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Milton Temer: O 2009 que se foi. O 2010 que esperamos

04.01.2010
 
Pages: 12

Sim, manobras e práticas condenáveis que , por exemplo, levaram Josepho Stiglitz a considerar, em artigo de fim de ano, "muito grande para viver" no contraponto ao "muito grande para quebrar", os mega bancos que especulam sem limites, e sem o mínimo pudor, pois os riscos estariam sempre cobertos pelo "meu, seu, nosso dinheirinho". Pelos recursos públicos, enfim, roubados aos serviços que o governo se obriga a prestar aos cidadãos que pagam seus impostos.

Alguém acredita ser possível, sem alteração dos parâmetros de uma sociedade capitalista, na qual o "mercado" pode tudo a despeito dos interesses coletivos, impor algum tipo de controle eficaz a essa espécie de crime organizado legal?

Difícil imaginar, se considerarmos a conjuntura política nacional , na qual o pântano está instalado. Lula, que se revelou um dos mais competentes governantes a serviço do grande capital na nossa história republicana, não se mostra disposto a enfrentar a tarefa, a considerar a forma como conduz a "governabilidade."

Eleito sob o signo da mudança radical do modelo neoliberal que o antecedeu, não só o reiterou, como aprofundou. Com isso, encontrou caminhos para se juntar aos que sempre o PT renegou, para além de desqualificar, no espectro de legendas partidárias. Está montado numa das mais espúrias e inexplicáveis maiorias parlamentares já organizadas neste Congresso cheio de jaça. Uma maioria fundada na despolitização da política; na transformação dos votos definidores de lei em mercadoria de troca - "vota aqui que eu libero tua emenda ali" -, no qual a ideologia ou a lealdade a princípios de classe são tratados como corpo estranho num ambiente fétido de tenebrosas transações.

Ah... mas nunca houve semelhante distribuição de renda! , agitam os apóstolos de uma outrora esquerda combativa, hoje alojada em privilegiados salários de funções públicas gratificadas.

É o IPEA, no entanto, órgão governamental de alto padrão, quem nos garante em suas pesquisas. Houve sim, distribuição de renda. Mas entre os assalariados, somente. Não existe uma informação transparente do que - nesse fluxo de dólares especulativos, gerados por uma política de juros que já levou nossa dívida pública a R$ 1,5 trilhão - foi transferido para a mão dos rentistas; os chamados "piranhas" das grandes manobras em bolsas, agronegócio e empreiteiras. E aí está o busilis da classificação deste governo. É mínimo o peso, no gasto público, das políticas assistenciais - que não deveriam se tornar permanentes, como anuncia a sua constante ampliação - diante dos 50% orçamentários para o pagamento dos juros e serviços da impagável dívida pública. Quem precisa de saúde, educação e transportes públicos é que sabe o quanto custa, na verdade, o atual modelo.

Para alterar esta realidade distorcida, ai está o processo eleitoral de 2010. Oportunidade impar para a denúncia da falsa dicotomia, da falsa polarização que se tenta estabelecer entre PT e PSDB. Falsa dicotomia porque a ninguém ilude este debate fajuto no qual não se disputam programas, mas, sim, a posse do botim. O controle da máquina do Estado, dos cargos aí disponíveis e, principalmente, das verbas públicas. Controle para exercer a mesma política, com frutos destinados a cofres distintos. Aos banqueiros, tanto faz quanto tanto fez, Dilma ou Serra. Ao mundo do trabalho, não. Se não participa diretamente da disputa majoritária, tem que ver a reivindicação de um outro Brasil possível na campanha de seu candidato. Tem que apostar nas eleições legislativas, porque foi, mesmo com um numero reduzido de parlamentares combativos e eficientes - Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e Geraldinho -, que o PSOL viu sua legenda valorizada e nacionalmente reconhecida como estuário da boa prática com a Res Publica.

Last, but not least, vamos falar da própria Fundação Lauro Campos, ora presidida pelo bravo camarada Martiniano Cavalcanti. Não podemos fazer um apanhado do que se fez nos últimos doze meses, sem nos acordarmos em torno de uma avaliação bastante positiva. Avaliação positiva, não somente a partir das questões concretas do quadro administrativo, em que nossas contas receberam avaliação positiva da auditoria independente a que nos obrigamos a submeter por determinação legal. Mas, sobretudo e principalmente, pela possibilidade de estender tal avaliação ao trabalho político e editorial ao longo do período.

Para além de três edições da revista Socialismo & Liberdade, e da manutenção regular e permanente de uma intensa produção editorial neste portal- com ensaios, artigos e análises de conjuntura, nacionais e internacionais - , participamos intensamente do Fórum Social Mundial, em Belém, e realizamos um muito bem sucedido Seminário Internacional, com participação expressiva de delegados estrangeiros e brasileiros, na preparação do nosso II Congresso, ao qual também prestamos contribuição material efetiva, através da edição do Caderno de Teses.

Nada disto teria sido possível, no entanto, sem a inestimável participação de nossos quadros efetivos - o editor Sergio Granja e a secretaria-executiva Silvia Mundstock -, ora gozando seus merecidos períodos de férias legais, o que nos obriga à manutenção desta página durante todo este mês.

A vocês que nos prestigiaram ao longo de 2009, o nosso agradecimento mais profundo. Com espírito combativo renovado, e com uma certeza: sem a participação ativa dos militantes da esquerda que não se vendeu e nem se rendeu, a realidade não vai melhorar para aqueles de vida digna. Nossos votos de excelente 2010.

Milton Temer é ex-presidente e atual diretor-técnico da Fundação Lauro Campos

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