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A história do capitalismo brasileiro

23.04.2016
 
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Composto pelas histórias pessoais e empresarias de 51 empreendedores em atividade entre 1962 e 2013, o livro Empresários Brasileiros ajuda a compreender a construção do capitalismo no País. 

                                                           I     

Composto pelas histórias pessoais e empresarias de 51 empreendedores em atividade entre 1962 e 2013, o livro Empresários Brasileiros ajuda a compreender a construção do capitalismo no País. Escrita pelo administrador, empresário e poeta Latif Abrão Jr. e pelo jornalista e escritor Marcos Barrero, a obra, luxuosamente produzida em formato mesa (30x25cm) e com capa dura, reúne as biografias de líderes empresariais que, ao longo daquele período, conquistaram o título de Personalidade Nacional de Vendas, instituído pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). E marca, ao mesmo tempo, não só a contribuição da ADVB para a sociedade brasileira em seus quase 60 anos de existência como reconstitui a história do empreendedorismo, a saga do comércio e da indústria do Brasil.

Adelto Gonçalves (*)

 

            Obviamente, o leitor arguto irá desconfiado ao encontro deste livro, imaginando que terá pela frente uma obra encomiástica, tal como aquelas que empresas e entidades costumam fazer para comemorar datas redondas, cheias de louvações a capitalistas antigos ou a outros ainda em ação, mas, desde logo, adverte-se aqui para o engano. Na realidade, este é um livro surpreendente da primeira à última linha porque as histórias aqui resgatadas são apresentadas sem nenhuma complacência com seus personagens, mas atreladas apenas à verdade dos fatos.

            Mais: foram escritas ao estilo do new journalism norte-americano de Trumam Capote (1924-1984), Gay Talese (1932), Norman Mailer (1923-2007) e Tom Wolfe (1931), levando o leitor a uma viagem pelo Brasil que trabalha e constrói. Até porque um de seus autores, o jornalista Marcos Barrero, é reconhecidamente dono de um dos melhores e mais brilhantes textos de sua geração.

            De se observar é que, das 51 personalidades escolhidas pela ADVB, apenas uma é mulher, o que pode significar que o capitalismo brasileiro tem sido majoritariamente obra de homens, deixando concluir que o País ainda está muito distante na luta pela igualdade dos sexos. A honrosa exceção é a empresária Sônia Hess de Souza, sexta filha de uma costureira e de um poeta que, em 1957, criaram uma firma para coser roupas. Com tenacidade e destemor para enfrentar um mundo de homens, Sônia fez da obra dos pais, a Dudalina S.A., a maior camisaria da América Latina.

                                                           II

            Seja como for, a leitura destes perfis ajuda também a compreender a própria história do capitalismo brasileiro que nasce, a rigor, depois da morte da Velha República em 1930, com o afastamento do poder de alguns grandes proprietários de terras, especialmente cafeicultores. Mas foi a partir do final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que o Brasil começou a se modernizar, com a abertura de algumas indústrias, que puderam ajudar o governo a colocar em prática a política da substituição das importações.

            A essa época, São Paulo já aparecia como o mais importante centro industrial da América Latina. Muitos empreendedores já eram filhos e netos de imigrantes italianos que assumiam e comandavam os negócios de seus ancestrais. No mundo, os Estados Unidos surgiam como os líderes do bloco capitalista, aumentando sua influência sobre os vizinhos latino-americanos. O seu modelo de vida começava a chegar aos brasileiros, através das ondas do rádio, dos jornais e revistas e pelos filmes que vinham de Hollywood.

            Como mostra o livro de Latif e Barrero, o principal legado do período que vai de 1945 a 1960 foi o avanço da industrialização do País. Foi a partir de 1962 que a ADVB começou a contemplar os pioneiros na produção de bens, serviços e consumo (Johnson & Johnson, Artex, Pão de Açúcar, Varig, Grupo Gerdau, Eucatex, Duratex e Wallig) e uma poderosa mídia criada para sustentar o avanço da indústria brasileira (Rede Globo, TV Record, grupo Manchete e agência Salles/Interamericana). Sem esquecer, à época da ditadura militar (1964-1984), de destacar empresas vencedoras como Banco Bamerindus, Lojas Marisa, Supermercados Bompreço, Cofap, Fiat, TAM, Sharp e Melita. Ou ainda de homenagear empresas que, mesmo enfrentando os tempos revoltos dos anos 1990/2000, conseguiram sobreviver e crescer, como GM, Nestlé, Vale, Kia Motors, Casas Bahia, Claro, Avon, Sadia, Dudalina e o Grupo Dória.

                                                           III

            À frente de seus negócios, nem sempre os empreendedores foram exitosos. Quer dizer, se à época da contemplação do prêmio Personalidade Nacional de Vendas viviam o auge de sua vida empresarial, muitos tiveram de conviver mais tarde com decepções e até mesmo enfrentar os caminhos da Justiça comum. Entre as biografias daqueles que são exemplos de empreendedorismo, estão as de Roberto Marinho (1904-2003), Samuel Klein (1923-2014), Abílio Diniz (1936), Mauro Salles (1932), Roger Agnelli (1959-2016), Eugênio Staub (1942), Rolim Adolfo Amaro (1942-2001), Luiz Fernando Furlan (1946), Abram Abe Szajman (1939) e José Luiz Gandini (1957), entre tantos outros. Mas há outros tantos que não tiveram tanto êxito assim, como Victor Pike (1923-1995), executivo norte-americano que veio para montar a divisão da Chrysler do Brasil, mas que acabaria seus dias recolhendo frutas rejeitadas nas feiras-livres do bairro do Brooklin, em São Paulo, depois de ter sido passado para trás por colegas da própria empresa.

            Ou ainda o banqueiro Edemar Cid Ferreira (1943), fundador do Banco Santos e conhecido mecenas das artes, que acabaria punido pela Justiça, acusado de golpes no sistema financeiro, e Paulo Roberto de Andrade (1947), antigo dono da Fazendas Reunidas Boi Gordo, igualmente acusado de fraudes, protagonista do maior escândalo do agronegócio no País, como se lê no livro. Ou ainda o executivo Walter Clark (1936-1997), tido como o criador da TV Globo, que casou e teve filhos com as mais belas atrizes e socialites de sua época, mesmo sendo empregado, sem nunca ter chegado a patrão, a par de exibir um dos mais altos salários do País. E que morreu quase na pobreza, a ponto de ter tido seu funeral custeado por um ex-colega da TV Globo.

            O livro, porém, começa com um vendedor de publicidade, Mário Pacheco Fernandes (1928), que, se não chegou a se tornar um gigante empresarial, passou para a história da indústria automobilística nacional como o inventor da Romi-Isetta, uma versão nacional de um exótico carrinho fabricado na Itália que chegou ao Brasil em 1959, depois de uma associação da indústria italiana Isetta com um grupo paulista. A história da Romi-Isetta se confunde com a história da construção de Brasília e com o auge do cinema nacional e do início da TV no Brasil como veículo de massas, já que das campanhas publicitárias do mini-automóvel participaram os grandes artistas da época.

           

                                                           IV

            Latif Abrão Jr., nascido em Franca-SP, administrador pela Fundação Getúlio Vargas e bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), é presidente da ADVB e superintendente do Instituto de Assistência Médica dos Servidores Públicos Estaduais (Iamspe). Empresário, sócio-proprietário do Hotel Terras Altas, em Itapecerica da Serra-SP, é autor dos livros de poemas Criado-Mudo (Editora Callis, 2005), ilustrado por ele, e O Sentimento da Pedra (L2M, 2013). É autor também do livro de ensaios Administração & Poesia (L2M, 2013). Como executivo, atuou nas empresas Companhia Energética de São Paulo (Cesp), Corporação Bonfiglioli, Vasp-Companhia Aérea de São Paulo e no grupo Notre Dame Intermédica, onde ocupou a presidência da empresa. Foi professor de Economia Brasileira e Teoria Geral de Administração e consultor nas áreas de Gestão e Saúde.

            Marcos Barrero, nascido em Assis-SP, jornalista, é escritor e professor de Jornalismo em São Paulo. Autor dos livros Assis de A a Z - a Enciclopédia do Século, Catchup, Mostarda e Calorias (poesias), História dos Campeonatos Regionais (esportes), Casa da Fazenda (co-autoria) e Dez Décadas - a História do Santos FC (co-autoria). Foi roteirista e diretor da Rede Globo e o primeiro ombudsman de rádio do mundo na Bandeirantes/AM, em 1996, conforme registra a Organization of News Ombudsman, de San Diego/Califórnia. Atuou como professor de Jornalismo, Telejornalismo e Radiojornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, de 1990 a 2004.

            Foi apresentador, diretor artístico e um dos fundadores da allTV, com a qual ganhou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição ao Telejornalismo Brasileiro em 2005. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, de São Paulo, e possui curso de especialização em jornalismo brasileiro pela mesma instituição. Foi repórter, redator e editor na revista Manchete, nos jornais O Estado de S.PauloGazeta Esportiva Diário de S.Paulo, na Editora Abril, e nas rádios Jovem Pan e Bandeirantes. Escreveu para Veja,Isto ÉFolha de S.Paulo e Leia Livros.

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Empresários Brasileiros, de Latif Abrão Jr. e Marcos Barrero. São Paulo: L2M Comunicação/ADVB, 467 págs., R$ 189,90, 2014. E-mail: advb@advbsp.org.br

Site: www.advbsp.org.br

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(*) Adelto Gonçalves, jornalista,  é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga(Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 


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