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A longa marcha das desigualdades

31.07.2018
 
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A longa marcha das desigualdades - 1 (O período 1953/77 e o fim do regime fascista em Portugal )

Quando nos concentramos na conjuntura, nas pequenas mudanças ou no folclore mediático encenado pelos membros das classes políticas; quando nos focamos exclusivamente nas pequenas diferenças nos preços do combustível ou nos rendimentos, acreditando que virá amanhã o aumento prometido no ano passado estamos, decididamente, a ser enganados ou, melhor, a ser toureados. 

Aquela atitude compreende a visão obscurecida pela estúpida crença de que umas eleições que se seguem, onde os feitos do governo se cruzam com as promessas cantadas pela oposição, trarão alguma coisa de substantivo para as nossas vidas. 

Nessa rotina, arriscamo-nos a morrer sem nunca termos entendido as estratégias de que somos vítimas nem a beneficiar das promessas que nos foram feitas durante a vida, adiadas todos os quatro anos, pelas dificuldades da conjuntura; e morremos sem jamais alcançarmos os amanhãs que cantam, sem nos arriscarmos a mudar as estruturas. Os cemitérios estão repletos de muitos de quantos acreditaram nos tais amanhãs, em seguidores de farsantes à procura de votos, daqueles que nunca fizeram nada para tirar as vendas dos olhos e menos ainda para se apossarem do seu próprio futuro. Acomodados pela crença ou crentes para encaixar o comodismo.

É nessa mentira, nessa obscuridade que nos querem manter. Ainda recentemente, na paróquia lusa houve nutrida grita em torno do aumento em alguns cêntimos dos preços dos combustíveis; porém, essa grita, com os animadores partidários em êxtase, não deu origem a uma atitude coletiva contra a imensa carga fiscal que recai sobre os combustíveis; como não deu origem a campanhas de desobediência face ao ignóbil pagamento de portagens sempre que se pretende circular em estradas mais rápidas; ou perante a ausência de transportes; ou por um SNS cada vez mais pasto de adjudicações a empresas, contratações de trabalhadores através dos negreiros atuais (as ETT), para além da pachorrenta aceitação do pagamento anual de € 800 per capita, em nome de uma dívida pública tão eterna quanto, em larga medida, ilegítima, constituída para compensar as perdas de capitalistas e banqueiros.

Claro que a mistificação do caráter da dívida pública irmana toda a classe política, sejam os gestores do partido-estado PS/PSD com o apoio de um seu produto derivado de reserva, o CDS; como inclui a "esquerda" do regime pós-fascista que aceita sem pestanejar a dívida pública como legítima, clamando, numa atitude complacente com o capital financeiro, por uma reestruturação[1] que, se alguma vez se fizesse, teria um impacto mínimo.

As alterações estruturais são tão mais visíveis quanto maior for o lapso de tempo observado. É interessante comparar a evolução dos rendimentos do trabalho como os do capital, em Portugal, depois de 1953, a partir de quando se encontram séries estatísticas regulares. Por rendimentos do trabalho consideram-se os pagamentos efetuados aos trabalhadores e ainda as contribuições patronais para a Segurança Social. Por rendimentos de capital compreende-se o excedente bruto da produção dos serviços de habitação e ainda os lucros distribuídos ou, os ganhos em rendas e juros, por parte de quem tem propriedades ou capitais. Essa comparação é acompanhada por uma outra, habitual, com o PIB, aferidor do rendimento anualmente gerado, na parte em que é conhecido; sabendo-se que há rendimentos efetivos que escapam ao cômputo, como aliás foi inicialmente referido pelo próprio criador do conceito do PIB, Kuznets. Em Portugal, essa compósita gama de rendimentos não contidos na contabilidade nacional, corresponde a cerca de 25% do referido PIB.

Para o período 1953/93 utilizámos as Séries Longas para a Economia Portuguesa, produzidas pelo Banco de Portugal e, para depois de 1977, os elementos constantes nos dados estatísticos correntes, presentes na página daquela instituição. Há, assim, duas séries de dados que iremos considerar.

Dividimos aquele primeiro período de 40 anos em dois gráficos; um, tomando como base o ano de 1953 e que termina em 1977, contendo os últimos 21 anos do regime fascista e os anos de transição para o actual regime pós-fascista, dito de... democracia, só porque não há pide; o que é pouco para que se possa falar de democracia[2]. E o segundo, com o lapso de tempo decorrido entre 1977 e 1995, dentro da série estatística anterior. 

1 - O período 1953/77 e o fim do regime fascista

O gráfico abaixo (graf. 1) representa a evolução daqueles dois tipos de rendimento para o período 1953/77 (preços correntes). Neste, como nos gráficos que se seguirão, daremos relevância essencialmente à convergência ou à divergência entre as variáveis, como reflexo das diferenças na afetação dos rendimentos globais gerados pelos dois grupos sociais distintos - os trabalhadores e os capitalistas - durante os últimos 21 anos do regime fascista e os quatroprimeiros anos do actual regime, cujo caráter reacionário e cleptocrático nos permite dar-lhe o epíteto de pós-fascista. Procuraremos adiante uma explicação para um maior dinamismo dos rendimentos do trabalho, comparativamente ao PIB e aos rendimentos do capital, neste período.

Ler o original e na íntegra

http://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/a-longa-marcha-das-desigualdades-1-o.html

 


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