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Rota de seda da China, à glória

17.11.2014
 
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Como se ainda restassem dúvidas sobre a estupidez ilimitada da imprensa-empresa ocidental, a dita 'mídia' ocidental presente na reunião de cúpula da Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [Asia-Pacific Economic Cooperation (APEC)], em Pequim, decidiu que a suposta 'cantada' que o presidente da Rússia Vladimir Putin teria 'aplicado' à esposa do presidente Xi Jinping da China foi o 'destaque' da reunião. No 'evento', cujas imagens foram censuradas na imprensa chinesa, o presidente Putin ofereceu seu xale a esposa de Xi, para protegê-la do frio que fazia na sala de reuniões. Depois disso, inventarão o quê? Affair homoafetivo entre Putin e Xi? 


Deixemos p'rá lá as bobagens, e vamos ao que importa. Já na abertura do encontro, o presidente Xi conclamou a APEC a "pôr lenha na fogueira da economia da região do Pacífico Asiático e do mundo". Dois dias depois, a China obteve o que queria, em todos os fronts.

1) Pequim conseguiu que as 21 nações-membros da APEC endossassem a Área de Livre Comércio do Pacífico Asiático [orig. Free Trade Area of the Asia-Pacific (FTAAP)] - a visão chinesa de um tratado comercial "absolutamente inclusivo, ganha-ganha para todos" com potência para fazer avançar a cooperação no Pacífico Asiático (como se lê com todas as letras no South China Morning Post e  também aqui). Quem perdeu foi a Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] chefiada pelos EUA, redigida pelas grandes empresas, e que enfrenta oposição furiosa de 12 países (especialmente do Japão e da Malásia).

2) Pequim fez avançar seu projeto para "conectividade em todas as direções" (palavras de Xi) por toda a região do Pacífico Asiático - o que implica estratégia de vários braços. Um dos traços chaves dessa estratégia é a implantação com sede em Pequim, do Banco Asiático de Investimento na Infraestrutura [orig. Asian Infrastructure Investment Bank], com capital inicial de US$50 bilhões. É a resposta da China a Washington, que se recusa a dar voz mais representativa à China no Fundo Monetário Internacional (FMI): hoje, a China só tem 3,8% dos votos, porcentagem menor que os 4,5% dos votos da França em plena estagnação econômica.

3) Pequim e Moscou assinaram um segundo meganegócio de gás - dessa vez, pelo gasoduto Altai no oeste da Sibéria -, depois do primeiro meganegócio, "Poder da Sibéria", assinado em maio passado.

4) Pequim anunciou que está destinando nada menos que US$40 bilhões para iniciar a construção do Cinturão Econômico da Roda da Seda e da Rota Marítima da Seda para o Século 21.

Previsivelmente, mais uma vez, esse fluxo vertiginoso de negócios e investimentos tinha de convergir para a mais espetacular, ambiciosa, de amplo alcance plurinacional ofensiva de infraestrutura jamais tentada: as múltiplas Novas Rotas da Seda - a complexa rede de ferrovias para trens de alta velocidade, oleodutos, gasodutos, portos, cabos de fibra ótica e sistemas que são o estado da arte no campo das telecomunicações, e que a China já está construindo nos '-stões' da Ásia Central, ligada a Rússia, Irã, Turquia e ao Oceano Índico, com ramificações para a Europa, direto até Veneza, Rotterdam, Duisburg e Berlin.

Imaginem então o terror paralisante que acometeu as elites de Washington/Wall Street, ao verem Pequim interconectando o "Sonho Ásia-Pacífico de Xi" pra muito além do Leste da Ásia, na direção, mesmo, de um comércio pan-eurasiano - em cujo centro está, é claro, o Império do Meio; uma Eurásia, em futuro próximo, como um massivo Cinturão Chinês de Seda, em latitudes selecionadas, uma espécie de condomínio de desenvolvimento, com a Rússia.

Vlad não faz merda coisa estúpida

Quanto ao "don Juan" Putin, tudo o que se tem de saber sobre a região do Pacífico Asiático como prioridade estratégico-econômica dos russos está sintetizado em sua fala à Cúpula APEC CEO.

Essa fala foi, de fato, atualização econômica de outro discurso, agora já mundialmente conhecido, que Putin proferiu na reunião do Valdai Club em Sochi em outubro, seguido de longa sessão de perguntas e respostas, o qual foi também devidamente ignorado na/pela imprensa-empresa ocidental (ou noticiado como mais "agressão" russa).

O Kremlin concluiu, em termos de definição, que as elites de Washington/Wall Street absolutamente não têm qualquer intenção de permitir seque um mínimo de multipolaridade nas relações internacionais. Como alternativa, só resta o caos.

Nem se discute que o pivoteamento de Moscou, afastando-se do Ocidente e para mais perto do leste da Ásia, é processo influenciado diretamente pela doutrina política do presidente Barack Obama, que ele próprio definiu como doutrina de política exterior do "Não faça merda coisa estúpida", fórmula que lhe veio à cabeça a bordo do Air Force One, quando voltava, no final de abril, de uma viagem à - e de onde seria?! - Ásia.

Mas a simbiose/parceria estratégica Rússia-China desenvolve-se em múltiplos níveis.

Na energia, a Rússia move-se na direção do leste, porque é onde está a principal demanda. Na finança, Moscou pôs fim à conexão do rublo ao EUA-dólar e ao euro; não surpreendentemente, o EUA-dólar instantaneamente - embora brevemente - despencou em relação ao rublo. O Banco VTB russo anunciou que pode abandonar a Bolsa de Valores de Londres, trocando-a por Xangai, que em breve estará diretamente conectada a Hong Kong. E Hong Kong, por sua vez, já está atraindo as gigantes russas de energia.

Misturem-se agora esses desenvolvimentos chaves e o meganegócio massivo de energia negociado em yuan-rublos, e o quadro aparece bem claro: a Rússia está protegendo-se ativamente contra ataques especulativos/politicamente motivados que o ocidente faça contra sua moeda.

A parceira estratégica/simbiose Rússia-China expande-se visivelmente para campos de energia, finança e, também inevitavelmente, para o front da tecnologia militar. Aí se inclui, crucialmente, a venda por Moscou a Pequim do sistema S-400 de defesa aérea e, no futuro, também do S-500 - contra os quais os norte-americanos não passam de patos paralíticos; e, isso, enquanto Pequim desenvolve mísseis terra-mar capazes de deter qualquer força naval que a Marinha dos EUA consiga mobilizar.

Valha o que valer, Xi e Obama acertaram, durante a Cúpula da APEC, pelo menos, o estabelecimento de um mecanismo de aviso mútuo sobre operações militares de grande porte, o qual que pode - e a palavra relevante aqui é "pode" - impedir que se repitam, no Leste da Ásia, os chiliques à moda OTAN, tipo "a Rússia invadiu a Ucrânia!"

Pirem-total, neoconservadores!

Quando o Dabliú-zinho Bush chegou ao poder, no início de 2001, os neoconservadores tiveram de encarar uma evidência já indiscutível: que seria só questão de tempo, e os EUA irreversivelmente perderiam a hegemonia geopolítica e econômica global. Assim sendo, só restavam duas possibilidades: ou administrar o declínio, ou apostar a casa & a fazenda para consolidar a hegemonia global, valendo-se da - e que outra coisa lhes restava?! - guerra.

Todos sabemos sobre o pensamento-desejo que cercou a guerra contra o Iraque, pressuposta 'de baixo custo', emanado da ideia de Paul Wolfowitz, segundo a qual "somos a nova OPEC", de uma Washington capaz de intimidar decisivamente todos e quaisquer potenciais desafiantes, União Europeia, Rússia e China. E todos sabemos como tudo isso deu espetacularmente errado.

Apesar de aquela aventura trilhonária, que Minqi Li analisou em The Rise of China and the Demise of the Capitalist World Economy, "ter esfacelado o que restava para o imperialismo norte-americano, de espaço estratégico de manobra", o imperialismo humanitário do governo Obama ainda não desistiu e recusa-se a admitir que os EUA já não têm qualquer habilidade para oferecer qualquer solução significativa para o atual, como diria Immanuel Wallerstein, sistema-mundo.

Há sinais esporádicos de vida geopolítica inteligente na universidade norte-americana, como esse, que se lê no website do Wilson Center (embora Rússia e China não sejam qualquer "desafio" a alguma pressuposta "ordem" mundial: a parceria entre os dois países visa, de fato, a gerar alguma ordem em pleno caos). Mas o que passa por "análise" acadêmica, na imprensa-empresa nos EUA, é o que se lê em USNews.

Além do mais, as elites de Washington/Wall Street - operante por sua think-tank-lândia míope -, mantêm-se agarradas a platitudes míticas, tipo "o papel histórico" dos EUA como árbitro da Ásia moderna e principal agente para manter o equilíbrio do poder.

Por tudo isso, não surpreende que a opinião pública nos EUA - e na Europa Ocidental - não seja capaz nem de imaginar o impacto de choque de camadas tectônicas que as Novas Rotas da Seda terão na geopolítica do jovem século 21.

As elites de Washington/Wall Street - efeito da húbris da Guerra Fria - sempre assumiram como certo que Pequim e Moscou se manteriam totalmente separadas para sempre. Hoje, só se vê espanto e surpresa por todos os lados. Observe-se o quão totalmente o 'pivoteamento' de Obama "para a Ásia" foi apagado na narrativa - depois que Pequim identificou a coisa pelo que a coisa é: provocação de guerra. O novo meme é "re-equilibramento".

O empresariado alemão, por sua vez, está totalmente enlouquecido com as Novas Rotas da Seda de Xi que unirão Pequim a Berlin - e via Moscou, o que é crucialmente importante. Mais cedo ou mais tarde, com certeza o mais cedo possível, os políticos alemães terão de captar a mensagem.

Tudo isso será discutido por trás de portas fechadas nesse fim de semana, em reuniões chaves que acontecerão nos bastidores do Grupo dos 20, na Austrália. A aliança em construção Rússia-China-Alemanha lá estará. Os BRICS, com crise ou sem crise, lá estarão. Todos os atores no G-20 que estão ativamente trabalhando por um mundo multipolar lá estarão.

A APEC mostrou mais uma vez que quanto mais muda, mais a geopolítica permanece o que sempre foi. Enquanto os excepcionalistas cães da guerra, da desigualdade, do dividir-para-governar ladram, a caravana pan-eurasiana China-Rússia prossegue e vai, vai, vai, cada vez mais adiante - pela estrada (multipolar). *****

14/11/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/China/CHIN-01-141114.html 

 


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