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Entrevista com companheiro de Che, General Pombo

03.07.2011
 

Entrevista com companheiro de Che, General Pombo. 15240.jpegEntrevista com general Pombo, o ex-guerrilheiro companheiro do Che

'O Che sonhava com uma América Latina integrada''

Da seiva que compunha a essência do homem novo bebeu Pombo durante as três campanhas que compartilhou com Guevara: na Sierra Maestra, no Congo e na Bolívia. Disse que percebe um "interesse diferente" pela figura do Che na Argentina.

 

A entrevista é de Gustavo Veiga e está publicada no jornal argentino Página/12, 29-06-2011. A tradução é do Cepat.

 

Quando revaloriza o conceito de instrução guerrilheira de que falava Che, Harry Villegas Tamayo torna inevitável a comparação com os exércitos que combateu. Por instrução entende "não ser analfabeto", mais que saber manejar uma arma sofisticada. Dessa seiva que compunha a essência do homem novo bebeu durante as três campanhas que compartilhou com Che Guevara: na Sierra Maestra, no Congo e na Bolívia. Pombo, apelido pelo qual é conhecido este cubano de 71 anos, moderado e loquaz como a maioria dos cubanos, é, além disso, simples general de brigada condecorado como herói da Revolução. Acaba de fazer sua quarta viagem à Argentina e, durante meia hora de sua intensa agenda que teve em Rosario e Buenos Aires, recebeu o Página/12 na residência do embaixador Jorge Lamadrid Mascaró.

Eis a entrevista.

 

Qual é a impressão que leva desta visita onde participou de novas homenagens ao Che por seu aniversário de nascimento?

 

Vou satisfeito. Vi nos jovens argentinos, na população argentina em geral, um interesse diferente pelo Che. E não um interesse somente intelectual, mas antes um interesse em conhecer sua obra, sua vida, e isso é um estímulo. Eu sempre havia visto que para vocês o Che ficava um pouco distante. Mas nesta oportunidade vi que é mais argentino e vocês o vão sentindo como mais importante, como a figura universal que é.

 

Os manuais de história, a bibliografia oficial, se omitiram em ensinar a verdadeira dimensão do Che. Várias gerações se formaram sem ler uma única linha nem palavra sobre ele...

 

Talvez justamente sejam essas as razões e a diferença que eu fui notando quanto a como se projeta a figura do Che na Argentina. Penso que quando falamos dele estamos falando da Revolução Cubana e também de Belgrano. Vi isto nesta oportunidade, porque não percebido tão minuciosamente como agora, quando fui ao Monumento à Bandeira em Rosario. Ele sonhava com uma América Latina integrada, como uma grande nação. Esse pensamento que está em Bolívar, em sua carta da Jamaica e em Martí.

 

Qual é a sua opinião sobre toda a iconografia vinculada ao Che, essa espécie de culto em camisetas, chaveiros e fotografias que também existe com um sentido comercial?

 

Não gostamos disso. Agora é preciso ser objetivo. O mundo em que vivemos é um mundo puramente comercial, onde tudo simboliza mercadoria, me entende? O mundo atravessa uma crise, não apenas climática e econômica, mas também uma crise moral. Não se pode negar que tratem de comercializar o Che. Porque houve um momento em que surgiu como uma figura de muita força, fundamentalmente na Europa, e, portanto, começou a lhes interessar. Você sabe como é a moda. As pessoas seguem a moda dos europeus. Eu pessoalmente penso que deveríamos situá-lo em sua magnitude moral, em sua magnitude revolucionária. Que as pessoas se perguntem: E este, quem é? E que se questionem sobre o Che. Se isso os leva a querer conhecer o interior do Che, estaremos ganhando.

 

A busca do homem novo de que Guevara falava?

 

Tratar de buscá-lo, sim. Eu penso que talvez não cheguemos ao homem novo, mas devemos tratar de procurá-lo de forma mediata, um homem diferente. Um homem com mais valores, com mais autoestima, um homem que respeite como ser humano que é. Isso gradualmente iremos alcançando.

 

É possível no sistema capitalista estimular moralmente alguém para desenvolver aquele pensamento? Como seria na produção?

 

Os mecanismos do capitalismo são outros, buscam criar outros valores, como no trabalho. Fundamentalmente, com o desenvolvimento tecnológico nos sistemas de produção e cada vez mais estão inclinados a deslocar o homem e criar a máquina. Você já viu que na guerra, que é uma das vias onde os novos experimentos são empregados, se está utilizando amplamente o robô. Todos os aviões sem piloto são dirigidos à distância e muitos deles são dirigidos de Washington. Vamos ter que lutar um pouco mais para criar uma consciência nas pessoas. A luta será para preservar a humanidade, para preservar o planeta Terra. Algo que os capitalistas não entendem, que as transnacionais não entendem, independentemente de toda a mão que a própria natureza nos está dando, com todos estes cataclismos e a deformação absoluta que há do clima. Será muito complexo que se possam utilizar os valores do Che no sistema capitalista.

 

Você disse em várias reportagens que o Che era mais que um guerrilheiro atirador. A que se refere?

As pessoas consideram que o guerrilheiro é um atirador, mas o Che considera que o guerrilheiro não é um atirador, que é um transformador social, que tem um objetivo estratégico a alcançar: que é o poder revolucionário para reformar a sociedade. Então não é um atirador e, partindo desse conceito, considerava que, nas condições de Cuba, a primeira coisa que o exército rebelde devia dar era instrução. Porque não é factível que quem luta na guerrilha não tenha instrução, seja analfabeto. Aí começa realmente o processo de alfabetização em Cuba. Com os soldados.

 

Está consciente de que na Bolívia escreveram com o Che uma página da épica revolucionária?

 

Tudo isso é circunstancial, tudo isso é casuístico, conjuntural. Nosso primeiro objetivo era continuar a Revolução. Por quê? Porque as razões não tinham morrido. Morreu o Che, mas as razões pelas quais começamos essa luta não haviam desaparecido. Estão aí, são as mesmas. Atualmente, na Bolívia se produziu uma mudança com Evo, que está em um processo evolutivo, de formação, e é preciso ver no que vai dar. Avança em uma linha ascendente positiva onde as classes humildes vão participando cada vez mais de modo direto no governo, no processo de direção, onde pela primeira vez na história os povos originários têm uma representação e é preciso dizer que a Bolívia é um país plurinacional.

Como é possível entender a ética revolucionária no combate e no respeito ao inimigo que vocês praticaram, se nas guerras deste tempo civis eram bombardeados todo o tempo ou se fotografava sem pudor prisioneiros nus e inermes?

 

Esta ética faz parte de nossa concepção. Fomos educados para não maltratar nenhum prisioneiro, para respeitá-los dignamente. Mantínhamos os oficiais a arma curta. Deu resultados muito bons. Nós tomávamos os soldados prisioneiros e os mandávamos para outro ponto que íamos atacar. Lhes dávamos um bom tratamento e eles chegavam antes que nós. E a primeira coisa que diziam era que não lhes havíamos dado sequer bofetada. Que os havíamos respeitado, que lhes havíamos dado alimentação, que os havíamos curado. Então, isso ia limando a capacidade de resistência dos soldados e tirávamos deles o temor de caírem prisioneiros. Era uma estratégia que aplicávamos.

 

Uma estratégia que na era da guerra tecnológica dominada pelos Estados Unidos e a OTAN parece inconcebível?

Atualmente, já não vamos ao enfrentamento tecnológico com os norte-americanos. Temos nossos aviões, nossos foguetes, os modernizamos e, além disso, vamos acompanhando o que há no mundo. Mas não pensamos em fazer uma guerra aérea com eles porque seria impossível. Com a quantidade de aviões que contamos não podemos desenvolver um combate frontal contra a aviação norte-americana porque nos destruiriam em três dias. Então, temos que pensar com habilidade. O morde e foge. Como aplicamos os princípios da guerra irregular a esta guerra e os combinamos com os princípios da guerra moderna. Não teríamos em princípio uma divisão de 200 tanques, mas poderíamos ter cinco tanques e com esse grupinho atirar num carro blindado e nos esconder. Temos que lutar também contra os meios modernos de localização. Saber quando se usa o laser e que é frágil às telas verdes. Então, temos que criar telas verdes. Coisas dessa natureza. Ou o problema do calor, os foguetes que buscam o calor, como fazer alvos falsos para que atirem e falhem, como criar focos de calor. Desta forma é preciso ir aproveitando e aplicando a inteligência. Não há ninguém no mundo, nem os russos - que têm um desenvolvimento tecnológico igual -, que possa desenvolver essa guerra frontal contra o poderio dos norte-americanos.

 

Em 52 anos de revolução, nunca puderam baixar a guarda?

 

Há um princípio marxista que diz: aquele que esquece a defesa não sobrevive à guerra. E outro que assinala: uma revolução vale quando é capaz de se defender. Essas coisas são vitais para nós. Vemos que temos um inimigo bem pertinho de nós. Sabemos que eles vão nos atacar quando acharem que estão em condições favoráveis e nós temos que estar preparados, para que pensem que, caso nos agredirem, não vai lhes sair barato. E que se colocarem um pé na terra não saem.


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