo.

 

As riquezas minerais da Bahia estão no subsolo há milhares de anos. Porque gora estão acontecendo as grandes descobertas no setor?

 

A Bahia sempre foi, do ponto de vista geológico, o Estado com o maior diversidade de ocorrências minerais. Se a Bahia fosse um país, seria autossuficiente em petróleo. Aqui foram descobertas as primeiras reservas do Brasil na famosa bacia do Recôncavo. Mas ainda hoje existe muito petróleo aqui. Além disso, tem Magnesita, cromita, do grupo Ferbasa. Hoje o Estado tem o terceiro potencial de ferro.  Se você olhar o consumo de cobre da Bahia, nós somos autossuficientes em cobre. Entre outros produtos.

 

Grande parte disso é fruto de descobertas recentes?

 

Vamos voltar ao passado. Eu estava conversando com o Noberto Odebrecht sobre a economia da Bahia. Isso aqui sempre foi centralizado no Recôncavo, com a cana-de-açúcar. Depois veio o cacau. Foram muitos séculos com o açúcar, depois Zona da Mata. Teve também a pecuária, construção civil... Teve o desenvolvimento industrial da Bahia, com Centro Industrial de Aratu (CIA) e depois com o Polo Petroquímico. Mas tudo muito concentrado na Região Metropolitana de Salvador (RMS).

 

E sempre com uma grande dependência em relação a uma grande atividade.

 

Sempre com essa dependência. Eu diria ao empresariado baiano... E aqui não vai uma crítica, é uma constatação, falta a visão de longo prazo.  A mineração, até você abrir uma mina e botar ela em operação são sete ou oito anos. Uma fábrica de cimento não se faz em menos de cinco ou seis anos. Quando se fala isso, que uma coisa só vai começar a dar dividendo dentro de cinco ou oito anos, aí a turma corre.

 

Isso acontece ainda hoje?

 

O que está havendo com a Bahia hoje? Temos uma vocação à industrialização. Nós vamos passar nos próximos cinco anos por uma revolução industrial.

 

  

A mineração pode ser a principal atividade econômica da Bahia?

 

Claro.  A Bahia está se apresentando em sua vocação como o Estado da Mineração. Parecia que era Minas Gerais, que deitou e rolou-se simplesmente com o minério de ferro. O foco de Minas sempre foi o minério de ferro e ouro. O Pará, minério de ferro. E a Bahia com toda essa diversidade de recursos minerais, faltou do ponto de vista política, vontade dos governos anteriores. Por incrível que pareça, o ex-governador Paulo Souto, geólogo, baiano e de Caetité, não deu um foco para o setor.

 

Mas as pesquisas que existem hoje não foram feitas por ele?

 

São do governo federal. Foi o governo federal quem fez através da CPRM, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, criada na década de 70, que poderia ser chamada de Serviço Geológico do Brasil. Essa empresa criada em 1971 foi quem iniciou os mapeamentos geológicos básicos. A CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral), criada no governo de Antônio Carlos Magalhães, também tentou implementar esse modelo, mas sempre em convenio com a CPRM, do governo federal, que foi na verdade a fomentadora, que financiou projetos para que CPRM executasse.

 

Grande parte do investimento em mineração vem de capital estrangeiro. A crise financeira pode influenciar o cenário?

 

Essa é uma discussão interessante. Eu vou te explicar porque o Brasil não vai ser afetado por essa crise. As pesquisas minerais básicas não são financiadas por capital estrangeiro. As pesquisas geológicas básicas são do governo brasileiro, através da CPRM. Não confunda coma CPRM. Ela é a estatal da mineração. A Petrobras é a estatal do petróleo. Quem sempre executou os estudos básicos para que as empresa privadas pudessem pesquisar foi a CPRM, que cumpriu o seu papel razoavelmente, em função da pouca disponibilidade de caixa. Antes de Lula, a política mineral no Brasil estava praticamente falida. Estava estagnada.  Essa questão da Vale do Rio Doce, por exemplo...

 

A privatização da Vale foi feita por Fernando Henrique.

 

Foi feita por Fernando Henrique, por sinal, muito malfeita. A Vale hoje é avaliada em US$ 140 bilhões. Privatizaram por menos de US$ 3 bilhões. Mas aí você fala, a Vale cresceu. Qualquer que fosse o grupo, de governo ou privado, não tinha como não dar certo. Então, privatizou-se quando já tinha Carajás, o Quadrilátero Ferrífero... Se botar você ou eu de presidente da Vale não é toda privatizada. Hoje, mais de 51% é dos fundos de pensão.

Mas, coincidência ou não, houve grande crescimento após a privatização...

 Sim, claro. Quando você privatiza, você dá maior foco. Eu, por exemplo, acho que a CPRM, essas estatais da mineração deveriam ter participação da iniciativa privada. Isso é permitido pela lei.

 

 Já sugeriu isso ao governador Jaques Wagner?

 

Não sugeri ao governador, mas conversei uma vez com o presidente da CPRM, que está fazendo um bom trabalho lá, o senhor Alexandre Brust. Falei algumas vezes com o secretário anterior, no governo de Paulo Souto, porque a CPRM pode ter cotas como a Bahiagás aqui, que é do Estado. Se  colocassem 49% das cotas da CPRM para a iniciativa privada, nós teríamos um desenvolvimento muito maior. Por que não abrir parte do capital? Você tem a Cetrel, que é um exemplo de empresas que eram públicas e tiveram parte de suas cotas oferecidas à iniciativa privada. Eu acho que se a CPRM abrisse, com o Estado mantendo o controle, haveria interesse. A empresa tem acervo, principalmente depois que o governador Jaques Wagner assumiu o governo, deu um incentivo muito grande. Promoveu a chegada da iniciativa privada. Antes, na descoberta de ferro em Caetité, eu tomei porrada o tempo todo. O Brasil todo sabe. A nossa descoberta de minério de ferro em Caetité, que hoje é o terceiro maior depósito de minério de ferro no País, e que vai colocar a Bahia no terceiro lugar. Com a minha descoberta mais recente, ao norte de Caetité, nós vamos tranquilamente chegar a uma produção anual de 40 milhões de toneladas de pallet fed, que é o produto comercializado a partir da concentração do minério de ferro bruto.

 

Qual a posição desta descoberta em relação à anterior?

 

A anterior está ao sul dela, A descoberta começa no município de Caetité. E esses corpos, por incrível que pareça, estavam lá, quase livres. Nós fizemos um trabalho científico, de geofísica, por método eletromagnético. Quando a gente vai a campo, além da gente fazer o mapeamento básico, a gente utiliza o método terrestre e aéreo. E, aí, conseguimos identificar novos corpos de minério de ferro, alguns expostos, outros cobertos. Mas a minha iniciativa é que esse novo depósito, que eu estou chamando de Caetité Norte, possa ultrapassar em termos de volume e qualidade o da Bahia Mineração.

 

Você começou a pesquisar ele quando?

 

Comecei em Janeiro.

 

Você teve um período de quarentena?

 

Eu tive um período de quarentena chamado non-compete com o anglo-indiano, que é o grupo que hoje se chama ENRC. Até hoje eu não posso relatar como foi a operação. Eu vendi 70% para este grupo, depois compraram mais 20% e , no final, compraram mais 10% e ficaram com a operação toda.

 

Não tem nada da Bamin?

 

Não, só os bons amigos. Mas portas abertas.

 

O que você está planejando agora que pode voltar a pesquisar?

 

Eu sou sócio da Votorantim em dois grandes projetos, um no norte de Minas, de minério de ferro, em parceria com um grupo chinês. Nós vamos precisar do Porto Sul. Vamos sair do norte de Minas, via minerioduto. É um minerioduto em aço, com diâmetro de mais de um metro, com uma polpa de 70% de minério de ferro e 30% de água. Vamos trazer 30 milhões de toneladas para o Porto Sul. Só que parte desse produto será utilizado para implantação de uma unidade de pelotizadora, que é uma pré-siderúrgica em Itabuna.

 

Como está o andamento desse projeto?

 

No norte de Minas, a mina está sendo preparada. Agora, estamos estudando a questão  do minerioduto, que é o mais econômico neste caso. A tonelada vai sair por US$ 0,86 por tonelada. Se eu fosse transportar via ferrovia, tendo que construir uma ferrovia, de Rio Pardo de Minas, depois chegar à (Ferrovia) Centro-Atlântica e pegar a Oeste-Leste e chegar ao Porto Sul, iria para US$ 52 por tonelada só de frete. No caso da Bamin é diferente. A ferrovia passa na porta dela. Vai sair, acredito, por US$9,7 por tonelada.

Você dá a Ferrovia Oeste-Leste como certa?

A ferrovia é irreversível. Já visitei o canteiro duas vezes. É irreversível, principalmente o trecho Caetité até o Porto Sul.

 

Quando?

 

A previsão é para 2012, no máximo 2013. A previsão da Bamin é entre 2013 e 2014. Veja bem, o Brasil é um grande produtor de commodities minerais e agrícolas. Com toda essa crise que está aí, o que salva a balança comercial é minério de ferro e soja.  Nós temos que aproveitar a condição de grandes produtores dessas coisas para começar a ditar as regras.

 

Mas a gente tem esse gargalo de infraestrutura.

  

Esse gargalo de infraestrutura precisa ser resolvido. Começa com a ferrovia e o Porto Sul. Eu não consigo entender como em Estado que tem a maior costa brasileira não tinha porto decente. Aratu é um porto sucateado. Temos o Porto de Ilhéus, completamente obsoleto. Então, o Porto Sul hoje é estratégico para o Brasil. Na hora que o Porto Sul sair, só com as cargas da Bamin, são 20 milhões de toneladas, as cargas da Votorantim com mais 25 ou 30 milhões de toneladas. Vem a carga de grãos do oeste da Bahia com mais 4 ou 5 milhões de toneladas.  Vem, provavelmente, a da Rio Tinto Zinco, produzida entre Jaguaquara e Boa Nova. Devem sair dali de 5 a 10 milhões em alumina, Tem a da Magnesita, com mais 5 milhões, e as cargas da Bunge, que produz alimentos. Se contar esse projeto novo meu, ao norte de Caetité, que é uma associação minha com um grupo anglo-americano, nós chegamos a 70 milhões de toneladas por ano movimentadas no Porto Sul.

 

Qual é o grupo?

Eu só poder divulgar esse grupo após dia 4 de outubro, após assinarmos o contrato. Eu estou focado em minério de ferro, em descobrir novas reservas de bauxita. Eu não te falei isso. Eu estava proibido de pesquisar até dezembro. Tive que negociar com o senhor Daniel Dantas, do Grupo Oportunity, a minha liberação. Fui sócio dele, Sou sócio da Votorantim em dois projetos. Um de minério de ferro no norte de Minas e um de níquel em Tocantins. Fui sócio de Eike Batista. Montamos aí a RX1, que virou a MMX, Quem levou Eike para minério de ferro, modéstia à parte, foi o seu amigo aqui. Eike não sabia nem o que era minério de ferro. Nós montamos a IRX, tentamos entrar na Bahia, quando eu descobri as primeiras reservas, não as de Caetité, mas ao norte de Caetité.

 

Você já conhecia essa reserva no norte?

Eu já tinha indícios. Eu tinha requerido algumas áreas, mas não tinha ainda detalhado como detalhei as de Caetité, em função das dificuldades que o ex-governador Paulo Souto colocou para mim e meu projeto. Ele criou tantas dificuldades que o Eike desistiu daqui e decidiu ir para o Pará e Mato Grosso, depois para Minas Gerais. Mas nós criamos uma empresa, chamada  IRX. Vendi 80%, fiquei com 20%.

 

 

 

Na mineração, até você abrir e operar uma mina, são sete ou oito anos

 

 

Nós vamos passar nos próximos cinco anos por uma revolução industrial

 

 

 

A Ferrovia Oeste-Leste é irreversível, principalmente o trecho Caetité até o Porto Sul


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