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A História contada pelos historiadores, e os fatos relatados por quem os vivenciou

02.11.2015
 
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As histórias de batalhas e guerras, assim como as da política, das sociedades, das religiões, das revoluções, das civilizações, enfim, as histórias da humanidade, contadas pelos vencedores, têm quase sempre um falso brilho, em que se entremeiam ações supostamente heroicas com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos.

Fernando Soares Campos

Quando eventualmente os vitoriosos tratam dos seus próprios erros, dão sempre um jeito de atribuir a responsabilidade de seus "equívocos" aos derrotados inimigos, que, segundo eles, os teriam "ardilosamente" induzido a cometê-los. Também quando um dos seus pares pratica ilicitude, e o fato escapa a um providencial abafamento e cai no conhecimento geral, os bem-intencionados contadores de suas próprias histórias creditam a si mesmos a justa correção de conduta, simplesmente condenando o "pecador" ao ostracismo e fazendo crer que aquilo não passou de caso isolado, comportamento considerado "inabitual" entre os seus pares.

A maioria dos soldados nem sabe por que foi mandado para a guerra nem conhece os verdadeiros motivos que lhe deram origem. No caso da Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, os "Voluntários da Pátria" eram brancos e mestiços pobres, pegos a laço, arrancados à força de baixo da cama, ou negros escravos a quem se prometeu carta de alforria. Nas últimas guerras empreendidas de forma direta pelos EUA contra o Afeganistão e o Iraque, os novos escravos, latino-americanos que vivem semiclandestinos no "paraíso", embarcaram para o front com a esperança de que, se voltassem, ganhariam a plena cidadania americana. Muitos voltaram e permanecerão para sempre em território estadunidense, no cemitério. E aqueles que sobreviveram aos combates mano a mano, ou aos massacres, geralmente contam suas histórias de forma atabalhoada, em vista das graves condições psicológicas que, em muitos casos, se traduzem em irreversíveis estados patológicos. Cabe, então, aos contadores oficiais de história dar forma aos seus relatos.

E quem são esses contadores das histórias dos "vitoriosos"? São basicamente os historiadores "oficiais", gente que adquiriu autoridade estudando os considerados "fatos históricos". São pessoas que podem ser contemporâneos, ou não, dos acontecimentos. Eles podem ter tido participações ativas nos fatos e registrado suas atividades e opiniões, ou os tenha apenas testemunhado; porém, em sua maioria, são especialistas em áreas diversas e acabam compondo a história de um povo, de uma nação, de uma sociedade, baseados nos chamados documentos históricos.

Mas... quem produz esses tais documentos históricos?

Para ficarmos apenas nas histórias contadas a partir de quando Gutenberg aperfeiçoou a técnica de impressão de textos usando tipos móveis até os dias atuais, passando pelas várias revoluções tecnológicas que dinamizaram a produção de textos jornalísticos, literários, acadêmicos, científicos e publicitários, podemos observar que a maior parte dos historiadores fundamenta seus trabalhos no acervo documental produzido pelo oficialismo burocrático, ou nas veiculações jornalísticas.

A oralidade popular, principalmente a dos povos indígenas, é relegada ao esquecimento ou, pior, transformada em chistes folclóricos. Os historiadores precisam pesquisar com maior seriedade, dar ouvido ao que o povo fala, analisar criteriosamente as falas e saberes populares, subentender relatos oficiais e assim compor versões verossímeis.

Nas instituições oficiais de ensino, os livros adotados para os estudantes não costumam tratar das guerras sob os aspectos das batalhas, exceto em referências esporádicas em que se destacam ações de heroísmo. Tratam menos ainda das questões pessoais, humanas, dos soldados que participam das batalhas ou das vítimas civis. Os livros oficiais de História enfocam as guerras pelo ângulo macrovisual das conjunturas nos âmbitos político, econômico e social das nações. Citam os alegados motivos das declarações de guerra ou aquilo que representou o "estopim" dessas declarações; em geral, baseados nos argumentos oficiais dos "vencedores".

Mas o que é mesmo uma guerra? O que determina se tal ou qual ação pode ser, ou não, considerada como ato de guerra? Estamos acostumados a ouvir referências ao combate ao narcotráfico como sendo "guerra ao tráfico". Podemos concordar, pois se trata realmente de uma operação de guerra, em que se emprega toda a parafernália bélica, a logística e as táticas idênticas àquelas utilizadas nos mais sanguinários embates beligerantes. Concordar nesses termos, os que revelam as formas de combate, mas nem sempre com as intenções e objetivos dos que deflagram a guerra - para compreender melhor essa questão, indico o artigo "Cia traficava drogas para financiar guerras", no site da revista Brasil de Fato. 

E o golpe militar de 1964 aqui no Brasil, quando setores das Forças Armadas investiram contra um governo democraticamente constituído e defenestraram o presidente da República, pode ser considerado um ato de guerra? E os acontecimentos sucessivos, com a consolidação do golpe em 1968 através do Ato Institucional Nº 5, que fechou o Congresso Nacional, deu plenos poderes ao ditador de plantão e a partir daí massacrou os focos de resistência ao despotismo, com os órgãos de repressão prendendo, torturando, arrebentando e assassinando, podem ser tomados como uma verdadeira "guerra civil"? Pelo menos para o povo simples dos mocambos recifenses, sim. Pois, em 1987, trabalhando em um projeto de pesquisa financiado pela Universidade de Amsterdam, observei que era como aquela gente humilde se referia ao período dos governos militares: "No tempo da guerra". Isso mesmo, "no tempo da guerra". Aí relatavam as angústias vividas, com a polícia, milícias e até mesmo militares do Exército impondo toque de recolher, silêncio, obediência, sequestro de bens e de pessoas que nada tinham a ver com o processo político nem expressavam preferências ou tendências ideológicas. Gente que viveu o terror produzido pelo sadismo dos terroristas que agiam sob o manto da "legalidade".

E ainda hoje existem contadores de história, ou "historiadores", que sustentam a tese de que aquele golpe militar e seu desenrolar revelam-se uma "revolução social". Quando quem realmente pretendia revolucionar ou, pelo menos, reformar as estruturas sociais de forma progressista, era o governo que foi golpeado.

Os fatos comentados por quem os vivenciou ou simplesmente testemunhou

Em julho de 2005, ainda no auge do bombardeio que a imprensa empresarial promovia contra o governo Lula, especulando e veiculando factoides sobre o caso "mensalão", escrevi artigo intitulado "Cabo Anselmo e os neogolpistas", publicado pelo diário ibero-americano La Insígnia, editado em Madri. Nele começo relatando uma "curiosidade" por mim observada quando de minha estada, na condição de embarcado, no Submarino Bahia, S12 (o primeiro, pois existiu outro Submarino Bahia S12, que substituiu aquele). O meu texto mereceu comentários de Hugo Cortez, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, em artigo publicado no Portal Vermelho, em 29 de junho de 2007,através do qual o autor conclui que meu depoimento lançou "luz especial" à questão sobre se o Cabo Anselmo mereceria, ou não, "reparação econômica por perseguição política, durante a ditadura civil-militar instaurada em 1964". O artigo de Hugo Cortez intitula-se "Cabo" Anselmo: traidor ou provocador?" (nessa postagem do Vermelho, Hugo Cortez oferece link para leitura completa do meu artigo; porém, ao clicar nele, apenas se atualiza a própria página do artigo de Cortez; portanto, se alguém se interessar por ler meu texto, clique no título lincado, acima exposto).

 

Analisando os dois textos, o leitor pode concluir mais que simplesmente o fato de que Cabo Anselmo foi na verdade um nocivo elemento infiltrado nos legítimos movimentos que apoiavam o governo do presidente João Goulart e entre os grupos de resistência à ditadura. De suas leituras percebe-se que, nas nossas vivências cotidianas, nós, meros mortais, somos também testemunhas ou mesmo protagonistas da História. Basta que atentemos para os detalhes dos fatos tornados públicos pelas mídias empresariais e os associemos às nossas próprias experiências vividas. É o caso dos recifenses dos mocambos, que tratam aquele período de ditadura como uma "época de guerra", o que alguns contadores de história furada preferem chamar de "revolução social". Outros acabaram por especificá-lo com um neologismo eufemístico: "ditabranda".

Faz uns três anos, assisti cenas do documentário "A Batalha do Chile", de Patricio Guzman. Ligeiro destaque do vídeo chamou a minha atenção: as cenas mostram que, no dia 11 de setembro de 1973, data em que foi deflagrado o golpe militar contra o governo Allende, "quatro destroieres americanos se aproximam do litoral chileno, para participar da Operação Unitas". De imediato me lembrei do que expus no artigo "Cabo Anselmo e os neogolpistas": "Em 64, uma esquadra dos Estados Unidos fora colocada on standby [no nosso litoral], para o caso de as tropas brasileiras não darem conta do recado - o socorro emergencial".

Até antes de eu assistir a esse vídeo, acreditava que a Operação Unitas era realizada apenas no Atlântico, anualmente, quando esquadras das marinhas dos EUA, Brasil, Argentina e Venezuela, na época em que eu era marinheiro, faziam manobras, exercícios de guerra, desde o Atlântico Sul até o Mar do Caribe. Só aí foi que tomei conhecimento de que Operação Unitas também ocorria no Pacífico.

Porém, dias depois, meditando cá com meus botões, lembrei-me de outro acontecimento que acompanhei, observando atentamente, a bordo do Submarino Bahia.

Participei, em 1969, da Operação Unitas X. Estávamos realizando exercícios em águas caribenhas, de repente, correu a bordo o boato de que o comando da esquadra argentina havia despachado mensagem codificada informando que os argentinos abandonariam os exercícios porque os norte-americanos estavam impondo apenas estratégias de guerra "anti-soviéticas". Os hermanos alegavam que não tinham pretensão de lutar contra a União Soviética e, por isso, voltavam para casa. Em conversa com um cabo telegrafista, conferi a veracidade do boato.

Acho que em 1976 os ianques, que certamente nunca perdoaram a "ousadia" dos argentinos quando da Operação Unitas X, acertaram as contas com a Argentina. Naquele ano, com o apoio "moral" dos EUA, o país caiu sob a mais ferrenha ditadura militar, que desencadeou a chamada Guerra Suja, terrorismo de Estado, resultando em, praticamente, um verdadeiro genocídio à maneira nazi-fascista. Foram muitos milhares de mortos e desaparecidos.

Mas, por que estou tratando desse assunto hoje?

Eu poderia expor meus motivos pessoais, poderia tratar do ameaçador intento golpista contra o governo Dilma, mas acabo de ler o artigo "Não é Dilma quem está em jogo. É a democracia", por Roberto Amaral.

Assim ficou fácil de concluir este meu texto. Destaco trecho do artigo de Roberto Amaral, publicado no site da revista Carta Capital:

"A defesa do mandato de Dilma - um imperativo histórico - não exige a concomitante defesa de sua política econômica, tanto quanto a crítica ao 'reajuste' - e não só a ele - em nada impede a defesa do mandato, até porque essa política econômica não será alterada com a eventual deposição da presidente.

Ao contrario, o caminho para a mudança de política - apartando-a do neoliberalismo e do rentismo - depende do fortalecimento do governo. Em outras palavras: nas circunstâncias, a sucessão de Dilma - qualquer que seja ela --- imporá ao país uma política econômica ainda mais conservadora.

Explica-se.

Só uma nova correlação de forças - que passa pelas ruas, pelos movimentos sociais - poderá assegurar a mudança da política econômica, ainda no governo Dilma.

Só uma nova correlação de forças na sociedade - caminhando, portanto, para além da infiel base governista no Congresso - poderá assegurar a retomada do desenvolvimento econômico e da distribuição de renda, a taxação das grandes fortunas (5% ao ano sobre as fortunas acima de R$ 50 milhões de reais nos dariam um ganho de receita da ordem de R$ 90 bilhões), a taxação dos lucros sobre capital próprio, a alteração das alíquotas do Imposto sobre a Renda, fazendo-o incidir progressivamente sobre renda e patrimônio.

Só um governo política e socialmente forte pode enfrentar o rentismo, reduzir a taxa de juros, controlar o câmbio e adotar uma arrojada política de combate à sonegação de impostos, sobre o que, compreensivelmente, não falam nem a FIESP, nem a FIRJAN, nem a CNI, menos ainda a CNC e quejandas.

É preciso ter em mente que a defesa da ordem democrática, da legitimidade do voto, da soberania popular como única fonte de poder, é o ponto de partida, mas não encerra a história toda, pois o que está em jogo em nosso país ultrapassa a preservação do mandato da presidente Dilma. Trata-se de barrar o avanço das conquistas conservadoras, que teriam o campo livre na era pós-Dilma.

O que seria esse pós-Dilma, senão o fortalecimento das forças conservadoras e reacionárias que hoje, sob o comando de Eduardo Cunha, já promovem uma virtual revisão da Constituição de 1988, dela retirando as principais conquistas sociais?"

Leia completo AQUI 

Também escrevi tudo isso porque pretendo (aí talvez seja muita pretensão) que os leitores que chegaram até aqui se conscientizem cada vez mais de que os acontecimentos mais corriqueiros do nosso cotidiano podem conter importantes informações para entendermos a complexidade dos relatos históricos oficiais e nos aproximarmos um pouco mais da verdade que se encontra além da realidade ilusória.

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

 


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