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A estratégia afegã de Obama: "Em rota de colisão com o penhasco"

23.03.2012
 

Tao Wenzhao, China Daily

http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2012-03/19/c_131475510.htm

Tao Wenzhao é pesquisador do Instituto de Estudos Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

A estratégia afegã de Obama: PEQUIM. - O assassinato de 16 civis afegãos dia 11/3, provocou protestos intensos no Afeganistão, e não apressou só a deterioração das relações entre EUA e Afeganistão: também pôs sob grave risco toda a estratégia afegã dos EUA.

O exército dos EUA no Afeganistão gosta de ver-se como força de libertação, que salvou o país do regime dos Talibã e o pôs na rota rumo à democracia. Não é como os afegãos veem o exército dos EUA, para eles "exército de ocupação". Os soldados dos EUA são diferentes dos civis afegãos no estilo de vida, na religião, na tradição cultural, e os soldados dos EUA não dão sinais de tomar a iniciativa para entender melhor e aprender a respeitar a cultura religiosa dos civis afegãos.

Apesar de os EUA tentarem preservar a rotatividade das tropas, muitos soldados cumprem hoje a quarta, quinta missão no Afeganistão. E, à medida que a guerra vai-se infiltrando no espírito dos soldados, muitos se sentem cada dia menos motivados, com inúmeros casos de depressão na tropa. Esse é um dos fatores que contribuíram para os recentes incidentes, profanação de cadáveres de soldados Talibã, queima de livros sagrados e de outros materiais de culto religioso, e o mais recente, o ataque contra população civil desarmada que fez 16 mortos.

Apesar de o presidente Barack Obama, o secretário de Defesa Leon Panetta e a secretária de Estado Hillary Clinton terem apresentado pedidos formais de desculpas pelo ataque aos civis, a investigação ainda não começou de fato; e, pelo que se sabe até agora, o incidente teria resultado da ação de um único soldado, sargento Robert Bales, já formalmente acusado pelos crimes. O governo e grupos civis afegãos têm exigido que os EUA entreguem o acusado, para que seja julgado no Afeganistão. Mas o exército dos EUA no Afeganistão goza dos privilégios de extraterritorialidade e não é regido por leis afegãs. O presidente Hamid Karzai acusou os EUA de estarem criando obstáculos à investigação do atentado.

O assassinato de 16 civis, entre os quais mulheres e crianças, enfureceu civis afegãos e também enfureceu os Talibã. Manifestações de rua têm exigido que o governo de Karzai não assine o acordo que autorizaria assessores, instrutores, especialistas e, talvez, também soldados das Forças Especiais, a permanecerem no Afeganistão depois de 2014.

Depois da morte de Osama bin Laden, Obama anunciou planos para que todos os soldados norte-americanos estejam fora do Afeganistão em 2014, dado que a situação financeira dos EUA não permite gastar ainda mais para manter soldados no Afeganistão. Dia 1/7, as unidades "de combate" começaram a retirada.

O governo Obama percebe que o exército dos EUA não pode derrotar os Talibã, sequer eliminá-los, e tem tentado cooptar alguns combatentes Talibã, investindo na noção de que há diferença considerável entre soldados Talibã que combatem por convicções, e gente do povo, que só a miséria empurra para a luta.

O ataque contra civis tornou impossível qualquer possibilidade de acordo entre os EUA e os Talibã - que já juraram vingança contra o exército norte-americano.

A atitude dos Talibã parece bem clara: querem participar do processo de reconciliação nacional, mas sob a condição de que todas as tropas estrangeiras deixem o Afeganistão.

Obama reafirmou, para Karzai, os planos para que forças afegãs assumam o comando das operações de combate, em todo o Afeganistão, até o final de 2014. A grande questão ainda sem solução é como o governo afegão conseguirá preservar alguma estabilidade, mínima que seja, por seus próprios meios. Hoje, as forças afegãs não conseguem garantir a segurança dos cidadãos. Mas quanto mais tempo os norte-americanos permanecerem no país, mais incidentes trágicos acontecerão, o que, por sua vez, só aprofundará os sentimentos antiamericanos entre os civis. A estratégia afegã de Obama já entrou em rota de colisão, com alto risco de chocar-se contra o penhasco.

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=61c66a2f4e6e10dc9c16ddf9d19745d6&cod=9508


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