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Brasil: Um ministério em questão

02.06.2016
 
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Ao fim de minha crônica mais recente, publicada aos 27 de maio do ano corrente, formulei a seguinte pergunta concernente ao Ministério do presidente interino: "Não falta estofo a um grupo ministerial arranjado segundo critérios condenáveis de atender a estes e àqueles?". A resposta a este questionamento foi dada pela própria realidade, pois, em dezenove dias de governo, dois ministros já conheceram a demissão.

Iraci del Nero da Costa *

Ao que parece, o senhor Michel Temer ao assumir interinamente a presidência da República optou, na formação de seu Ministério, por um velho caminho o qual - dado seu comportamento aparentemente automático e cego - certamente vem trilhando de há muito, qual seja, a via do arreglo com o restolho da república.

É forçoso reconhecermos não se tratar, essa atitude, de algo novo e original, pois tanto Luiz Inácio da Silva como Dilma Rousseff percorreram a mesma estrada, secularmente conhecida dos dirigentes máximos da Nação. Assim, uma grande parcela dos componentes dos ministérios de Lula, Dilma e de Temer foi colhida nos desvãos os mais obscuros da degradada vida política brasileira.

Evidentemente não nos escapa aqui a verificação de que a tal escória devem ser agregados vários dirigentes partidários sem mandato, muitos empresários, um sem-número de corruptos vinculados aos serviços públicos e meros intermediários que se colocam a serviço dos demais desencaminhados ora referidos. 

Não obstante a amplitude de tal camorra, interessa-nos, no momento, ressaltar a composição do Ministério composto pelo presidente interino da República.

Como sabido, para vários ministérios foram escolhidas pessoas envolvidas pela justiça em diversos casos escusos. A consequência decorrente de tal fato não se fez esperar, em pouco mais de duas semanas de vigência do governo interino dois ministros já foram defenestrados: Romero Jucá, Ministro do Planejamento e Fabiano Silveira, Ministro da Transparência, Fiscalização e Controle.

Tais demissões deveram-se à divulgação pela imprensa de gravações nas quais esses ex-ministros expuseram suas opiniões restritivas e críticas com respeito ao andamento das medidas judiciais implementadas no âmbito da denominada "Operação Lava Jato", à qual devemos uma luta consequente contra a corrupção existente em larga escala no Brasil. Essas declarações colocaram em xeque, perante todo o povo e o poder Judiciário, a seriedade e as reais intenções do presidente interino o qual se viu impelido a rejeitar seus colaboradores imediatos como forma de dar publicidade ao seu respeito pela condução dos trabalhos realizados pelos encarregados da aludida Operação a qual tem atuado de maneira independente e merece o apoio amplo da população brasileira.   

Como se observa, aceitar sem análise pormenorizada indicações efetuadas por partidos ou políticos pode resultar em demissões que desmoralizam e desqualificam a presidência da República.

Como temos repetidamente alertado em nossos textos, em face falência de muitos políticos, da maioria dos partidos e do próprio poder Legislativo,   apenas a mobilização popular pode dar embasamento salutar às decisões políticas de fôlego pois, sem tal presença do eleitorado, só resta a obediência a políticos ou a partidos cujos objetivos são mesquinhos e não apontam no cumprimento dos interesses da população brasileira. 

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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