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Alguma coisa não funciona bem na terra

29.07.2017
 
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Mesmo diante da evidente e notória crise ambiental, parcela considerável da humanidade ainda enxerga a Terra como uma "espécie" infinita; vale dizer, entendem que os recursos naturais e energéticos contidos na natureza e que dão suporte à atividade de produção econômica não são esgotáveis e que os serviços ecossistêmicos, dos quais a vida humana depende, estão aí para servirem aos nossos abusos descomedidos.

Marcus Eduardo de Oliveira

 

Desde muito tempo, os homens da atualidade, chamados de modernos, têm olhado para a Terra enxergando-a como uma espécie de baú inesgotável, de onde se pode tirar matéria e energia em quantidade suficiente para satisfazer desejos e vontades de consumo material. Ainda hoje, especialmente pela força dominante do mercado econômico, a Terra continua sendo tratada tão somente como fonte e fossa: é fonte de recursos naturais e energéticos, e é fossa para onde são descartados resíduos ejetados do processo produtivo.

Dessa forma, ao rebaixar-se a Terra aos interesses econômico-mercadológicos, a humanidade, com sua estúpida mania consumista, "alimenta" a produção industrial global em ritmo cada vez mais sufocante. Estimula-se para tanto a produção industrial contrária à preservação ambiental, ultrapassando limites planetários. Por isso é válida a afirmação corrente de que criamos um mundo à parte; um mundo que mais se parece com um colossal hipermercado. Parece mesmo que estamos num planeta-mercadoria onde se extrai/produz/consome/descarta de tudo, sempre numa velocidade assustadora. É justamente por isso que se diz que a Terra está adoecida, enferma, combalida. Vem daí a conhecida expressão "os gemidos" da Terra.

Para glorificar a sociedade de consumo, espelho do capitalismo avançado, parcela considerável da humanidade têm usado e abusado das condições de suporte que a Terra é capaz de oferecer, como se realmente ela fosse infinita.

O paradigma da conquista, noção desenvolvida pelos mais abastados (20% da população mundial), é cada vez mais dirigido ao acúmulo material, e continua sendo visto como sinônimo de progresso humano. O problema é que essa ação obscurece a visão da destruição do meio ambiente, e de quebra nos coloca a corda no pescoço; ou seja, nos deixa no limiar da sobrevivência.

Devido especialmente a ganância consumista de alguns, é certo afirmar que um dos maiores erros da humanidade têm sido o de tirar mais do que a Terra renova.

Duzentos anos depois do início do industrialismo, quando a humanidade começou a usar recursos do sistema ecológico numa escala mais elevada, os sapiens deixaram de respeitar os limites ambientais, e sequer deram tempo necessário à regeneração da natureza.

A política econômica fixada pelas nações mais industrializadas desde então submeteu a natureza e o meio ambiente aos interesses econômico-produtivos. Com isso conseguimos mostrar nossa total incapacidade de bem gerenciar a Terra, e justamente por isso estamos compactuando uma insidiosa situação de conflito-confronto junto à natureza.

Sem muito esforço, é possível comprovar nossa incapacidade no trato para com a natureza: nos últimos 50 anos, conseguimos chegar próximo ao esgotamento de 60% dos principais serviços ecossistêmicos; provocamos a perda de 35% dos manguezais, 40% das florestas e 50% das áreas alagadas. Fizemos com que entre 10% a 30% das espécies de mamíferos, aves e anfíbios desaparecessem de nossas vistas ao longo desse tempo mencionado.

Atualmente, os estoques de peixes estão 80% menores e a área cultivada do planeta cobriu 25% da superfície da Terra. No mundo, as florestas estão encolhendo numa escala de mais de nove milhões de hectares ao ano. Em 25 países, elas já desapareceram por completo, e em outros 29 países houve a perda de mais de 90% da cobertura florestal.

Aqui, em nosso rico pedaço de chão que ainda contempla 20% de toda a biodiversidade do planeta, as coisas não estão muito diferentes. O Brasil já destruiu 88% da Mata Atlântica, e agora é a Mata Amazônica que vêm sendo destruída. Outros biomas brasileiros estão sendo igualmente destruídos pela ação antrópica que responde às exigências do crescimento econômico: 54% da Caatinga, 45% do Pampa, 49% do Cerrado, 20% da Amazônia e 15% do Pantanal.

Não há para onde correr. É preciso o reconhecimento de que somos, de fato, agentes potenciais de destruição ecológica e mudança planetária. James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, coloca o dedo na ferida e aponta que "tornamo-nos uma infecção da Terra há um longo e incerto tempo, quando usamos pela primeira vez o fogo e as ferramentas de forma deliberada, mas não foi senão há cerca de duzentos anos que terminou o longo período de incubação e começou a Revolução Industrial; a infecção da Terra tornou-se, então, irreversível". 

Diante de tudo isso, parece mesmo que fica difícil refutar a ponderação de Pascal Picq, paleoantropólogo do Collège de France: "alguma coisa não funciona bem na Terra, e o que não funciona é o homo sapiens".

  

  

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental

  prof.marcuseduardo@bol.com.br

 


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