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Nova York vê o fim da idade do ouro

30.09.2008
 
Pages: 123
Nova York vê o fim da idade do ouro

Na sede social do banco de investimentos Lehman Brothers, o pessoal se esforça para salvar as aparências. As fachadas do prédio da 7ª Avenida, no coração de Manhattan, continuam iluminadas por telões gigantes que exibem imagens multicolores, e as compridas limusines pretas dos dirigentes executivos seguem estacionadas ao longo da guia, diante do olhar atento de choferes apertados dentro das suas vestimentas impecáveis.

Yves Eudes
Em Nova York (EUA)


Contudo, no espaço de alguns dias tudo mudou. Após ter a sua falência declarada judicialmente em 15 de setembro, uma parte das atividades do Lehman Brothers foi imediatamente comprada a baixo preço pelo banco britânico Barclays. A queda foi tão repentina e tão imprevista que os empregados ainda não conseguem acreditar que isso realmente aconteceu. A. B., 29 anos, é um bancário de negócios que atua a serviço do Lehman Brothers há dois anos, e assim ele espera continuar, apesar da crise que está abalando o sistema financeiro americano.

Ele fornece poucos detalhes sobre o seu passado e sua vida privada porque, da mesma forma que todos os seus colegas, ele recebeu a ordem formal de nada contar, para quem quer que seja, e muito menos para os veículos de comunicação: "Se eles descobrirem que eu desobedeci, este será o pretexto ideal para me demitirem". Mas, apesar dos riscos, ele tem muita vontade de contar o que acabar de acontecer com ele.


Alguns meses atrás, A. B. era um homem estafado, porém feliz: "Em 2007, eu ganhei US$ 100.000 a título de salário [cerca de R$ 180.000], mais um bônus de US$ 200.000, dos quais US$ 50.000 foram pagos com ações da sociedade". Ele trabalhava até noventa horas por semana, não raro retornava para casa à 1h da manhã, ficava de vez em quando no escritório por 36 horas seguidas e continuava estudando seus dossiês durante os fins de semana. "Uma vida de louco, mas aqueles eram bons tempos. Eu sentia orgulho por trabalhar a serviço de um estabelecimento tão prestigioso, uma instituição de 158 anos de idade, e que sabia cuidar da gente. Ela me parecia ser invulnerável".


Desde a falência, as ações que possui A. B. não valem mais nada: "Eu perdi US$ 50.000, definitivamente. Tratava-se de títulos bloqueados por uma duração de cinco anos, eu estava vendo o seu valor baixar dia após dia, e não tinha o direito de vendê-los". Ele se consola lembrando que muitos dos seus colegas se deram muito pior: "Os executivos superiores recebem mais da metade da sua remuneração em ações, eles amargaram perdas enormes. Os mais idosos, que contavam com esse dinheiro para garantirem para si uma aposentadoria confortável, perderam a metade dos seus haveres. Entre os jovens, alguns acabavam de contrair uma dívida para comprarem uma casa, aproveitando-se da queda dos preços no setor imobiliário. Agora, eles não sabem o que fazer para se saírem dessa enrascada, alguns deles já falam em largar tudo e num possível retorno à casa dos pais".


A. B. sabe que ninguém no país vai compadecer-se com a situação dos "golden boys", mas ele não aceita ser considerado como um privilegiado: "40% do que eu ganho parte em impostos, pago um aluguel de US$ 3.500 (cerca de R$ 6.450) por mês para um pequeno apartamento de dois dormitórios, a minha mulher ainda está estudando, e nós estamos esperando um filho. Nós não somos salafrários, nem oportunistas nem aproveitadores, temos famílias para alimentar, como todo mundo. Além do mais, para bancar meus estudos numa prestigiosa escola de administração de empresas, eu tive de contrair um empréstimo de R$ 200.000 (cerca de R$ 370.000). Eu pretendia reembolsar esta dívida em quatro anos, mas, considerando a situação, isso não será mais possível. Mesmo se eles não me demitirem, eu passarei a ganhar menos do que antes, com toda certeza".


O jovem bancário não esconde a sua amargura, pois ele tem o sentimento de que a catástrofe poderia ter sido evitada: "Com o seu plano de salvamento, o governo vai ajudar todo mundo a sobreviver, exceto o Lehman Brothers. Se as decisões tivessem sido tomadas quatro dias depois, nós poderíamos também ter beneficiado das medidas, e com isso evitaríamos ser comprados". Ele também está revoltado com os operadores de mercado sem escrúpulos que aceleraram a queda da cotação da ação da companhia lançando mão do "short selling", uma técnica complexa de especulação que força a baixa de títulos cotados. Nesse sentido, na sexta-feira, 19 de setembro, para evitar outras falências, a comissão de controle da Bolsa proibiu provisoriamente as operações de "short selling" em relação às ações de 800 sociedades financeiras.


Pensando melhor, A. B. reconhece que o problema era mais vasto: "Ao acelerar a queda das nossas ações, o mercado disseminou a informação de que os bancos de investimentos independentes haviam se tornado frágeis, incontroláveis, e que eles estavam fadados a desaparecer, ou a serem absorvidos por bancos clássicos, mais sólidos". De fato, eles haviam de deixado de ser prestadores de serviços, passando a efetuar investimentos por conta própria, o que eles fizeram financiando suas operações por meio de empréstimos de curto prazo e com taxas de juros elevadas. Daqui para frente, este modelo de alto risco já desponta como caduco.

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