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Bancos: Do Inferno ao Paraíso

18.09.2008
 
Bancos: Do Inferno ao Paraíso

A turma que vive de ganhar dinheiro com o dinheiro dos outros, leia-se banqueiros, esteve reunida neste domingo em Nova Iorque para tentar encontrar uma solução que salve do atoleiro o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. É o terceiro dia consecutivo de reuniões, com a presença dos cabeças da área econômica do governo Bush e os principais dirigentes de bancos do país. Há um medo generalizado de que a crise dos bancos na terra do Tio Sam se espalhe e leve pro buraco outras instituições financeiras.


O grande problema é que o Lehman Brothers é um banco que gozava da maior reputação entre os investidores americanos. Com 158 anos no mercado, quem poderia imaginar que ele pudesse estar contaminado pela crise? Milhões de americanos têm suas economias nele aplicadas e outros tantos investem pesado para auferir os lucros provenientes dos juros que o banco cobra daqueles que precisam de dinheiro. Além disso, o Lehman comprava hipotecas de outros bancos e agora está com a banana nas mãos.


Azar de toda essa gente. Dos pobres coitados que depositaram a poupança de toda uma vida na esperança de uma velhice tranquila e daqueles gananciosos que ganham dinheiro fácil enquanto dormem.


Tão logo vazou a notícia de que o Lehman estava em situação difícil e seria vendido, suas ações perderam 74% em uma semana. O Barclays, inglês, e o Bank of America, o maior banco de varejo dos EUA, se apresentaram como compradores. Mas queriam moleza. Queriam que o governo entrasse com dinheiro para cobrir a parte podre do negócio, ou seja, aqueles ativos de difícil recuperação. E eles ficariam com o filet mingon. O governo, pelo menos até este domingo, não tinha cedido aos interesses dos pretensos compradores e o Barclays já avisou que está fora.


A gente já viu esse filme no Brasil, durante o governo FHC. Com o pomposo título de Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, o famigerado PROER desviou o dinheiro do contribuinte para salvar instituições financeiras que cometeram fraudes em seus balanços. O PROER gastou em cinco anos, aproximadamente, 44 bilhões de reais nas operações de transferência de controle acionário e fusões de bancos, um negócio da China para banqueiros inescrupulosos, que saíram ricos e limpos de suas bancas, e péssimo para o contribuinte e para milhares de clientes que, no mínimo, ficaram doentes ou perderam noites de sono diante da perspectiva de verem suas economias descerem pelo ralo.


Nos EUA, há uma forte resistência a esse socorro do governo às instituições que usaram e abusaram das operações de risco e agora estão à beira de um ataque de nervos. O próprio Alan Greenspan, que dirigiu o banco central (FED) por quase vinte anos, admite que o Lehman não é o primeiro nem será o ultimo banco a abrir o bico. E que até instituições mais poderosas podem entrar em colapso. Com toda sua experiência, ele acha que o governo não deve colocar dinheiro público no negócio. A banca privada é que deve resolver como sair do buraco.


Semana passada, o Tesouro americano injetou 200 bilhões de dólares nas duas gigantes do setor de hipotecas, a Freddie Mac e Fannie Mae. Mas, nesse caso, o socorro até se justifica pela importância que têm no mercado e porque as duas funcionam como uma espécie de economia mista. O governo botou esse dinheiro na frente, mas demitiu os dirigentes das duas companhias e colocou gente da sua confiança para gerir toda essa grana.


No Brasil, a situação dos bancos é bem diferente. A cada semestre apresentam lucros maiores em seus balanços. A não ser que alguém me aponte outra razão, o segredo do sucesso dos bancos brasileiros está nas taxas de juros cobradas. São simplesmente extorsivas e cruéis e nos fazem sentir saudade dos velhos agiotas que emprestavam a dez por cento ao ano. Lembram? Outro dia, um amigo me dizia que renegociou uma dívida com o banco com juros na base de sete por cento ao mês. E estava eufórico. Ele, como a grande maioria do povo brasileiro, não se preocupa em saber quanto vai pagar efetivamente de juros. Na verdade, os juros de sete por cento ao mês representam em juros exponenciais, popularmente chamados de juros sobre juros, 125% ao ano.


Comecei falando da crise bancária americana e acabei no paraíso dos banqueiros brasileiros. Da próxima vez que for tomar um empréstimo, não acredite no gerente nem na propaganda. Faça um simples cálculo de juros compostos, que aprendemos nos bancos do ensino médio, e não usamos na vida prática, e boa sorte na negociação.

Eliakim Araújo

Ancorou CBS Brasil, primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa. Ancorou jornais da Globo, Manchete e SBT

http://www.guiasaojose.com.br/novo/coluna/index_novo.asp?id=1588


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