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Varoufakis: Como remédio, o arrocho não funcionou II

25.04.2015
 
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Como remédio, o arrocho [a 'austeridade'] não funcionou. Precisamos de outro tratamento" II

AMY GOODMAN: Na 6ª-feira, os ministros de Finanças dos países da eurozona decidirão se liberarão fundos emergenciais para a Grécia. Sem esse dinheiro, a Grécia pode não ter como pagar as dívidas que vencem nas próximas semanas, e põe em risco sua condição de membro da eurozona.

Para saber mais, vamos diretamente para Atenas, conversar com o ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis. Além de economista político, trata-se de celebridade global. A revista Prospect dia 2/12 relacionou-o como o pensador n. 2 do planeta, suplantado só, em importância, pelo economista francês Thomas Piketty e à frente da autora canadense Naomi Klein.

Ministro Yanis Varoufakis, bem-vindo ao programa Democracy Now! Pode nos dizer o que o senhor está pedindo nesse momento? A que altura chegaram as apostas?  

YANIS VAROUFAKIS:
 Quero construir minha resposta em linguagem que não pareça filme de Hollywood nem alguma espécie de confrontação conflitiva. O modo como vejo as coisas é o seguinte. A Grécia está enfrentando crise grave, já há cinco anos. Tivemos uma recessão séria, que levou a uma depressão. Portanto, a questão é: Como podemos pôr fim a essa espiral sem fim, para baixo, de modo a estabilizar nossa economia, criar condições para a volta de certo grau de justiça social e também pagar o que devemos aos nossos credores?

E há aqui duas narrativas, duas narrativas que competem uma contra a outra. A versão oficial, antes de sermos eleitos, era que a Grécia estaria melhorando, que a 'austeridade' estaria funcionando. O que nós dissemos ao povo grego - o fundamento sobre o qual fomos eleitos - foi que a verdade é o contrário disso: que o tal 'remédio' não estava funcionando. Não era apenas que o remédio fosse amargo e não quiséssemos engolir; é que o remédio era tóxico e estava tornando ainda pior uma coisa que já era ruim. A situação era pior que apenas a doença. Portanto, é isso que está em jogo aqui.

Você perguntou "A que altura chegaram as apostas?". É questão de estabelecer o que tem de ser feito para devolver a Grécia a um caminho sustentável.

JUAN GONZÁLEZ: Ministro Yanis Varoufakis, em seu discurso na Brookings Institution o senhor falou das falhas no projeto da União Europeia. Pode falar mais sobre isso?

YANIS VAROUFAKIS: Ora, não é segredo, é coisa que todos sabem, que a Eurozona não foi projetada para suportar as maiores ondas de choque do terremoto nos grandes mercados financeiros de 2008. É portanto semelhante a todas as uniões monetárias, que não têm mecanismo para absorver choques, um mecanismo para reciclar superávits.

Permitam-me dar-lhes um exemplo, no contexto dos EUA. Lembram-se do que aconteceu em 1929? Havia uma espécie de moeda global, o padrão-ouro, que criou fluxos muito rápidos de capital, mesmo para aquela época, mesmo sabendo que não havia Internet nem computadores. E aquilo criou bolhas que rebentaram, começando, claro, com Wall Street. E o resultado foi que a carga dos reajustamentos caiu sobre as nações já devastadas e sobre as partes devastadas dentro dos EUA. 

E o que fez o governo Roosevelt, com o New Deal? Criou mecanismos para reciclar déficits e superávits dentro dos EUA, mediante a Seguridade Social, o Fed, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), de modo que, quando sobreveio a crise seguinte, em 2008, que foi, claro, monumental, até nos EUA - o estado de Nevada não teve de 'resgatar' os bancos com sede em Nevada, e o estado de Nevada não precisou preocupar-se com como pagar os benefícios para desempregados: porque lá estavam, ativos, aqueles mecanismos de absorção de choques. Lá estava a FDIC zelando pelos bancos de Nevada, e se tinha a Seguridade Social, no plano federal, pagando - graças à reciclagem de superávits, e automaticamente: nem se exigia qualquer nova decisão política. Impostos recolhidos nos estados de New York e Califórnia foram usados para pagar os benefícios sociais aos desempregados no estado de Nevada. Esses são os mecanismos indispensáveis, para dar estabilidade a uma união monetária. E nada disso jamais existiu na União Europeia.

YANISVAROUFAKIS: [respondendo a um deputado da oposição] Bem, se fosse verdade que a economia grega estivesse em recuperação antes da nossa eleição, e que já estava em trilha sustentável, nesse caso, sim, o colega deputado teria razão. Infelizmente, não era assim. A crise da dívida avançava, como antes, inexoravelmente. As rendas nominais continuavam a perder valor. A dívida pública e privada continuava a aumentar. Bancos não funcionavam como instituições provedoras de crédito. O investimento era negativo. E falando em termos gerais, a economia grega estava como viciado em drogas, confiando que a próxima dose (de empréstimos) logo chegaria dos próprios credores internacionais e europeus.

O que tentamos fazer foi dizer aos nossos credores internacionais e europeus, aos nossos parceiros na Europa e a todo o mundo, que aquela receita simplesmente não estava funcionando. Tomamos posição ponderada, posição a partir de princípios. Dissemos, vejam aqui, se assinarmos na linha pontilhada desse programa existente, programa inspirado pelo FMI, então, claro, estaremos garantindo outros $5-7 bilhões - mais uma dose -, mas o vício, a dependência continuará. Teríamos pelo menos mais uma dose por mais alguns poucos meses. Rejeitamos essa dose. Não assinamos na linha pontilhada, porque estamos decididos a superar o vício. Queremos estabilizar a economia grega.

E se isso significa que haverá um impasse, por uns poucos meses, entre nós e nossos credores - que não gostam de ouvir que o programa que tão empenhadamente aplicaram na Grécia durante cinco anos é total fracasso... Ora, o impasse foi o preço que tivemos de pagar para reiniciar nosso relacionamento com nossos credores. 

O único modo que havia, para nós sermos ouvidos, foi dizer "Não estamos interessados em receber esse empréstimo-ponte, até que, e a menos que, possamos repensar todo o programa, de modo que a Grécia saia dessa espiral mortal de dívidas." E se, nesse meio tempo, isso significar que nossos papéis percam valor... Ora essa! Passando de menos um milhão, para menos um milhão vírgula um, certo? [risos] Pois... que seja. 

Não fomos eleitos para mentir. Fomos eleitos para dizer aos gregos e a todos, em todo o mundo, que o remédio não funcionou. Que todos precisamos de um novo tratamento.

JUAN GONZÁLEZ: Mas simultaneamente, vários líderes mundiais continuam a pressionar a Grécia. O secretário do Tesouro dos EUA Jack Lew avisou que uma crise total na Grécia terá impacto mais amplo na economia europeia e global.


Secretário do Tesouro, JACK LEW: Se houver crise, atingirá primeiro a Grécia, e atingirá muito fortemente o povo grego, mas aí está algo de que a economia europeia e a economia global não precisam, mais uma crise. Portanto, é do interesse de todos encontrar aquele espaço, mas o governo grego tem de vir e apresentar todos os detalhes que as instituições desejam, para que elas possam trabalhar para encontrar o tipo de programa que possa merecer esse tipo de confiança.


JUAN GONZÁLEZ: 
Como o senhor responde ao secretário Lew?

YANIS VAROUFAKIS: O secretário Lew acerta em cheio. Nós não precisamos dessa crise. É um impasse ao qual poderíamos ter posto fim já há algum tempo. Também tem total razão quando diz que, se essa negociação falhar, se não chegarmos a resultado que atenda aos interesses dos dois lados, nesse caso, sim, as repercussões serão graves, e não só, claro, para o povo grego, mas para toda a economia internacional. Estamos perfeitamente de acordo com secretário Lew, nesse ponto. 

Tenho certeza de que Jack Lew está trabalhando sem parar, nos últimos dias e semanas, sempre pressionando os dois lados, o governo grego, é claro, mas também as instituições - o FMI, o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia, nossos parceiros europeus -, para que todos cheguemos a um acordo.

Quanto à questão das propostas para chegarmos a um acordo, posso assegurar que já há semanas, na verdade, há meses - o governo grego já apresentou propostas claríssimas de como acertar as coisas. É questão, só, de convencer as instituições, as três - o Banco Central Europeu, o FMI, a Comissão Europeia - de que o que fizeram ano passado, o que fizeram sem parar durante os últimos cinco anos, absolutamente não ajudou a resolver problema algum. Que precisamos de reformas mais profundas. Que temos de nos livrar para sempre da ideia de que alguma 'austeridade' algum dia porá fim à crise da dívida. Precisamos, para a Grécia, de um pacote de investimentos. E precisamos, com nossos parceiros e instituições, concordar sobre um mecanismo de reforma, um pacote de reforma, que ataque aqui na Grécia os piores casos de usura; os oligarcas e a oligarquia, os vários cartéis, em vez de só pensarem em tirar dinheiro e direitos do povão, de aposentados que vivem com $600 mensais. Como se fosse reforma que funcionaria.

AMY GOODMAN: Mais uma vez, ministro Yanis Varoufakis, o que você fará, se a Europa expulsar a Grécia para fora do euro?

YANIS VAROUFAKIS: A Europa não nos expulsará para fora do euro. Recuso-me a crer que a Europa operaria algum dia desse modo. Lembrem-se de que desde o final da 2ª Guerra Mundial os povos europeus e seus governos trabalham incansavelmente para tornar mais completa a integração entre todos. Ninguém na Europa quer iniciar o processo de desintegração, por causa de algo que, afinal, não passa de muito pequena diferença filosófica de opinião, em torno de o que fazer para estabilizar uma pequena economia, como a Grécia.

Nossa posição é clara: pessoal, os últimos cinco anos são prova definitiva de que o programa que vocês inventaram e acordaram com outros governos não está funcionando. Temos de reiniciar tudo, precisamos de novo programa. E tem de ser programa que faça perfeito sentido, que seja completamente não dogmático, e que consiga fazer duas principais coisas: 

(i) primeiro, tem de tirar de cena a lógica movida a arrocho, a lógica da 'austeridade', porque é lógica que se autoderrota e só faz aumentar as dívidas, em vez de ajudar a pagá-las; e só corrói  os fundos com os quais as dívidas teriam de ser pagas; e

(ii) segundo, tem de promover reformas que ataquem os vícios e malignidades da economia social grega, e, em particular, a oligarquia e os mais violentos níveis de desigualdade, que só fazem aprofundar a crise. Se você só pensa em tornar sociedade que já é desigual, como a grega, em sociedade ainda mais desigual, e você reduz ainda mais a base tributária, porque livra os mais ricos do dever de pagar impostos, se você dá aos ricos total imunidade, e só faz olhar para os comportamentos parasitários de pequena escala, ao mesmo tempo em que negligencia todos os comportamentos parasitários em grande escala... nesse caso, você está tornando pior, uma coisa que já é ruim.

E podem acreditar, todos vocês: nossas propostas são eminentemente sensíveis. Estamos bombardeando o lado oposto, com toneladas de bom-senso, de razoabilidade. Queremos chegar logo a uma conclusão, quanto antes, melhor. Já estávamos preparados para um acordo, há meses. 

Trabalhamos sem parar, incansavelmente, para forjar esse acordo, para benefício dos gregos, dos europeus e da comunidade global. [Fim da entrevista]



1/4/2015, Democracy Now (vídeo e transcrição)
http://www.democracynow.org/2015/4/21/greeces_yanis_varoufakis_the_medicine_of

 


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