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O padre, o bandido e a mídia

04.11.2007
 
Pages: 12
O padre, o bandido e a mídia

Fernando Soares Campos

Um dos momentos de conforto daqueles adolescentes ocorria aos domingos, quando o padre Júlio prestava assistência religiosa àqueles jovens numa unidade da Febem. Grande parte dos adolescentes ali acautelados por decisão judicial não recebia visita de parentes, mesmo porque muitos deles já haviam perdido o contato com seus familiares há muito tempo. As visitas e atividades religiosas promovidas pelo padre Júlio e seus auxiliares da Pastoral do Menor eram, para muitos internos, os únicos contatos que tinham com pessoas do outro lado dos muros da instituição que, supostamente, se destinava à ressocialização de adolescentes envolvidos em atos infracionais, função que divergia da realidade vivida pelos internos.

O padre Júlio costumava proferir palestras sob temas diversos, invariavelmente tratando do uso e tráfico de drogas, roubo, assassinato, promiscuidade sexual e outros atos que a Igreja atribui a condição de pecador a quem os praticar, além de implicar infração à lei. Havia também o momento da confissão religiosa, quando alguns adolescentes se dispunham a falar dos seus desvios de comportamento ao sacerdote, a fim de receber aconselhamentos e se livrar do castigo maior: o fogo eterno na caldeira de um inferno supostamente mais tenebroso que aquele em que se encontravam internados.

Durante a celebração da Santa Missa, os confessados recebiam a hóstia sagrada, que podia ser considerada bem mais palatável que a quentinha servida pela instituição.

A. M. B., que até então gozava do direito ao anonimato, era um daqueles rapazes que, depois de encerrada as atividades dominicais da Pastoral do Menor, se acercavam do padre Júlio para lhe pedir conselhos ou pequenos favores. Numa dessas ocasiões, o jovem infrator conversou longamente com o padre, e este nem percebeu que, naquele dia, outros adolescentes não o procuraram. Não sabia o padre que A. M. B. havia usado sua condição de xerife e reservara aquele domingo somente para ele. Daquela vez os demais internos estavam proibidos de se aproximar enquanto A. M. B. estivesse conversando com o vigário.

O adolescente confessava os seus pecados menores e ouvia os aconselhamentos do padre.

— Padre, eu me arrependo de ter roubado para comprar drogas.

— Entendo, filho, sei que as pessoas cometem certas faltas a fim de atender aos seus vícios. As drogas escravizam, mas você precisa se esforçar para se livrar de tão implacável inimigo.

— Eu tou me esforçando, meu... é... padre... Tou me esforçando, padre!

No domingo seguinte, A. M. B. era o primeiro da fila no confessionário improvisado. Quando o padre Júlio sentou-se para ouvir as confissões, o adolescente falou num tom que revelava profundo pesar. Dizendo-se arrependido, contou que certa ocasião havia roubado uma imagem de uma igreja. Mais uma vez o padre Júlio explicou que os dependentes de drogas caem em tentação.

— O inimigo oculto induz as pessoas a cometer delitos para sustentar seus vícios, filho — justificava o padre.

Poucos dias antes de ganhar a liberdade, A. M. B. declarou ao pároco:

— Padre, quando eu sair daqui, quero ajudar o senhor no trabalho com as pessoas que moram nas ruas.

O padre Júlio encheu-se de esperança, pois tinha diante de si mais uma possível alma resgatada do submundo da universidade do crime. O gesto daquele jovem representava mais uma vitória nas batalhas da eterna luta do Bem contra o Mal.

Poucos meses depois, Anderson (ex-A. M. B.), agora maior de idade, podia ser visto, eventualmente, em companhia do padre Júlio. Curiosamente, manteve o costume de se confessar, como fazia nos tempos de Febem.

Certa noite, quando os fiéis saiam da igreja, depois da última missa, Anderson apareceu no templo católico. Parecia nervoso, queria se confessar. O padre o acompanhou até o confessionário, entrou e sentou-se; enquanto Anderson se ajoelhou no genuflexório ao lado.

— Padre, os home vão me pegar de novo, padre! E, se eu rodar dessa vez, vou pra de maior! Me ajude, padre!

— Meu filho, se você está dizendo que a polícia está lhe procurando, a fim de lhe prender, isso quer dizer que você cometeu um grave crime.

— Não, padre, num foi coisa tão grave assim. Eu só matei o cara que tirou onda com a minha cara num bar lá da favela.

— E você acha isso uma falta leve, meu filho?!

— Bom, se for comparar com outras paradas que eu já fiz, isso até que é manero...

— Mas o que você já fez de tão grave?!

— Padre, o senhor sabe que tudo que eu contar aqui o senhor num pode contar pra ninguém. Nem pro Papa, né?

— Sim, meu filho, eu sou um sacerdote católico e, nesta condição, meu dever é guardar segredo sobre as confissões dos fiéis, cabendo a mim apenas a missão de rogar a Deus que os perdoe e ilumine seus caminhos.

— Então eu vou contar. O senhor se lembra daquele casal de velhos que foi assassinado aqui perto? Aqueles que o ladrão matou a facada?

— Sim, lembro, nunca os esquecerei, Dona Aline e o Senhor Mateus freqüentavam a nossa igreja e participavam ativamente das nossas atividades filantrópicas.

— Pois fui eu que matei eles...

— Filho!, por que você cometeu crime tão hediondo?!

— Ora, padre, eles até que vinham colaborando. De vez em quando soltavam uma merreca, mas acabaram ameaçando de dar parte à polícia, num queriam mais pagar o "pedágio". O senhor sabe, né?

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