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Sérgio Lessa: Para entender a essência do capitalismo

19.05.2009
 
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Sérgio Lessa: Para entender a essência do capitalismo

“Se o István Mészáros estiver certo, e se o Georg Lukács também estiver, a gente vive o desdobramento final de todas as determinações essenciais do modo de produção capitalista”, defende Sérgio Lessa, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e membro da comissão editorial da revista Crítica Marxista, no seminário “O referencial teórico para entender a crise”, ocorrido no Instituto Sedes Sapientiae, na cidade de São Paulo, no dia 29 de abril.

Otimista, Lessa acredita nas novas possibilidades que a atual crise do capitalismo propiciou aos trabalhadores. “A crise é uma relação social”, por isso, segundo ele, o que determina o percurso de uma crise será como a humanidade vai reagir à crise. Abaixo, alguns trechos do seminário, promovido pela Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), Departamento de Jornalismo da PUC-SP e pelo CEPIS-Instituto Sedes Sapientiae, com o apoio do jornal Brasil de Fato e da editora Expressão Popular.

Primórdios

Primeiramente, a gente tem que ir para a revolução neolítica, há 14 mil atrás. Nessa época, quando a humanidade descobre a agricultura, temos uma profunda transformação no trabalho. Com o aparecimento da agricultura, pela primeira vez, o indivíduo produz mais do que precisa. É o chamado trabalho excedente.

Todavia, nesse longo período histórico, que vai de 14 mil anos atrás até a revolução industrial, que começa em 1776 e termina em 1830, o trabalho excedente ainda não é suficiente para atender a todas as necessidades de todos os indivíduos do planeta Terra. Ou seja, não sobra para investir no desenvolvimento das forças produtivas. E o resultado disso é que o único desenvolvimento das forças produtivas possível nessa circunstância é o aumento populacional, aumento a força de trabalho; mas isso é um processo muito lento do ponto de vista histórico.

Sociedade de classes

A sociedade de classes entra nesse longo processo histórico como a forma mais eficiente que a humanidade encontrou para desenvolver as forças produtivas. A sociedade se organiza de tal forma que a maioria da população vai ter o seu trabalho excedente expropriado, roubado pela minoria. O resultado é que essa minoria arrecada tanto recurso, tanta riqueza, que ela não consegue consumir a riqueza que arrecada e, portanto sobra para ela desenvolver os seus negócios.

Mediação

O desenvolvimento das forças produtivas nas sociedades de classes, em linhas gerais, a procura é maior que a oferta. Assim, a tendência é que o preço de determinado produto fique acima do preço de custo, proporcionando o lucro. Essa mediação do mercado (relação mercantil), é historicamente muito adequada para que o período de carência seja superada; não o de miséria.

Pela primeira vez a humanidade produz mais do que ela precisa, de uma forma plena, e sobra para desenvolver as forças produtivas. Pela primeira vez a oferta fica muito maior que a procura. O mercado vai se tornando um mercado saturado, com uma produção maior que a necessidade. E o resultado disso é que pela primeira vez, ao longo da história da humanidade, o mercado não funciona mais como uma mediação adequada para desenvolver as forças produtivas. A mediação do mercado faz com que de tempo em tempo haja uma baita crise que trava a produção. Chega um determinado momento em que a produção não pode continuar aumentando porque os preços não compensam mais. Saímos de um longo período histórico em que as relações mercantis levavam a produção para frente, mas que depois passa a ser travada por crises sucessivas. É o que Marx vai chamar de crises cíclicas.

Revolução industrial

Há evolução histórica que muda de patamar quando se passa pela revolução industrial, ou seja, quando a gente entra no capitalismo industrial, no capitalismo maduro. Antes desse momento histórico, as relações mercantis tinham uma mediação adequada para levar as forças produtivas para frente. Portanto, produzir por lucro e não para atender as necessidades humanas, ou produzir para reproduzir de uma forma ampliada a propriedade privada da classe dominante era o meio mais adequado do ponto de vista histórico para desenvolver as forças produtivas.

Pela primeira vez na humanidade a produção para o lucro passa a ser um entrave às forças produtivas. E só dá para superar esse modo de produção antagônico se o modo de produção capitalista for superado.

Entre o final da revolução industrial (1830) e a grande crise de 1870-71, Karl Marx percebe que o modo de produção capitalista do século 19 só pode se reproduzir aumentando a produção cada vez mais. Ao mesmo tempo, para gerar essa produção cada vez maior tem que desenvolver tecnologia, desenvolver novos métodos de gerência, é necessário fazer cada vez mais investimento para aumentar o lucro de uma forma cada vez menor. A relação entre o que se tira da mais-valia e o que é investido vai fazer com que o investimento vai se tornando cada vez mais pesado. Isso faz com que o lucro da empresa aumente, mas a lucratividade, ou seja, a relação entre o lucro e o investimento vai diminuindo . Isso vai fazer com as empresas tenham uma margem de manobra cada vez menor. Elas vão tendo cada vez menos gordura para queimar e quando chega a crise, essa bate nelas de uma forma muito mais violenta.

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