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O cinismo do discurso econômico

28.10.2008
 
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O cinismo do discurso econômico

O segundo grande acontecimento econômico, que acelerou a erupção (Ausbruch) da revolução, foi uma crise geral do comércio e da indústria da Inglaterra; já anunciada no outono de 1845 durante a derrota maciça dos especuladores em ações de caminhos de ferro, estendida durante o ano de 1846 através de uma série de pontos incidentes como a iminente abolição da alfândega de cereais (Kornzölle), eclodiu finalmente no outono de 1847 nas bancarrotas de grandes mercadores coloniais londrinos, as quais sucederam sobre os pés a falência de bancos do país (Landbanken) e o fechamento das fábricas em distritos industriais ingleses. Ainda não estava esgotada a conseqüência dessa crise sobre o continente quando a revolução de fevereiro eclodiu[1].

Começo com essa citação do texto de Marx, As lutas de classe na França de 1848 a 1850, não com o objetivo de fazer uma digressão histórica sobre o período de nascimento do movimento dos trabalhadores franceses e europeus, mas apenas com o objetivo de tecer algumas considerações, sem rigor sistemático e apenas com a intenção de contribuir para um debate, sobre a contemporânea “crise do subprime” que tem seu epicentro no mercado imobiliário norte-americano, mas abarca todo o sistema financeiro mundial. Meu objetivo não é, no entanto, fazer uma reflexão interna sobre os mecanismos de gestão da crise da chamada Ciência Econômica, mas sim, de um ponto de vista anticapitalista, refletir sobre os primeiros desdobramentos políticos da crise nessa “situação inédita”, como escreveu M. Nobre:

Pela primeira vez o capitalismo enfrenta uma crise global sem adversário. Não há movimento social e político de importância a confrontar o capital e a sua forma de distribuir a riqueza. E, nesse momento, a premissa de toda encenação desmorona: não há harmonia preestabelecida entre capitalismo e democracia[2].

Diferentemente do contexto histórico no qual Marx se referia, na “situação inédita” contemporânea da crise do subprime, o capitalismo não possui adversários, daí o cinismo dos economistas em afirmações como a de D. Netto: “O comunismo sempre salva o capitalismo”[3]. Para não mencionar a franqueza com que o secretário do Tesouro norte-americano Henry Paulson propôs, no dia 29 de setembro, uma efetiva “ditadura das finanças”[4]. Lembremos que com a entrada em cena dos trabalhadores no cenário político em julho de 1848 “soa o alarme de aviso”, marcando uma certa mudança no discurso econômico: no lugar do cinismo da Economia Política já apontado pelo jovem Marx nos Manuscritos de 1844, “tinha soado a hora da economia vulgar”[5]. Na crise do subprime, na ausência de adversário ao sistema capitalista, o discurso econômico cínico pode perdurar.
Mas afirmar que se trata só de uma ausência de adversário é pouco, pois, de fato, o que há é uma “acomodação” no sistema capitalista, mais avançada nos EUA. Resumindo: a acomodação de um projeto de emancipação da classe trabalhadora num projeto sócio-estatal[6] durante o que se chamou de “Estado de bem-estar social” deu lugar ao “regime de acumulação sob dominância financeira”, para escrever como F. Chesnais, transformando os direitos sociais em espaço de valorização do capital portador de juros. A acomodação a um projeto sócio-estatal, talvez, seja a realização completa da vocação biopolítica do Estado moderno, mas, se estiver correto, a segunda acomodação, à “dominância financeira”, põe um poder biopolítico direto do capital sobre vida nua dos indivíduos. Nos EUA, onde os “sistemas de proteção social” geridos pelo Estado nunca foram como na Europa, a “proteção social” está em poder do capital portador de juros. É por isso que economistas preocupados com os “inocentes” podem afirmar sobre a anterior rejeição, no dia 30 de setembro, pelos deputados norte-americanos ao pacote de estabilização financeira proposto pelo secretário do Tesouro H. Paulson:

Os devaneios ideológicos que negam sua aprovação podem levar a economia global não mais a recessão, já contratada, mas a beira de uma depressão, com funestas conseqüências para os que estão na base da pirâmide social.

Então, será tarde para descobrir que não se trata de punir os culpados, mas poupar inocentes[7].

Houvesse uma força social anticapitalista no mínimo moderada nos EUA, exigir-se-ia, talvez, a anulação das dívidas das parcelas de pagamento das casas próprias, a construção de um sistema de proteção social sob gerência do Estado e que as instituições financeiras arcassem com os seus prejuízos. Mas na ausência dela, os rumos da crise ficam totalmente à mercê da gestão capitalista, ou, sendo mais específico, nem mesmo há espaço para o arbítrio, como afirma outro economista: “Intervir em escala sistêmica deixou de ser escolha”[8]. Não se trata aqui de tomar posição a favor de “liberais” ou “keynesianos”, como superficialmente tem se polarizado o debate, mas de apontar que cada um deles exerce a sua força em determinado momento do ciclo econômico, transformando suas posições em medidas inevitáveis. E, na ausência de uma força social anticapitalista, o modo como cada um deles teoriza sobre a gestão econômica do sistema tem força imanentemente política.

Isto a ponto de um colunista do Financial Times poder reconstituir o passado à luz dessa imanência do político no econômico:

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