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Brasil: Um espectro tomou conta da academia

03.12.2007
 
Pages: 123
Brasil: Um espectro tomou conta da academia

Lucídio Bianchetti, professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, foi um dos palestrantes da conferência "Produtivismo acadêmico, produção do conhecimento e alienação do trabalho docente", promovida pelo ANDES-SN no último dia 15 para marcar o Dia do Professor ( leia mais ). Nessa entrevista, ele fala sobre o capitalismo acadêmico, afirmando que essa não é mais uma política de governo, mas sim de estado, enumerando os aspectos negativos dessa situação.

Elizângela Araújo
ANDES-SN


Lucídio Bianchetti, professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, foi um dos palestrantes da conferência "Produtivismo acadêmico, produção do conhecimento e alienação do trabalho docente", promovida pelo ANDES-SN no último dia 15 para marcar o Dia do Professor ( leia mais ). Nessa entrevista, ele fala sobre o capitalismo acadêmico, afirmando que essa não é mais uma política de governo, mas sim de estado, enumerando os aspectos negativos dessa situação.

Bianchetti tem grande experiência na área de educação, com ênfase em trabalho e educação, e é autor e organizador de vários livros, entre os quais " A bússola do escrever - desafios e estratégias na orientação e escrita de teses e dissertações" (com Ana Maria Netto Machado, Cortez Editora/Editora da UFSC) e, mais recentemente, " Educação Corporativa - mundo do trabalho e do conhecimento: aproximações " (com Elisa Maria Quartiero, Cortez e Editora da UNISC).

- Em sua palestra, você brincou com a metáfora marxista afirmando que há um espectro que não mais ronda, mas que já está instalado na academia. Que espectro é esse?


- A metáfora é extremamente interessante. Quando Marx e Engels falavam que o espectro do Comunismo pairava sobre a Europa, isso assustava. No que se refere à academia, o espectro não paira mais, ele já está dentro dela, entranhado. Alguns autores falam que esse espectro se chama enfado, desistência, indisposição. Na verdade, toda teorização sobre burnout, ou a síndrome da desistência, cabe em alguns espaços educacionais, como por exemplo, no Ensino Fundamental e Médio.

Quando você entra na universidade e passa a atuar na pós-graduação, não há mais possibilidade de ocupar esse espaço impunemente. Eu costumo falar que educação é um espaço onde aquilo que você faz não tanto faz, isto é, o que você faz ou deixa de fazer tem implicações. Houve um período em que, se o orientando concluísse ou não o mestrado ou o doutorado, isso era problema dele, não interferia na vida do orientador, na vida do programa, na sua avaliação. Hoje, está tudo tão amarrado, tão entranhado, que para se ter uma idéia, até o início da década de 90, havia em torno de 45% de não conclusões no mestrado e doutorado, hoje, esse número é de aproximadamente 15%, porque a não conclusão do curso repercute na vida do orientador e na vida do programa.

Ou seja, você não tem mais como não ser produtivo e ser incluído. Se você deixar de ser produtivo, você vai ser excluído, e esse produtivo é no sentido de produtivismo mesmo, com todo o tom pejorativo que existe no sufixo "ismo". Então, a idéia desse espectro é: ao mesmo tempo em que você convive com cansaço, estresse, burnout, não há a possibilidade de não cair fora, deixar de fazer.

O produtivismo se tornou auto-aplicável, ou seja, independentemente de governos, já que pode ser caracterizado como uma política de Estado. A impressão que tenho é que as pessoas entram numa máquina de triturar e são incapazes de fazer alguma coisa que gostariam ou acham correto. É nesse sentido que o espectro não ronda, pois não é algo que ameaça, que assusta: Essa cultura do produtivismo está entranhada dentro da universidade e tem gerado concorrência entre áreas, dentro das áreas e entre pesquisadores.


- Como essa concorrência se materializa?


- Na Capes existe um setor chamado CTC - Comitê Técnico Científico. É lá que as avaliações são definidas. Por exemplo, a área de educação faz a sua avaliação e a submete ao CTC, um pequeno comitê com poder de modificar as notas atribuídas aos programas pelas comissões da área, e é o espaço onde se acirra a disputa por verbas.

A partir do momento que, pela reforma do estado, se instituiu a matriz orçamentária, começou a haver uma distribuição de recursos entre ministérios e dentro dos ministérios. Então, a área da educação recebe um recurso que é espalhado pelas autarquias, pelas universidades. Ao chegar na universidade, a concorrência se instala entre os centros; chega ao centro e a concorrência se instala entre os departamentos. Nos departamentos, entre os professores.

O professor mais "produtivo" consegue financiamentos mais facilmente. Essa matriz garante que ao invés da solidariedade, predomine a competição. Houve um momento na história da pós-graduação em educação, por exemplo, em que as pessoas eram solidárias, os programas eram solidários. Na década de 80 o professor Gaudêncio Frigotto e a professora Acácia Kuenzer colaboraram na criação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC, por exemplo, assim como o professor Saviani contribuiu para a estruturação dos programas da UFSCar e da UNIMEP. Hoje é diferente.

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