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Fidel Castro: Relatório sobre encontro com Lula

05.02.2008
 
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Fidel Castro: Relatório sobre encontro com Lula

Não quero abusar da paciência dos leitores, nem da excepcional oportunidade que me ofereceu Lula de intercambiar idéias aquando do seu encontro comigo. Por isso, afirmo que é a quarta e última relativa à sua visita.


Quando falei com ele a respeito da Venezuela, disse-me: Nós pensamos cooperar com o presidente Chávez. Combinei com ele. Cada ano irei duas vezes a Caracas e ele viajará duas vezes ao Brasil para não permitir divergências entre nós, e se as houver, conseguir resolvê-las no momento. A Venezuela não precisa de dinheiro -expressa-, porque tem muitos recursos, mas precisa de tempo e infra-estrutura.


Lhe expressei que me alegrava muito a sua posição com relação a esse país, porque estávamos agradecidos a esse povo irmão pelos Acordos assinados que nos garantiram um fornecimento normal de combustível.


Não posso esquecer que, aquando do golpe de Estado de Abril de 2002, a palavra de ordem relativamente ao nosso país dos que assaltaram o poder foi: "nem um pingo mais de petróleo para Cuba". Convertemo-nos em um motivo adicional para que o imperialismo tentasse fazer estourar a economia da Venezuela, embora de fato era o que se propunham fazer desde que Chávez emprestou juramento de seu cargo como Presidente sobre a moribunda Constituição da IV República, que mais tarde, de forma legal e democrática, transformou na V República.

Quando o preço do petróleo subiu abruptamente e surgiram dificuldades reais para adquiri-lo, Chávez não só manteve, senão que elevou o fornecimento. Depois dos Acordos da ALBA, que foram assinados em Havana a 14 de Dezembro de 2004, isto se mantém em condições honoráveis e beneficiosas para ambos os países. Lá trabalham quase 40 mil abnegados especialistas cubanos, na sua maioria médicos, que com seus conhecimentos, e particularmente com seu exemplo internacionalista, estão contribuindo à formação dos próprios venezuelanos que os substituirão.

Expliquei-lhe que Cuba mantinha relações de amizade com todos os países da América Latina e do Caribe, sejam de esquerda ou de direita. Há muito traçamos essa linha e não a mudaremos; estamos dispostos a apoiar qualquer diligência em favor da paz entre os povos. É um terreno espinhoso e difícil, mas continuaremos perseverando nele.

Lula expressa de novo seu respeito e carinho profundo por Cuba e seus dirigentes. Acrescentou logo, que sentia orgulho do que estava acontecendo na América Latina, e mais uma vez afirmou que aqui em Havana decidimos criar o Foro de São Paulo e unir toda a esquerda da América Latina, e essa esquerda está chegando ao poder em quase todos os países.


Nesta ocasião, lembrei-lhe o que nos ensinou Martí sobre as glórias deste mundo, que cabem todas num grão de milho. Lula acrescentou: Digo-lhes a todos que, nas conversações que tive consigo, jamais deu conselho algum que pudesse entrar em confrontação com a legalidade; Sempre me pediu que não me ganhasse muitos inimigos ao mesmo tempo.
E isso é o que está permitindo que as coisas marchem.

Quase de imediato manifestou que o Brasil, um país grande e com recursos, tem que ajudar o Equador, a Bolívia, Uruguai, Paraguai.Agora estivemo na América Central. Nunca um Presidente brasileiro tinha visitado um país nessa região com projetos de cooperação.


Pergunto-lhe: Você se lembra, Lula, o que te disse no jantar familiar e informal que ofereceste a nossa delegação no dia seguinte à tua tomada de posse, em Janeiro de 2003? Nenhum dos filhos da grande maioria de pobres que votou por ti nunca será executivo das grandes empresas públicas do Brasil; os estudos universitários cá são caros demais!

Lula explica nesse sentido: Estamos construindo 214 escolas técnicas, profissionais; também estamos fazendo 13 Universidades federais novas e 48 extensões universitárias.
E lhe pergunto: Por isso não se paga nada, não é? Responde-me rápido: Temos criado um programa e já colocamos 460 mil jovens da periferia, pobres, de escolas públicas, para que possam cursar os estudos universitários. A direita me acusava de que estava tentando baixar o nível do ensino; dois anos depois, foram investigados 14 cursos: os melhores alunos foram os pobres da periferia. Estamos criando outro programa com 18 alunos como média; isto vai fazer com que hajam 250 mil jovens no ensino universitário.


A relação comercial do Brasil com América Latina é maior do que com os Estados Unidos da América, disse-me. Continuei explicando-lhe que se íamos estabelecer relações estreitas entre ambos os países, não só como amigos mas também como parceiros em áreas importantes, precisava conhecer o pensamento das lideranças do Brasil, visto que em áreas
estratégicas íamos estar associados, e tínhamos por norma cumprir nossos compromissos econômicos.


Falamos de outros importantes problemas, os pontos em que coincidíamos e nos que não, com o maior tacto possível. Falei-lhe de diversas regiões, incluindo o Caribe, e das formas de cooperação que tínhamos desenvolvido com eles.


Lula me expressou que o Brasil devia ter uma política mais ativa para cooperar com os países mais pobres. Tem novas responsabilidades, é o país mais rico de toda a região. Falei-lhe, como é lógico, da mudança climática e a pouca atenção que lhe prestam ao tema grande número de dirigentes dos países industrializados do mundo.

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