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Passageiros deveriam ser proibidos em aeroportos

28.11.2010
 

Passageiros deveriam ser proibidos em aeroportos

 Por PEDRO VALLS FEU ROSA

Cheguei a uma conclusão: deveria ser proibido o acesso de passageiros aos aeroportos. Eles atrapalham o bom andamento dos serviços e acabam sendo um transtorno para os encarregados de zelar pela segurança dos vôos.

Há poucos dias, por exemplo, Mandy Simon, três anos, foi filmada sendo revistada em um aeroporto norte-americano. Entre uma apalpada e outra ela chorava e balbuciava as palavras "pare de me tocar". Ou seja: Mandy é um incômodo. Vamos proibi-la de voar.

Ainda nos EUA, uma mãe ousou tentar viajar carregando uma mamadeira com leite para seu bebê, que ia no colo. Esta temeridade custou caro: o bebê levou o "bacolejo" costumeiro e a mãe teve que beber o leite para provar que não se tratava de algum explosivo disfarçado. Logo, mães amamentando e bebês importunam. Que sejam proibidos de viajar.

Há também o caso de Cathy Bossi, obrigada a retirar até a prótese colocada sobre seu seio em seguida a um câncer. E o de Erin Chase, apalpada por sob sua saia de forma tão humilhante a ponto de classificar o episódio como um "assédio sexual". A conclusão óbvia é que mulheres incomodam. Que sejam todas proibidas de voar.

E Thomas Sawyer, 61 anos, um professor que, por conta de um câncer, viu-se obrigado a andar com uma bolsa coletora de urina? Durante o humilhante "bacolejo" a que foi submetido até a bolsa foi retirada, molhando-o completamente - foi assim que ele embarcou. Ao expor tamanha crueldade, doentes incomodam. Que sejam banidos dos aviões.

Enquanto isso, na Alemanha, um senhor de 64 anos foi proibido de viajar porque carregava consigo uma garrafa de vodca - que bem poderia ser uma bomba disfarçada, sabe-se lá! Indignado, ele abriu a tampa da garrafa e simplesmente bebeu todo o conteúdo - um "porre-protesto". Pois bem: provado que o álcool perturba a paz da segurança, quem gosta de bebericar deveria ser proibido de entrar nos aeroportos.

Ainda naquele país um outro senhor foi impedido de embarcar porque carregava em sua maleta o livro "O Suicídio", obra imortal de Émile Durkheim e um dos pilares da sociologia. A diligente segurança entendeu haver perigo no embarque de uma pessoa idosa preocupada com tais assuntos. Entendi que a leitura e a cultura expõem ao ridículo o governo. Assim, quem gosta de ler também deve ser proibido de viajar de avião.

E os aparelhos tipo "scanner", que exibem fotografias detalhadas dos corpos dos passageiros? Na Nigéria eles tem feito a "festa" dos agentes, sendo utilizados como fontes de pornografia. No Reino Unido, um funcionário está sendo processado pelo mesmo motivo. E nos EUA alguém divulgou quase uma centena de fotos de passageiros despidos por estas engenhocas. Já os cientistas denunciam que estes aparelhos podem causar câncer. Resumo: com todos estes recatos e temores, os passageiros estão perturbando as políticas de segurança. Logo, o ideal é proibi-los todos de viajar de avião. Assim, acabarão as reclamações, protestos, confusões e tudo o mais que a incômoda presença de qualquer passageiro traz a um aeroporto.

Ironias à parte, talvez estejamos nos esquecendo de que nossos direitos civis não caíram do céu - foram conquistados ao longo dos séculos, e pagos com o sacrifício e até mesmo a vida de muitos semelhantes nossos. É quando arrisco dizer que uma civilização que renuncia aos seus direitos civis para combater o terrorismo já perdeu a guerra.

 PEDRO VALLS FEU ROSA é desembargador do Poder Judiciário do Brasil, presidente do Tribunal Eleitoral do Estado do Espírito Santo

 


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