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Assaltos no Rio de Janeiro

03.11.2013
 
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Assaltos, roubos e furtos, no Brasil, são como os fantasmas de filme de terror. Existem, mas são quase invisíveis. São oficialmente inexistentes, já que não mais 10 por cento dos assaltos são registrados nas delegacias, com direito a B.O. Nem chegam a fazer parte das estatísticas.

Por Alexandre Kostolias

 

Reflexão sobre a manchete do jornal O GLOBO de Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013, informando sobre um enorme aumento da criminalidade no Rio.

 

Assaltos, roubos e furtos, no Brasil, são como os fantasmas de filme de terror. Existem, mas são quase invisíveis. São oficialmente inexistentes, já que não mais 10 por cento dos assaltos são registrados nas delegacias, com direito a B.O. Nem chegam a fazer parte das estatísticas. E não mais de 10 por cento dos crimes registrados nas delegacias são elucidados. Isto significa que só 1 por cento dos assaltos praticados no Brasil sofrerão algum tipo de resposta da sociedade legalmente constituída. Isso significa também que 99 por cento de todos os assaltos cometidos são frutos da nossa fantasia. São, portanto, pura ficção.

Como é de conhecimento geral, é quase sempre tempo perdido se dar queixa de assalto numa delegacia e lidar com o clima de hostilidade ou incredulidade dos funcionários. Que absurdo: um cidadão brasileiro ousar interromper aquela cotidiana rotina burocrática, inventando histórias de ficção. O cidadão (ou cidadã) se arrisca até mesmo a tornar-se a diversão da delegacia, sofrer humilhações ou coisa pior. Mesmo (também acontece) quando se é atendido de maneira respeitosa - o que dependerá muito do "aspecto" do solicitante e de como se poderá inserir o perfil provável do queixoso na pirâmide social - as queixas são puro tempo perdido, a não ser que sirvam para se obter documentos que possibilitem o recebimento de indenizações de seguro.

O máximo que se consegue é fornecer dados para estatísticas que são, estas sim, pura ficção, já que 99 por cento dos assaltos são, como vimos, frutos da imaginação fértil de jornalistas e do povo em geral.

O crime é o monstro invisível que aparece para nos assombrar de vez em quando. A banalização do crime já está incorporada à nossa maneira hedonista e complacente de viver. A sociedade tem sempre justificativas para suas próprias transgressões. Quem não gosta de avançar um sinalzinho de vez em quando? Quem não joga no chão aquela embalagem desnecessária, quando ninguém está olhando, mesmo que esteja a poucos metros de uma cesta de lixo?

Por outro lado, quem gosta de sofrer um assalto? Não conheço ninguém que curta esta emoção, e todos se queixam a respeito. Mas que nenhum gênio das políticas de segurança ouse tentar apresentar soluções eficazes para o problema. Será massacrado pela opinião pública. Reagir a um assalto, então, é visto pela maioria como um delito ainda pior do que cometer o assalto!

Perdidos como somos no meio da nossa própria vastidão, dos desacertos e das contradições da nossa sociedade, tão desordenada, confusa, complexa e desigual, sentimos a consciência pesar toda vez que elaboramos uma lei, ou a fazemos cumprir. Consequentemente, a nossa tolerância com a criminalidade está muito longe de ser zero. Aliás, é quase tão infinita quanto a nossa paciência. É tolerância mil. É como um fantasma que aparece em nossos piores pesadelos, mas do qual logo despertamos para esquecermos tudo e seguirmos em frente.

A violência também é veloz. Os moradores do Rio (e de quase toda capital e cidade brasileira de maior porte) vivem muito mais tempo de suas vidas na espectativa de um assalto no coletivo, no sinal de trânsito, de uma "saidinha bancária", do que vivenciando a experiência do assalto propriamente dito. É quase sempre um assalto-relâmpago, coisa de segundos. Talvez por isso o crime não exista de fato, seja apenas um fantasma da nossa imaginação delirante.

Afirmo, portanto, que no fundo do fundo, a tolerância em relação ao crime é uma escolha, consciente ou não, da sociedade. Lá no fundo, consideramos o crime um mal necessário.

 

*Alexandre Kostolias nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1949, filho de pai grego, Yannis, e mãe brasileira, Gilda. Viveu a sua infância e parte da vida adulta nos Estados Unidos; estudou operações de aeronave na Alemanha, viajou por quarenta países, incluindo o Egito, Índia, Nepal - onde chegou de jipe até o Tibet - e Japão, além de quase todo o Brasil. Graduou-se na San Franciscohttp://cdncache1-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png State University, Magna Cum Laude, em Relações Internacionais, em 1985. Estudou na University of California, Berkeley, e atua hoje como consultor de empresas (treinamento em RH e Relações Internacionais). Treina profissionais de diversos setores para desempenhar suas funções em inglês com fluência a nível profissional ou acadêmica (Language Coaching). Vive no Rio de Janeiro e se dedica cada vez mais aos seus projetos literários, incluindo romances e contos, em português e inglês.

Sua primeira obra publicada no Brasil foi MEU AVÔ GREGO, Editora Panda Books, São Paulo, 2010. Obra de ficção destinada ao público infantojuvenil, introduz os conceitos de imigração e civilização grega de maneira sutil, despertando o interesse pelo assunto. Tem sido adotado como material de apoio didático (história e língua portuguesa) por escolas do Rio, inclusive as da rede municipal, e de São Paulo.

UM BREVE SUICÍDIO EM VIENA (Editora Oito e Meio, Rio de Janeiro, 2012) marca o ingresso do autor no mundo do romance. Com uma abordagem crítica, sutil e bem-humorada discorre, através de Eugenio, um antiherói habitante do universo kafkiano, sobre questões existenciais do homem contemporâneo: vaidade, sucesso e fracasso, paranóia, fobias diversas, depressão, e também sobre a beleza da vida, do amor e da superação humana.

Alexandre é casado há mais de 30 anos com a psicóloga Vera Ferreira Kostolias, com quem tem uma filha, Alessandra.

Alexandre Kostolias está no Facebook e pode-se obter muitas informações a respeito de si e de sua obra através do Google.

 

http://www.debatesculturais.com.br/assaltos-no-rio-de-janeiro/

 


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