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Lula: Não é hora de conciliação

05.02.2017
 
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O triste episódio da morte da mulher do Lula,  Marisa Letícia,  além da dor que trouxe para o ex-presidente e sua família, serviu para mostrar algumas coisas que mereceriam uma análise de conteúdo sociológico e político porque dizem respeito a todos nós brasileiros.

Primeiro a constatação do ódio profundo que move certos segmentos da sociais contra o PT e seus representantes ,demonstrado em dezenas de mensagens  colocadas nas redes sociais em que internautas se regozijam pela morte de Marisa Letícia.

Acho que a morte não absolve ninguém de um julgamento pelas suas atividades quando vivo, mas a mulher de Lula, ao que se saiba, sempre limitou sua participação político ao apoio, aliás esperado, ao marido e nunca se imiscuiu em questões  do governo.

Mas se tivesse tido uma participação ativa na vida política, poderia ser criticada por isso e não como escreveu um idiota de que estava sendo castigada por Deus, e que isso estaria acima da justiça dos humanos.

Segundo, o pouco respeito de alguns médicos em relação a uma pessoa doente e sem defesas num hospital considerado padrão no Brasil, o Sírio Libanês, de São Paulo. Uma médica vazou para seus amigos os exames que mostravam o quadro irreversível da paciente, quebrando uma norma elementar da ética médica.

Felizmente, foi demitida do hospital.

A terceira ilação que se pode tirar do episódio é de cunho político e ela,  infelizmente não valoriza os representantes da esquerda  na política brasileira.

Todos nós sabemos que o governo Temer, além do seu conteúdo profundamente reacionário e entreguista, tem uma marca indelevel de traição. O próprio Temer e seus auxiliares mais diretos,  todos  oriundos do PMDB , integravam  o governo de Dilma e além de se locupletarem com o golpe parlamentar, foram agentes diretos dessa ação.

Que Temer e seu grupo  - Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Moreira Franco, Romeiro Jucá e Henrique Meireles, entre outros -  tenham percebido astuciosamente que uma visita de solidariedade a Lula no hospital, ajudaria a desmanchar um pouco a ideia de que a morte de Marisa Letícia teve algo a ver com o estresse provocado pelas acusações injustas contra ela, que eles, de certa forma, ajudaram a criar, se entende.

O que não se entende é a disposição de Lula de se oferecer para dialogar com Temer,  como se fosse possível uma conciliação entre posições que devem ser opostas.  Aceitar a solidariedade pessoal  desses políticos, que afinal até participaram do seu governo, é normal,  mas jamais deveria se estender para algum tipo de comprometimento político.

Sobre esse aspecto, a visita de Fernando Henrique Cardoso e suas declarações sobre o encontro, foram muito mais dignas.

O gesto de Lula, que nunca perde a oportunidade de mostrar seu lado de negociador, quando na política há momentos de conciliação e outros de rompimento, parece sinalizar o que as pessoas costumem dizer dos políticos - que são todos iguais.

Se,em nome de uma hipotética conciliação nacional é possível  passar por cima de diferenças radicais que separam as concepções políticas do grupo de Temer , da esquerda qual  Lula mal ou bem ainda representa, a política perde toda  a sua importância e vira aquele jogo que nos acostumamos a ver no parlamento brasileiro de troca de favores e interesses menores.

Segundo os jornais, Lula teria aconselhado Temer a não propor uma reforma previdenciária nesse momento de recessão (em outro momento, ele concordaria?) e se pondo a disposição para discutir o assunto, com o que Temer teria dito que faria isso.

Temer e Lula conversando no Palácio do Planalto sobre reformas políticas e previdenciárias, enquanto no Senado e na  Câmara, onde a direita montou uma base sólida, se organiza um grande assalto aos direitos dos trabalhadores,  com o apoio da grande mídia e as bênçãos do judiciario, é tudo que as esquerdas não mereceriam ver.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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