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Isolados do amor pela vida

25.02.2016
 
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Restam poucas dúvidas de que é completamente inadequado o modo pelo qual hoje nos relacionamos com a natureza, resultado imediato de uma agressão antrópica sem precedentes; dito de outra forma, de uma irresponsável atividade humana vinculada à expansão industrial.

Marcus Eduardo de Oliveira

Estamos fazendo do planeta um local incapaz de sustentar a vida. Nos tornamos assim potenciais destruidores da natureza e dos que nela habitam. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos.

Nosso péssimo trato com a natureza continua. Passam os anos e seguimos destruindo mais de 7 milhões de hectares anualmente. Vários pesqueiros já entraram em colapso, lençóis freáticos continuam caindo assustadoramente, grandes extensões de solos e pradarias continuam sendo esgotadas.

À medida que acontece a produção industrial, a poluição emerge como produto final desse tipo de economia linear que ora presenciamos - aquela que extrai, produz, consome, descarta, polui. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), de cada 100 cidades do mundo, 88, na atualidade, estão com o ar poluído.

Somente nas últimas duas décadas, 35 por cento dos mangues desapareceram do mundo. As florestas "sumiram" por completo em 25 países e outros 29 perderam mais de 90 por cento de sua cobertura florestal.

Isso mostra o quão dissociados nos encontramos das questões que envolvem o mundo natural, notadamente o ambiente ecológico e sua rica biodiversidade, do qual o homem moderno possui intrínseca relação, no entanto, prefere se fechar dentro de uma visão estreita, condicionado a olhar quase que exclusivamente para as coisas materiais, esperançoso de que a felicidade um dia será alcançada à base de mais conquistas de mercadorias e serviços.

Via de regra, envolto na prática do individualismo, esse homem moderno abandona qualquer sentimento de moderação no trato com o meio ambiente, esquecendo-se, ademais, que em sua própria formação de massa física corporal há componentes da natureza: 23 por centro de carbono, 2,6 por centro de nitrogênio, 1,4 por cento de cálcio, 1,1 por cento de fósforo e trinta outros elementos em mínimas porções.

A dissociação do ser humano com a natureza é tão intensa que provoca no homem moderno o esquecimento de que possui em seu corpo 61 por cento de oxigênio e 10 por cento de hidrogênio, reunidos numa composição de 71 por cento de água.

Fora isso, totalmente alheio à questão do meio ambiente no que concerne, especificamente, a necessidade da preservação ecológica, esse homem moderno não se dá conta nem mesmo da etimologia do termo "homem", palavra que vem de húmus (terra firme), evidenciando, desse modo, sua íntima relação existente com a natureza.

Dentro dessa perspectiva, nós e TODOS os outros seres vivos possuímos algo em comum: um mesmo padrão de organização química, a partir do funcionamento de células de organismos multicelulares e unicelulares.

Não por acaso, de um cavalo à um pássaro, de um peixe à uma ameba, de uma minhoca à uma borboleta, somos TODOS formados por 20 aminoácidos e quatro ácidos nucléicos.

O que nos diferencia das demais espécies é apenas e tão somente a combinação desse alfabeto genético, nada mais.

Enfatizando esse argumento: TODOS os seres vivos utilizam apenas 20 aminoácidos para fabricarem todos os tipos de proteínas de que necessitam. 

Vale como exemplo a afirmação de que uma bactéria simples deve ter em torno de 2.000 diferentes proteínas, ao passo que um ser humano congrega em si algo em torno de 100 mil delas.

No entanto, alheio e completamente míope a isso tudo, o homem moderno segue isolado do amor pela vida que brota dessa rica biodiversidade manifestada de diferentes modos, e, não obstante, continua mergulhado no mundo material, sonhando com a conquista da felicidade na prática do "ter mais", ignorando que o futuro dele mesmo depende essencialmente do equilíbrio a ser dado à cadeia ecológica que rege a vida na Terra.

Por isso a crise ambiental global é, antes de tudo, fundamentalmente uma crise de valores que afeta sobremaneira a forma de pensar, agir e sentir da humanidade.

Amor dispensado à vida, às coisas da natureza, às relações humanas e sociais, ao convívio familiar, às diferentes formas de lazer e satisfação encontradas na relação com a natureza, desde um simples passeio por um parque arborizado ou um banho em uma cachoeira, lamentavelmente passam a ocupar posição secundária diante da "urgência" que é literalmente "vendida" pelo marketing publicitário para a nossa civilização, erguida sobre as premissas do consumismo como único meio de obtenção de bem-estar e felicidade supremas.

Por isso tudo seguimos assim tão isolados do amor pela vida. Triste realidade.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental  

 


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