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Ucrânia, Rússia e os mineiros do Donbass

21.04.2014
 
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O livre comércio "profundo e extenso"

Poucos dias antes de a Crimeia se reincorporar à Rússia, em março, o novo primeiro-ministro da Ucrânia Arseniy Yatsenyuk assinara um Acordo de Associação da Ucrânia à União Europeia em Bruxelas. As seções econômicas e comerciais do acordo só serão assinadas depois das eleições presidenciais previstas para o próximo mês, mas é clara a intenção do novo governo da Ucrânia, de assinar tudo.

As implicações do acordo que cria uma "Área Profunda e Extensa de Livre Comércio União Europeia/Ucrânia" [é o título do documento do acordo[1]], para os habitantes do leste da Ucrânia são devastadoras. Grande parte da produção industrial da região é orientada para os mercados russos, e sofrerá duramente no processo de se reorientar para a Europa. Desaparecerá o subsídio para o gás para calefação das casas, dado pelos russos. E a reforma que porá fim ao chamado "populismo fiscal", incluída no acordo, atacará as aposentadorias e pensões. A indústria do carvão será 'enxugada' - o que implica demissão em massa de mineiros.

Em Kiev, os protestos de novembro começaram quando Yanukovych recusou-se a assinar aquele acordo. Os manifestantes em Kiev entendiam que a pressão dos russos e o desejo de Yanukovych de proteger o seu modelo de capitalismo & corrupção o levaram a desistir de assinar o acordo. Tinham razão. Mas se o acordo tivesse sido assinado naquele momento, alguns analistas sugerem que os mesmos protestos que vemos hoje, teriam começado no dia seguinte da assinatura do acordo com a União Europeia.

Os mineiros do Donbass

A bacia de Donetsk, chamada Donbass, no leste da Ucrânia é o coração da indústria de mineração de carvão do país. Os mineiros de carvão do Donbass desempenham papel decisivo na política ucraniana desde 1989, e agora, outra vez, são chave para os desenvolvimentos ali. Muitos mineiros uniram-se às atuais manifestações anti-governo em Donetsk,[2] mas outros participaram dos protestos em Kiev, antes da derrubada do governo de Yanukovych. Mineiros separatistas, que tentavam convocar companheiros da região para uma greve geral, foram rechaçados por mineiros do Sindicato de Mineiros Independentes do Dobnass: "Se se aproximarem das nossas minas, apanham", declarou Nikolai Volynko, presidente do sindicato independente.[3]

Em 1989, os mineiros do Donbass[4] participaram da primeira manifestação de massa de trabalhadores industriais na União Soviética - movimento que não se via desde os anos 1920s -, exigindo melhores salários, o direito de substituir diretores, gerentes e engenheiros das minas, e melhoria nos serviços sociais fornecidos pela administração das minas. E mesmo depois de muitas de suas exigências terem sido atendidas, e de os mineiros já terem voltado ao trabalho, eles mantiveram os comitês de greve. No ano seguinte, os mesmos comitês serviram de base para a constituição do Sindicato dos Mineiros Independentes. Em 1991, fizeram nova greve, exigindo a renúncia de Gorbachev e o fim do controle pelo Partido Comunista. Os mineiros do Donbass foram peça central do movimento pela independência da Ucrânia.

Mas o colapso da indústria ucraniana, a partir da independência, levou à demissão em massa de mineiros de carvão. Muitos continuaram a minerar carvão ilegalmente. Acidentes fatais são frequentes, e adolescentes e crianças trabalham em muitas dessas minas 'selvagens'.[5] Em 2010, essa prática foi legalizada,[6] com o carvão dessas minas 'selvagens' vendido a preço barato a minas estatais subsidiadas, que o revende a preços de mercado. As minas estatais eram controladas pelo filho de Viktor Yanukovych, Oleksandr.

As minas estatais também são extremamente perigosas. Dia 11 de abril, sete mineiros morreram e vários outros foram feridos numa explosão na mina Skochinsky, de propriedade do estado, em Donetsk. A administração culpou os mineiros, que não teriam respeitado as medidas de segurança. Mas a constante pressão sobre os trabalhadores, para que 'mostrem iniciativa' torna inevitáveis os desastres como aquele. Numa única mina, Zasyad'ko,[7] morreram 101 pessoas num único acidente, em 2007.

O movimento sindical na indústria mineira está agora dividido entre o Sindicato dos Mineiros Independentes e o Sindicato dos Trabalhadores do Carvão.[8] Esse último é diretamente conectado ao Partido das Regiões, de Yanukovych; o outro, é comandado por pessoas diretamente ligadas ao partido de Yulia Tymoshenko. A competição imperial entre EUA e União Europeia, e Rússia, e divisões entre os vários blocos de oligarcas na Ucrânia refletem-se na burocracia dos grupos correspondentes, no movimento sindical mineiro ucraniano.

Na mina Belorechenskaia,[9] estatal, os mineiros não recebem salário completo desde outubro do ano passado. A mina foi estatizada em 2012, por causa dos protestos dos mineiros que reclamavam os salários atrasados. A primeira ação da administração estatizada da mina não foi pagar o que era devido aos mineiros, mas contratar  grande número de forças de segurança, para 'conter' a agitação sindical. O Sindicato dos Trabalhadores do Carvão, por causa dos laços que o ligavam ao governo, nada fez para desafiar aquela situação; diferente do Sindicato dos Mineiros Independentes, que manteve a luta.

O homem mais rico da Ucrânia

A força que move esses níveis extremos de exploração, inclusive o uso de carvão ilegalmente mineirado, nas empresas estatais, é a pressão da concorrência que o estado sofre do setor privado de mineração.

Rinat Akhmetov,[10] que vive em Londres, em One Hyde Park, é o homem mais rico da Ucrânia, o 104o mais rico do mundo. Akhmetov comprou minas de carvão durante a 'privatização', quando as minas foram vendidas em liquidação, nos anos 1990s. Em 2011-12, uma de suas empresas comprou o controle de 70% da produção de energia termoelétrica da Ucrânia. Até 2010, foi aliado muito próximo de Yanukovych, mas as relações azedaram, quando o presidente tentou promover sua 'família' [Yanukovich é nascido no Donbass] às expensas do bloco oligárquico mais amplo na mesma região do Donbass. A decisão de Akhmetov, de parar de comprar carvão de cinco empresas estatais de mineração, em 2012, imediatamente mergulhou aquelas empresas em crise profunda.

Akhmetov afastou-se completamente de Yanukovych pouco antes de ele deixar o governo, e agora faz pose de 'negociador de paz' na região do Donbass. Declaração publicada no website[11]do conglometado que Akhmetov dirige, System Capital Management, condena os separatistas e instrui seus trabalhadores a entrarem em greve. Alguns analistas[12] entendem que qualquer tipo de intervenção ou invasão russa porá em risco o patrimônio de Akhmetov.

Divisões acima, divisões abaixo

A sociedade ucraniana vive em profunda crise. A responsabilidade, no fundo, é dos poderes imperiais em competição no mundo, e dos blocos oligárquicos em competição dentro do país. Esses são direta e indiretamente responsáveis pela ascensão de grupos de extrema-direita.

Nada disso significa que o resto do país assista impassível a tudo isso. Os mineiros da região do Donbass padecem há anos sob governos corruptos, queda no padrão de vida, condições de trabalho desumanas, serviços públicos cada dia mais precários, depredação ambiental e repressão política. Mas também têm longa tradição de resistência da qual se orgulhar.

Quando os manifestantes em Kiev foram atacados a tiros por forças de segurança da Ucrânia, em dezembro de 2013, os mineiros do Donbass declararam que estavam dispostos a entrar em greve geral, até a derrubada de Yanukovych: "Povo da Ucrânia: Em 1989, vocês apoiaram nossa greve geral por nossos direitos. Hoje os mineiros do Donbass estamos com vocês."

Mas hoje os mineiros estão divididos. Ano passado, a Rússia reduziu em 40% as compras de carvão; significa que a integração à Rússia pouco tem a lhes oferecer. Mas o acordo UE-Ucrânia também significa dramático 'enxugamento' na indústria do carvão, a favor da exploração do gás natural, que interessa às multinacionais. Essa 'corrida para o gás' não garante empregos para os mineradores ucranianos nem oferece qualquer solução ao problema climático global.

O povo das minas do Donbass está na linha de frente de um conflito que tem implicações para todo o mundo. Merecem a solidariedade do mundo. ******

 


* A Bacia Donets, de reservas de carvão natural, conhecida como "o Donbass" é região histórica, econômica e cultural que cobre o leste da Ucrânia e o sudoeste da Rússia. Área de mineração de carvão desde o final do século 19, tornou-se território pesadamente industrializado, com graves problemas de decadência urbana e poluição industrial. O Donbass cobre as regiões de Donetsk e Luhansk na Ucrânia, e a área de Rostov, da Federação Russa. O Donbass é hoje a região de mais alta concentração populacional da Ucrânia (exceto a capital, Kiev). A cidade de Donetsk é considerada capital não oficial do Donbass. Mapa em http://www.oseweb.org/regions/donbass#sthash.N0xMMsjO.dpuf [NTs].

[1] Tem 1.500 páginas. Está em http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2013/april/tradoc_150981.pdf  (ing.)

[2] http://www.theguardian.com/world/2014/apr/12/east-ukraine-protesters-miners-donetsk-russia

[3] http://m.liga.net/news/politics/181022-shahterskiy_profsouz_donbassa_otkazalsya_podderjat_separatistov.htm

[4] http://goo.gl/yOAXur

[5] http://liva.com.ua/snezhnoe-mining.html

[6] http://mondediplo.com/2014/04/03ukraine

[7] http://www.ukrinform.ua/rus/news/zolotopupov_shahta_im_skochinskogo___samaya_opasnaya_1622965

[8] http://www.ukrinform.ua/rus/news/zolotopupov_shahta_im_skochinskogo___samaya_opasnaya_1622965

[9] http://porojniak.net/print.php?news.1440

[10] http://www.forbes.com/profile/rinat-akhmetov/

[11] http://www.scmholding.com/en/media-centre/news/view/1516/

[12] http://www.bloomberg.com/news/2014-04-10/ukraine-s-richest-man-fights-to-save-faltering-fortune.html

 

12/4/2014, Nick Evans, Revolucionary Socialism for 21st century, Grã-Bretanha
http://rs21.org.uk/2014/04/16/ukraine-russia-and-the-miners-of-the-donbass/

 


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