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Algumas das raízes do preconceito racial observado no Brasil

06.07.2018
 
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Algumas das raízes do preconceito racial observado no Brasil

O racismo no Brasil, vale dizer a generalizada visão preconceituosa contra os negros que começou a desenvolver-se nos quadros da escravidão e aprofundou-se mesmo após a superação do escravismo continuando a existir até os dias correntes deve, a meu juízo, relevante parte de tal aprofundamento e indesejável permanência ao fato de a lei que os libertou dar-se num momento histórico no qual já se desenvolvia o processo de imigração dos europeus que se viram "expulsos" de suas nações em face do amadurecimento do capitalismo.

Iraci del Nero da Costa *

Tal processo de avanço econômico capitalista operou no sentido de tornar redundante uma parcela das populações de várias nações europeias. É preciso considerar que muitos desses imigrantes, embora fossem desprivilegiados do ponto de vista econômico, já haviam tomado contato com o trabalho livre, conheciam as práticas próprias do capitalismo e estavam em busca de melhores condições de vida mesmo que para tanto tivessem de labutar arduamente. Enfim, estavam dispostos a trabalhar e, se possível, enriquecer.

Já a população escrava que alcançara a liberdade no Brasil não apresentava, em sua grande maioria, tais perspectivas. A dura exploração que a afetara por séculos tornou o trabalho algo visto como sinônimo de tortura física e mental; não conheciam os ex-escravos o enriquecimento que poderia ser proporcionado pelo trabalho livre como ocorria nos países europeus fornecedores de imigrantes para os países como o Brasil, um Brasil que poderia receber trabalhadores livres para operarem em áreas agrícolas as quais conheciam a ampliação de distintas culturas tendo no café a principal delas, um Brasil em cujas cidades desenvolvia-se um largo espectro de atividades artesanais que poderiam albergar parcela dos imigrantes com algum conhecimento técnico.

Destarte, para os brancos brasileiros oferecia-se um largo conjunto de trabalhadores igualmente brancos dispostos a trabalharem com afinco a fim de alcançarem um padrão de vida que almejavam dado o fato de haverem sido expulsos de suas terras natais. Na cabeça de uma parcela de brancos brasileiros formava-se a ideia de dois grupos distintos: por um lado, os negros indispostos com o trabalho "duro" e, por outro, um grupo de imigrantes brancos com experiência laboral e disposto ao enfrentamento das tarefas impostas pelo alargamento da produção agrícola que se devia ao aumento das exportações e pelo crescimento ainda que modesto de algumas de suas cidades.

Aos imigrantes que conseguiram vivenciar uma situação econômica favorável, tanto no campo como nas tarefas artesanais ou industriais das cidades parece ter-se transferido a depreciação dos ex-escravos os quais, como sabido, viram-se descartados dos direitos que lhes eram devidos depois de séculos de exploração, da educação, da formação tecnológica e do respeito humano. 

Ou seja, uma parte expressiva da população branca nativa viu-se engolfada por condições históricas do pior jaez: o desprezo pela massa negra de seus compatriotas; acontecendo o mesmo quando considerados muitos dos imigrantes com respeito aos seus novos vizinhos negros com os quais chegaram a dividir tarefas na área rural e contra os quais passaram a desenvolver preconceito similar ao dos brancos brasileiros, essa atitude de repúdio também foi observada nos centros urbanos.

Embora os raciocínios expendidos acima sejam esposados por grande parte dos pesquisadores expressam, como sabido, apenas uma parte do que se poderia chamar "verdade histórica". Não obstante, eles não devem ser inteiramente desprezados, pois representam um elemento relevante da assim dita "verdade histórica".

 

* Professor Universitário aposentado.  

Foto: Por Andrevruas - Obra do próprio, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15649789

 


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