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O fast-food acadêmico

20.03.2010
 
Pages: 12
O fast-food acadêmico

Por Revista Consciência.Net em 18/03/2010

Deve causar enjôo em muita gente ouvir discussões quanto às mazelas do sistema capitalista nos dias de hoje. Papo de velho comunista, dirão uns; conversa de revolucionários sonhadores, tacharão outros. Afinal, já estamos inseridos nessa lógica há muito tempo e, ao que parece, ou é isso, ou acabaremos caindo em ditaduras ou economias engessadas, ultrapassadas ou que, simplesmente, sofrerão embargos e represálias por não se enquadrarem na panelinha do G-8.

No entanto, ainda é possível sensibilizar-se com alguns dos pontos negativos oriundos desse paradigma que se evidenciam a partir do momento em que o aspecto selvagem do capitalismo provoca reflexos graves em áreas como a saúde ou a educação.

Um exemplo disso está relacionado à crescente mercantilização do ensino superior brasileiro, resultado da incapacidade (ou mesmo impossibilidade) do Estado de gerir por si só esse setor. Mas, até aí, tudo bem. A privatização do ensino, não seria o ponto de discussão proposto aqui. A questão que não se pode perder de vista está relacionada ao modo como esse trabalho está sendo realizado; se a formação de profissionais no país – aspecto central em seu desenvolvimento – contempla diretrizes pedagógicas e acadêmicas adequadas, responsivas às demandas sociais em curso, ou se o que está valendo são apenas cifrões, ou o lucro empresarial, em detrimento da educação.

Um possível foco de apreciação do tema é o que vem ocorrendo numa das maiores empresas privadas de ensino superior do país, a Universidade Estácio de Sá. De acordo com um profissional da instituição que preferiu não se identificar, a universidade – que, ao longo dos anos, obteve o devido reconhecimento pela qualidade de muitos de seus curso e excelência de seu corpo docente – parece estar sucumbindo à lógica dos cifrões.

A crítica é colocada num momento em que a instituição, presente em 15 estados brasileiros e com um corpo discente que ultrapassa 200 mil alunos, vem passando por uma ampla reorganização administrativa que se intensificou desde a decisão de mudar seu estatuto de Instituição filantrópica para empresa de capital aberto, em fevereiro de 2007. Literalmente: de Universidade Estácio de Sá, o grupo passou a se chamar Estácio Participações.

O entrevistado afirma que, ao longo desse processo, vem se instalando na universidade o mais selvagem clima de ultra-capitalismo, em que o ensino é progressivamente empacotado e vendido de forma rápida e fácil, tal qual um Big-Mac. A principal queixa, diz ele, se deve ao fato de que “o setor administrativo predomina cada vez mais sobre o acadêmico”, uma vez que a saúde financeira da instituição “é preconizada como valor último, explicando decisões que, muitas vezes, vão de encontro ao interesse de alunos, professores e acadêmicos em geral”.

Sua queixa é ainda motivada por recente decisão da diretoria da Estácio Participações de reduzir em aproximadamente 30% os honorários de professores e coordenadores, embora estes tenham, em paralelo, “acumulado mais horas de trabalho semanais e mais responsabilidades”.

Segue trecho de seu depoimento:

“Os currículos na Estácio de Sá estão sendo enxugados ao máximo, ficando, por vezes, sensivelmente descaracterizados, tantas são as “jogadas” para fazê-los o mais barato possível e, com isso, oferecer o melhor preço aos alunos – historicamente das classes C e D.

Todos os dispositivos criados por antigos diretores e coordenadores de curso, voltados para objetivos acadêmicos, são desmantelados, sempre sob a desculpa de que, de outra forma, salários deixarão de ser pagos em dia. E todas essas decisões são sempre acéfalas. Não se sabe quem são os responsáveis por ela, que nunca aparecem para assumir e justificar suas decisões. São sempre enviados representantes que prontamente se revelam também indignados com tudo isso e dizem que nada podem fazer.

Embora muito se tenha dito sobre a Estácio ser uma espécie de cadeia “fast food” do campo da educação, o fato é que durante algum tempo ela atraiu para si um grande contingente de professores com ótima formação que encontrava boas condições para desenvolver seu trabalho na instituição. Tais professores, quando assumiam cargos de confiança, imprimiam uma direção muito mais afinada com ideais acadêmicos, do que administrativos. Os reflexos disso fizeram-se sentir rapidamente, com a oferta de cursos que ofereciam boa formação. Muitas vezes falava-se mal da Estácio, sem notar que esse encontro de bons professores com uma população que, até o surgimento da instituição ficava, em grande parte, excluída do campo da educação superior, cumpriu papel social significativo.

Infelizmente o que observamos agora é uma guinada em direção à oferta de cursos no estilo “fast food”. Em 2010.2, com a nacionalização dos currículos, teremos a entrada em vigor de apostilas que oferecerão o programa de curso, aula por aula, já pré-determinado, que vigorará em todos os cursos da universidade. Se não podemos afirmar com certeza que isso será ruim, a coisa cheira a ensino médio ou no mínimo a algo como sanduiches padronizados – que matam a fome por pouco tempo e, segundo dizem, não alimentam e prejudicam a saúde, embora possam ser muito gostosos.

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