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Tarefas de um Hegemon em bancarrota

23.01.2016
 
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Há pouco mais de sete décadas, quando a ONU foi oficialmente fundada em San Francisco, ninguém no mundo discutia sobre quem era a Grande Potência, o Hegemon  mundial. Hoje, a situação está radicalmente alterada com severa desvantagem para Washington e sua capacidade para mandar e desmandar sobre o resto do mundo em termos de economia, política, e no que atende pela muito gravemente mal usada expressão "direitos humanos e construção da democracia." Essa desvantagem pode, ironicamente, ser para nós uma bênção camuflada.


Em 1945, o Federal Reserve [Banco Central] dos EUA controlava a maior parte, de longe, da moeda-ouro mundial. Com a guerra de 1939 se aproximando na Europa em 1939, o euro europeu fluiu rapidamente para os EUA, por segurança. Em 1935, as reservas oficiais de ouro dos EUA estavam avaliadas em pouco mais de $9 bilhões. Em 1940, depois de iniciada a guerra na Europa, saltaram para $20 bilhões. Com países europeus carecendo desesperadamente de meios para pagar pelo esforço de guerra, o ouro que tinham escorreu para os EUA, para comprar bens essenciais. Quando da conferência monetária internacional em Bretton Woods em junho de 1944, o Federal Reserve dos EUA controlava plenos 70% da moeda-ouro do mundo, vantagem descomunal no que então era um Sistema Ouro de Câmbio de Bretton Woods, que carregava no coração o EUA-dólar. E aí nem se conta o ouro capturado das potências derrotadas do Eixo, Alemanha e Japão, onde fatos exatos permanecem enterrados sob sete palmos de falsidades e boatos, até hoje.

Para dar conta da plena dimensão da crise interna e dos dilemas de política externa que cercam Washington hoje feito assombração, vale a pena voltar ao "triunfalismo" pós-guerra dos círculos políticos dos EUA que emergiam da guerra.

Emerge um 'Império Americano' 

Um dos influentes pensadores geopolíticos do "Século Norte-americano" do pós-guerra, às vezes citado como "o primeiro guerreiro da Guerra Fria", foi James Burnham. Durante a guerra, fora um dos agentes do governo dos EUA que serviram com Wild Bill Donovan na operação de inteligência precursora da CIA conhecida como Office of Strategic Services (OSS) [Gabinete de Serviços Estratégicos]. Burnham foi um dos muitos norte-americanos marxistas trotskistas recrutados pela inteligência dos EUA. Depois da guerra, Burnham mudou-se, da extrema esquerda para a extrema direita, como seu companheiro, também ex-trotskista Irving Kristol, chamado o "Padrinho" dos neoconservadores. Burnham e William F. Buckley Jr. fundaram a revista arquiconservadoraNational Review para divulgar seus discursos antissoviéticos de propaganda da Guerra Fria e dos 'livre-mercados', invariavelmente a serviço da agenda de política externa da CIA e do Departamento de Estado.

Em 1947, Burnham escreveu um grande panegírico do novo poder dos EUA no mundo, intitulado The Struggle for the World [A luta pelo mundo]. O livro era adaptação de um memorando Top Secret da OSS que Burnham preparara para a delegação dos EUA à conferência de Yalta, sobre a estratégia geopolítica soviética em 1944.

Burnham descrevia nos termos mais elogiosos o que chamava de "um Império Norte-americano que será, se não literalmente mundial em fronteiras formais, capaz de exercer controle decisivo sobre o mundo." É o que o fundador da revista Time-Life, Henry Luce, em ensaio de 1941, denominou "O Século Norte-americano".

A visão de Burnham e as recomendações para o que definia como controle pelos EUA sobre o mundo eram claras e inequívocas:


Os EUA não podem, no período de tempo previsto, alcançar a liderança de uma ordem política mundial viável, se apelar meramente à convicção racional (...) O poder deve estar lá, com a conhecida prontidão para usá-lo, seja pela via indireta de sanções econômicas paralisantes, ou diretamente, pela explosão de bombas. Como reserva última nas séries do poder, lá estará o monopólio do controle de armas atômicas.


A referência a "explosão de bombas" diretas, do rascunho de Burnham de 1944, já pressagiava agosto de 1945 e a decisão do presidente Truman de atacar o Japão com bombas atômicas, não para garantir a rendição (o Japão já estava derrotado e rendido), mas, sim, para mostrar à União Soviética, e à Europa Ocidental, que potência reinaria sobre o mundo do pós-guerra. O Século Norte-americano foi concebido para ser empreitada "sem nonsense". Como Burnham diz, "afinal, independência e liberdade são, ambas, abstrações." 

Dentro do espaço econômico controlado pelos EUA, onde vivem  mais de 560 milhões de pessoas, há vasto mercado potencial, superior até à enorme expansão do Império Britânico pré-guerra. Os EUA, meros dois anos já avançados em suas ambições pós-guerra, tinham extraordinário poder sobre grande parte do mundo num império econômico informal. Tudo que fizeram fora usar os mecanismos das instituições de Bretton Woods, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e o controle que tinham sobre ampla política econômica para a Europa Ocidental via o Plano Marshall e a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento [Organization for Economic Cooperation and Development (OECD)] sediada em Paris; e servindo-se do dólar na função de moeda mundial de reserva e coração da finança mundial e, sobretudo, mediante os grandes bancos de New York do cartel do dinheiro de Wall Street e servidores seus aliados dentro do governo em Washington, no Federal Reserve e no Departamento do Tesouro dos EUA.

Em 1948, George Kennan, arquiteto da política de "contenção" [ing.Containment] pela qual os EUA conteriam a União Soviética na Guerra Fria, anotou, num memorando interno do Departamento de Estado dos EUA, a essência da mentalidade dos interesses especiais em torno dos irmãos Rockefeller e o Conselho de Relações Exteriores de Nova York [ing. New York Council on Foreign Relations (CFR)], todos muito ocupados com definir aquele império norte-americano emergente informal. 

O memorando de Kennan resumia muito sucintamente a agenda pós-guerra para estabelecer o poder dos EUA:


Temos cerca de 50% da riqueza do mundo, mas só 6,3% da população (...) Nessa situação, não podemos deixar de ser objeto de inveja e ressentimento. Nossa real tarefa no período vindouro é conceber um padrão de relacionamentos que nos permita manter essa posição de disparidade sem detrimento positivo de nossa segurança nacional. Para fazê-lo, teremos de dispensar os sentimentalismos e sonhos de olhos abertos; e nossa atenção terá de se concentrar em todos os pontos de nossos objetivos nacionais imediatos. Não podemos nos autoenganar de que poderíamos nos dar hoje o luxo do altruísmo e da benemerência mundial.


Kennan resumiu a real natureza das políticas dos EUA para o pós-guerra: foi gelidamente honesto e realista sobre os verdadeiros objetivos pós-guerra do establishment dos EUA. Foi a dominação dos EUA sobre o mundo, ou, pelo menos, tanto quanto podia pegar e segurar consigo em 1948. Foi a Grande Área que o Conselho de Relações Exteriores propôs.

A partir de 1945, os EUA envolveram-se formalmente, como força combatente, em 22 guerras, maiores e menores, da Coreia ao Vietnã, de Grenada e Panamá a Síria e Líbia, guerras todas para passar a mão e segurar consigo aquele império global.

Agora, sua economia doméstica, como concha vazia; a infraestrutura de transporte em declínio horrendo; sua força de trabalho qualificada cada dia mais inexistente; seus alunos de engenharia e ciências já praticamente todos vindos de fora - principalmente de China e Índia -, os Estados Unidos da América enfrentam declínio terminal, causado por nenhum outro agente além do próprio povo - que tolerou o saque, o loteamento, a destruição de um país um dia tão belo, por uma gangue de viciados em poder, gananciosos, gente do mal com nomes como Rockefeller, Gates, Russell, DuPont, Buffett e outros cujos nomes o grande público dificilmente terá algum dia ouvido.

A crise que os EUA enfrentam hoje como Hegemon Mundial é o fato de que a nação está em bancarrota moral, espiritual, intelectual e econômica, como repetição fantasmagórica do Império Britânico depois que se instalou a Grande Depressão de 1873.

Uns poucos indicadores básicos dizem muito sobre as crescentes limitações da projeção global do poder dos EUA e sobre por que as táticas de provocação (orig. "bully") estão sendo cada vez mais escarnecidas pelo resto do mundo.

Dívida dos EUA antes e agora 

Hoje, diferente do início da Grande Depressão dos anos 1930s, o governo federal em Washington tem de administrar nível apavorante de dívida, para financiar suas cada dia mais impotentes tentativas para manter o velho controle global. No final de setembro de 2016, o total combinado de dívidas federais, estaduais e municipais dos EUA provavelmente já terá ultrapassado impressionantes $ 22,4 trilhões, com $19, 3 trilhões de dívidas do governo federal. Se se soma a dívida privada e a dívida das famílias, os norte-americanos devem hoje um total de impressionantíssimos $60 trilhões. Há 40 anos, em 1974, a dívida total - combinação das dívidas do governo, empresas, hipotecas e consumidores - era de $2,2 trilhões. Cerca de 50% dessa dívida federal está hoje nos cofres de países estrangeiros, sobretudo China e Japão, Rússia e bancos centrais da União Europeia.


Esse gráfico do Federal Reserve, da dívida total dos EUA, pública e privada, mostra claramente como e quando os EUA entraram no declínio que hoje já se precipita, de Grande Potência.


O único ponto comparável, quando a dívida federal dos EUA em relação ao PIB chegou perto do que é hoje foi em 1946 ao final da 2ª Guerra Mundial, quando a relação Dívida/PIB passou de 119%. Em 2014, o total da dívida estadual, federal e local dos EUA passou dos 120% do PIB.

A diferença entre 1946 e 2016 não aparece na comparação de números brutos. Naquele momento, os EUA eram potência vencedora, ditando regras aos vencidos. Em 1946, Washington estava no centro do poder global. O EUA-dólar era procurado em todos os lugares, "forte como ouro". A indústria dos EUA era líder mundial em inovação e eficiência tecnológica. Detroit era símbolo mundial da fabricação de carros soberbos e baratos, e em maior quantidade que em qualquer outra nação. A produção de aço nos EUA era inigualável. A pesquisa, nas universidades norte-americanas não tinha paralelo no mundo, ajudada pelo influxo de cientistas europeus e outros cientistas refugiados de guerra, como Einstein. A maior parte do mundo dito "livre" corria a abrigar-se sob o guarda-chuva conhecido como OTAN. Não sabiam naquele momento, mas todos viriam a pagar muito caro por aquele guarda-chuva.

Falsificar números não é "recuperação"... 

Hoje, quase 45 anos depois de o presidente Nixon ter cancelado unilateralmente o Tratado de Bretton Woods e declarado que o Federal Reserve não pagaria em ouro por EUA-dólares de outros países que viesse a comprar, a economia real dos EUA está em ruínas. De tempos em tempos tenho registrado as mentiras absurdas e politicamente motivadas que passam por "estatísticas oficiais do governo dos EUA". Foi ficando sucessivamente pior desde os primeiros truques e mentiras ordenados pelo presidente Lyndon Johnson para ocultar as dívida dos EUA durante a era da Guerra do Vietnã no final dos anos 1960.

Segundo os cálculos amplamente respeitados do economista John Williams na página "Shadow Government Statistics", o desemprego real nos EUA em novembro de 2015 era 22,9%, quando se incluem os "trabalhadores que desistiram há longo tempo de procurar emprego" - que foram definidos como oficialmente não existentes em 1994. Muito longe dos 5% de desemprego do Departamento de Faz-de-Conta do Trabalho de Obama. 1/5 da força de trabalho em desemprego é nível ao qual os EUA só chegaram antes, ao longo de todo o século passado, durante a Grande Depressão dos anos 1930s.

O cálculo ajustado de desemprego de John Williams explica dados distribuídos que, sem ele, seriam inexplicáveis (e distribuídos sem qualquer explicação pelo mesmo governo dos EUA) sobre o número de "norte-americanos em idade laboral não trabalhando". Hoje, oficialmente, mais de 100 milhões de norte-americanos acima de 16 anos não encontram trabalho. Não porque estejam na praia, acrescentando juros e mais juros nos seus papeis de juro-zero. É porque não há empregos para eles; não há futuro econômico para eles nos EUA de hoje. Muitos jovens até se alistam nas guerras de Washington como 'salvação' que pelo menos lhes garante salário regular. Tudo isso está convertendo os EUA numa Esparta, nação orientada para a guerra, que se alimenta de sangue. Nada saudável.

Em posição ainda pior estão os jovens que deixam o ginásio ou o colégio, que entram em idade laboral e dos quais, ano passado, menos de quatro, em dez, conseguem emprego. Como observou Stephen Moore, economista, "para cada três norte-americanos que têm de trabalhar, com 16 anos e mais, o governo Obama só criou um emprego (1,07). Nesse ritmo, em breve os EUA chegarão oficialmente a desemprego-zero. Mas, isso, só porque já ninguém mais se dedicará aprocurar emprego." Pela definição do Departamento do Trabalho, esses que "não procuram" porque desistiram, não contam, quer dizer, não existem. Muuuuuuuuuuuito esperto, não é, Gabinete de Estatísticas do Trabalho?! 

A crise dos sem-teto nos EUA 

Alemanha e Suécia têm sua crise de refugiados, resultado direto das muitas guerras instigadas pelos EUA, do Afeganistão ao Iraque e Líbia e, agora, também até a Síria. Os EUA, por sua vez, têm crise humanitária de outra natureza - o número de sem-tetos que não para de aumentar.

Com o número crescente de desempregados permanentes em todos os EUA, muito como se viu na Grande Depressão, hoje explode também o número de cidades onde a situação dos sem-tetos já alcança proporções de calamidade.

Na outrora pujante Los Angeles, Califórnia, uma área de 50 quarteirões no centro, apelidada Skid Row é descrita como "o pior desastre provocado pelo homem nos EUA". Mais recentemente, Portland, Oregon; Denver, Colorado; e Seattle, Washington, além de todo o estado do Havaí já se tornaram os mais recentes a tomar medidas drásticas de emergência para tentar lidar com as sempre crescentes populações de sem-tetos. 

Além disso, a capital, Washington DC, além de 22 outras cidades também estão tendo aumentos dramáticos de sem-tetos. Em Washington, DC, o número de pessoas que vivem nas ruas aumentou 28% e o número de famílias sem moradia aumentou 60% no ano passado. Chicago, Illinois; Baltimore, Maryland; Philadelphia, Pensilvânia e San Francisco, Califórnia também sofrem do mesmo problema.

Prioridades nacionais erradas

A raiz da crise está em a nação estar sob comando de presidentes, generais, deputados, senadores que se prostituem em processo aparentemente infinito, pela corrupção. Ninguém supera nessa corrupção oficializada o Pentágono dos EUA e o casamento incestuoso que liga o Pentágono e o corrupto complexo militar industrial.

O recente engajamento militar da Rússia na Síria fez subir sobrancelhas e narizes em todo o mundo, também em Washington, ao verem o alto grau de precisão e de sofisticação que as forças armadas russas, agora reconstruídas e reorganizadas demonstraram. Arma após arma que as forças aéreas russas puseram em ação, todas dão sinais claros de ultrapassar em muito o que os EUA têm a exibir. A corrupção em todos os contratos militares levou a isso.

Em 2014, o jornal das Forças Armadas dos EUA, Stars and Stripes, noticiou que "Quase três décadas depois de os contribuintes engasgarem com despesas como assentos de privada de $640 e outras provas do desperdício perdulário dos militares na Guerra Fria, o Departamento de Defesa ainda é o último departamento federal que se recusa a admitir qualquer tipo de auditoria, apesar de todas as leis aprovadas nos anos 1990s que exigem que prestem contas."

E continuam: "Em outras palavras, os militares dos EUA estão convertidos num buraco negro onde sumiram bilhões dos dólares dos contribuintes, sem que ninguém apresente qualquer tipo de prova clara de como, onde e para quem aquele dinheiro foi pago. Fato é que o governo dos EUA agora terceirizou praticamente tudo, e subcontrata empresas privadas (as quais coletivamente gastam bilhões em ações delobbying no Congresso e financiando campanhas políticas), e isso é especialmente verdade no que tenha a ver com o Pentágono."

O jornalista austríaco Einar Schlereth, em análise recente publicada porSputnik News, em que compara o sistema russo de indústria militar e o sistema privado dos EUA, observa que


"o sistema russo de gastos militares é o oposto diametral do sistema norte-americano. Enquanto os EUA privatizaram sua indústria militar, na Rússia ela permanece em mãos do Estado. Todos os lucros da venda de armamentos vão para o governo russo, não para os fabricantes ou multinacionais. Os fabricantes de armas nos EUA são [efetivamente] parte do governo."

"Assim como nos EUA, não há prestação financeira de contas de suas operações, mas há relatórios financeiros revistos anualmente pelo ministro da Defesa e, sobretudo, pelo presidente e pelo primeiro-ministro - i.e., por pessoas que têm de prestar contas aos eleitores e não só à aristocracia dos grandes acionistas."


Estimativas recentes da Sociedade Americana de Engenheiros Civis calculam o déficit na infraestrutura nacional dos EUA em $3,6 trilhões, que é o dinheiro necessário para substituir sistemas antiquados de água, linhas de distribuição de eletricidade, estradas de ferro, rodovias, sistemas de esgotos. Incluem-se aí mais de 10% das pontes que precisam de reparos, um terço das rodovias nacionais, aeroportos e pistas.

Nessa situação será interessante ver a reação dos eleitores, se Donald Trump ou qualquer candidato à presidência dos EUA tiver a coragem ou a sanidade mental de sugerir mudança nas prioridades nacionais, que os EUA parem de só se dedicar a fazer guerras contra Rússia, China, Síria; que convertam aquelas "espadas" superfaturadas do Pentágono, em arados [orig. "swords to plowshares" (ing.)]. Já deveríamos ter feito precisamente isso em 1990, quando a União Soviética deixou de existir como adversária.

São essas, hoje, as tarefas de um Hegemon em bancarrota.*****

17/1/2016, F. William Engdahl , New Eastern Outlook, NEO

 


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