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Sergio Moro - Operação Carbono

03.04.2016
 
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Sergio Moro: Operação Carbono Pode Ter Vínculo com Assassinato de Celso Daniel

Um dos crimes mais bárbaros e nebulosos dos altos escalões da política brasileira, tenha ou não relação com Operação Carbono, deve ser ter investigação reaberta - ainda que, desde os anos de Luiz Inácio, a contragosto do PT para tornar o caso ainda mais "estranho"

Edu Montesanti 

O juiz federal Sérgio Moro, que conduz os processos da Operação Lava Jato, afirmou que "é possível" que o esquema criminoso alvo da Operação Carbono 14, que envolve o empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões via José Carlos Bumlai e o repasse de R$ 6 milhões para o dono do Diário do Grande ABC, Ronan Maria Pinto "tenha alguma relação com o homicídio, em janeiro de 2002, do então Prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT)". A 27ª fase deflagrada nesta sexta-feira, 1, prendeu o empresário e o ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira.

"É ainda possível que este esquema criminoso tenha alguma relação com o homicídio, em janeiro de 2002, do então Prefeito de Santo André, Celso Daniel, o que é ainda mais grave", escreve Moro.

Celso Daniel foi brutalmente assassinado na grande São Paulo, em 20 de janeiro de 2012.Seu corpo foi encontrado em uma estrada de terra no município paulista de Juquitiba alvejado por oito tiros. Contudo, estes 16 anos contam oito mortos e nenhuma solução envolvendo o homicídio daquele que seria o coordenador da campanha presidencial de Luiz Inácio da Silva em 2002, além de ser considerado um dos políticos mais promissores dentro do partido, hoje no poder.

Segundo a polícia, Celso Daniel foi vítima de crime comum, encomendado pelo amigo e ex-segurança Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", que, amigo pessoal do ex-prefeito de Santo André, estava com Celso na noite em que ele foi sequestrado e nega veementemente ter cometido o crime. Tal versão é defendida irredutivelmente pelo PT, desde o início. 

A versão da polícia, contudo, é desconsiderada pela promotoria, a qual garante que Celso Daniel foi assassinado porque teria descoberto um esquema de corrupção na prefeitura de sua cidade, com o fim de desviar dinheiro para um caixa dois do Partido dos Trabalhadores usado para financiar campanhas eleitorais.

Oito pessoas acabaram acusadas pela morte de Celso Daniel pelo Ministério Público. Até hoje, só um dos implicados no crime, Marcos Bispo dos Santos, foi julgado, à revelia, e condenado a 18 anos de prisão. No julgamento de Marcos Bispo dos Santos, o promotor Francisco Cembranelli disse aos jurados que Celso Daniel "tinha ciência da corrupção e contrataram sua morte quando ameaçou tomar providências". Os promotores são acusados pelos petistas de "politizarem" o crime.

Contudo, o próprio irmão do ex-prefeito, Bruno José Daniel, sempre duvidou da tese de crime comum. O juiz Sergio Moro, que ouviu o irmão de Celso Daniel, comunicou neste dia 1º que "[Bruno Daniel] relatou, em síntese que após o homicídio lhe foi relatada a existência desse esquema criminoso e que envolvia repasses de parte dos valores da extorsão ao Partido dos Trabalhadores. O fato lhe teria sido relatado por Gilberto Carvalho e por Miriam Belchior. O destinatário dos valores devidos ao Partido dos Trabalhadores seria José Dirceu de Oliveira e Silva", registra Moro. "Levantou [o irmão de Celso Daniel] suspeitas ainda sobre o possível envolvimento de Sergio Gomes da Silva no homicídio do irmão".

Bruno Daniel exilou-se na França por alguns anos como refugiado político, devido às ameças sofridas pela insistência em desvendar o crime do irmão. Em determinada entrevista à Rede Bandeirantes de Televisão afirmou que Gilberto Carvalho havia levado "em seu corsinha preto" R$ 1,2 milhão em propina arrecadada em Santo André para entregar a José Dirceu, que teria dado encaminhamento para que o dinheiro fosse usado na campanha de Luiz Inácio, em 2002.

Crime Comum?

Políticos petistas que possuíam ligação com o ex-prefeito e que já ocuparam cargos do alto escalão do governo federal, como o ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, assessor da prefeitura de Santo André quando Celso Daniel foi assassinado, e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito, nunca deram importância à investigação e ao seu posterior arquivamento de um homicídio que custou o assassinato de sete pessoas ligadas ao crime, entre testemunhas e acusados de participação no homicídio.

Queima de arquivo? Pois a lista continua.

Em abril de 2002, três meses depois do assassinato de Celso Daniel, o preso Dionísio Severo, ligado ao "Sombra", foi assassinado na cadeia: dois dias antes, havia declarado que teria informações sobre o caso. Resgatado da prisão por um helicóptero dois dias antes da morte de Celso e, depois, recapturado pela polícia. O homem que deu abrigo ao foragido neste meio tempo, Sérgio "Orelha", também foi assassinado, assim como Otávio Mercier, investigador de polícia que ligou para Severo na véspera do sequestro de Celso Daniel.

E não param por aí as "coincidências" sangrentas (no caso de ter sido crime comum e não por motivações políticas envolvendo altos e sujos interesses, tudo não passa mesmo de uma grande "coincidência"): o garçom que serviu Celso Daniel e Sergio "Sombra" na noite do sequestro do ex-prefeito andreeense, quando tinha consigo documentos falsos e um depósito de R$ 60 mil na conta bancária, acabou também assassinado.

A sorte realmente não andou ao lado dos que cruzaram o caminho de Celso Daniel, nem pelo 6º ou 7º grau, digamos assim (conhecido do conhecido do conhecido, e por aí vai...): como um misterioso serial killer ao pior estilo norte-americano, 20 dias depois foi morta com um tiro nas costas a única testemunha do assassinato do garçom, Paulo Henrique Brito.

Um agente funerário também foi assassinado: Ivan Moraes Rédua, com dois tiros nas costas em dezembro do mesmo ano. Este havia sido a primeira pessoa a reconhecer o corpo de Celso Daniel, quando ainda estava jogado na estrada.

Pois  o médico-legista Carlos Delmonte Printes, que examinou o cadáver de Celso Daniel, é o último a integrar a tão macabra quanto misteriosa lista. Ele vinha dizendo que o ex-prefeito de Santo André havia sido brutalmente torturado antes do assassinato. Em setembro de 2005 o dr. Printes foi entrevistado por Jô Soares na Rede Globo, onde afirmou que fora pressionado por políticos a fim de admitir a tese de... crime comum! Um mês depois foi encontrado morto em seu escritório, na Zona Sul de São Paulo. A causa atestada? Não poderia ser mais sintomática: suicídio.

 


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