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Um Brasileiro na realidade da Síria

17.10.2013
 
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Por Fábio Pereira Ribeiro

O conflito na Síria nos traz mais incertezas, do que realidades. Seja pelo lado americano, como também pelo lado russo, mas na verdade o mundo parece não querer ver a realidade do lado sírio.

Como diria um grande analista de política internacional, "o conflito é da Síria, é um conflito doméstico, e deve ser tratado como tal, e resolvido pelos sírios". Mas por trás dos problemas, existem outros interesses, sobre a própria lógica realista dos Estados Unidos e da própria Rússia, sem contar a onda terrorista, crescente no Oriente Médio. As lógicas precisam ser analisadas de outra forma.

O próprio relatório da ONU sobre os ataques com armas químicas, nos trazem impressões dúbias, e de uma forma geral precisamos entender a geopolítica do petróleo para analisar com mais profundidade os impactos para os Estados Unidos (leia-se Qatar), os impactos com o Irã, o potencial conflito com Israel (latente e contínuo) e até mesmo a perda competitiva que a Rússia teria com um oleoduto atravessando a Síria. O conjunto é mais complexo do que se possa imaginar.

O Blog EXAME Brasil no Mundo conversou com o brasileiro e engenheiro mecânico, Carlos Tebecherani Haddad, que vive entre Santos no Brasil, e Damasco na Síria. Carlos Tebecherani Haddad, além de engenheiro, também é advogado, e fala diversas línguas. Desenvolve negócios internacionais há mais de 30 anos, e hoje se dedica aos negócios entre Brasil e Síria. O mesmo, além de sua visão pacifista, vê oportunidades nas relações entre Brasil e Síria, considerando inclusive a postura brasileira de paz, e também a oportunidade em função do bloqueio econômico dos Estados Unidos e da Europa para com a Síria. Sua visão é muito oportuna, e bem realista do que está acontecendo hoje na Síria.

 

Brasil no Mundo: Há anos o senhor desenvolve projetos e negócios com a Síria, conte-nos um pouco de sua história nestas relações entre Brasil e Síria?

Carlos Tebecherani Haddad: Eu sou Engenheiro e Advogado por formação acadêmica, com experiência de 40 anos na Engenharia e 15 anos como operador do Direito. Também adquiri grau acadêmico de Mestre em Engenharia e em Administração, o que me alargou os horizontes profissionais, na medida em que a docência universitária também acabou por prestar forte colaboração na condução do meu trabalho para a consultoria em Estratégia e Competitividade, áreas nas quais eu me dedico à formulação de estratégias empresariais para atingir a competitividade, pelas empresas às quais eu presto meus serviços.

É sabido que o cenário de negócios, diga-se desenvolvimento econômico, exige que as empresas formulem e implementem estratégias que as levem a serem competitivas. Isso significa que elas têm que se posicionar para serem tão viáveis e boas quanto todas as estrangeiras que atuam no mercado internacional.

Mesmo que uma empresa não vá exportar os seus produtos, ela tem que se equiparar ao todas aquelas que atuam no mesmo segmento, sob pena de, assim não sendo, terem os seus espaços invadidos por companhias estrangeiras que tomar-lhe-ão os clientes e ocuparão o seu lugar no mercado, levando-a, incontornavelmente, à ruína.

E vivemos, hoje mais do que nunca, na era da inovação, modelo esse que será o tom e o caminho para o futuro e a prosperidade, na medida em que não há mais fronteiras, a China não fica mais longe daqui do que a distância das pontas dos nossos dedos para o teclado do computador, ou dos dispositivos "touch screen", como hoje são comuns.

Na década de 1990 eu fiz as primeiras prospecções de negócios entre o Brasil e o Oriente Médio, região que eu conheci por ter trabalhado nela, e por lá morado algum tempo, como Engenheiro de uma empresa brasileira fornecedora de equipamentos de defesa para alguns países da região.

Naquela época eu iniciei os primeiros contactos com empresários e companhias árabes, buscando entender as suas culturas e, como objetivo maior, identificar as suas necessidades e carências de produtos, serviços e tecnologia.

O Oriente Médio, incluindo os países não árabes, como o Irã, por exemplo, é um dos maiores mercados do mundo, tanto pela população como pela riqueza dos países e o grau de desenvolvimento por eles atingido.

No que tange à Síria, após o trabalho executado naquele país na década de 1990, e que sofreu uma paralisação até há pouco tempo, com o início da crise lá instalada no ano de 2011, abriram-se novas oportunidades em face do embargo e boicote que o Ocidente aplicou ao país. A Síria, mesmo sob ataque estrangeiro, boicotada e sob embargo, precisava, como precisa, continuar a viver, a seguir o seu caminho, proporcionando aos seus cidadãos condições decentes de vida e bem estar social.

Já tendo feito diversas viagens de negócios à Síria, assim como ao Líbano e Iraque, então eu percebi que já havia um patamar de confiança construído entre mim e algumas organizações oficiais e privadas daqueles países, fato esse que me estimulou a dar seqüência ao trabalho iniciado anteriormente.

Sendo um dos diretores da FEARAB América, Federação das Entidades Árabes da América, e diretor cultural do Clube Sírio-Libanês de Santos, eu havia angariado uma rede de amizades e relacionamentos bastante significativa e respeitável entre a comunidade árabe brasileira e também nos países do Oriente Médio. E esse foi o caminho tomado, quando eu decidi me instalar na Síria, em Damasco, abrindo um escritório de consultoria, assessoria e assistência técnica em relações internacionais, comércio exterior entre o Oriente Médio e a América Latina. Esse escritório é dedicado tanto à prospecção de oportunidades e negócios quanto à orientação de empresas, organismos e organizações brasileiras do Oriente Médio na formulação de estratégias comerciais e tecnológicas que tenham poder de propulsão dessas empresas e organizações para atingirem maiores alturas e autonomia nos seus ramos de atuação.

Eu tenho a firme crença de que quando há uma situação ou circunstâncias de grandes dificuldades, como ocorreu, e ainda acontece nos dias atuais, nos países do Oriente Médio, como o Líbano, Palestina, Síria, Iraque, Irã, a construção de estruturas de amizade, confiança e até fraternidade com aqueles povos e nações é uma vantagem extremamente respeitável e significativa para a abertura de portas, corações e mentes, que levarão ao fortalecimento dos laços entre os países e solidificação das relações internacionais.

E relação significa ligação, laços, liames, de maneira que "o meu amigo é você" deve ser a frase que se deseja ouvir do interlocutor internacional, em casos como esse.

Pela cultura dos povos árabes e médio-orientais, que eu estudei muito, até mesmo pelas minhas origens, os negócios são feitos muito mais entre os amigos do que entre os fornecedores que oferecem preços mais baixos.

Ou seja, o aperto de mão e a confiança mútua são muito mais importantes do que tabelas de preços e planilhas de especificações de produtos.

É preciso, estrategicamente, investir no estabelecimento dessa confiança mútua, que levará, seguramente, ao intercâmbio de produtos, idéias e conhecimentos, construindo-se pontes entre as empresas, organismos e organizações de ambos os lados, que acabarão encadeadas.

Essa estratégia de apresentação, alinhamento e ajuda ao amigo do Oriente Médio é a chave para ser viável competitivo e próspero entre eles.

E vice-versa, ou seja, tê-los como nossos bons e fiéis fornecedores, em tudo o que eles têm para nos oferecer.

Brasil no Mundo: As informações atuais sobre o conflito na Síria, de uma forma geral, estão desencontradas, considerando os reais interesses entre Estados Unidos e Rússia, na sua visão quais os reais atributos do conflito atual?

Carlos Tebecherani Haddad: As informações atuais sobre o conflito na Síria não estão desencontradas, mas representam mentiras completas, irretorquível e inafastavelmente.

Os atributos do conflito atual são os mesmos de uma guerra de dominação, nunca de uma guerra civil.

Pela quantidade de países envolvidos direta ou indiretamente, cerca de 52 do lado do Ocidente, contando-se os membros da OTAN, contra a Síria e os seus aliados, Rússia, Irã, China e Líbano, não seria exagero dizer-se que podemos estar assistindo a uma espécie de Terceira Guerra Mundial.

Nesse diapasão, é solarmente claro que os meios de comunicação do Ocidente, a imprensa em geral e na sua inegável maioria, mentem, distorcem os fatos e mostram situações que nada têm a ver com o verdadeiro conflito na Síria.

Em primeiro lugar, não se trata de uma guerra civil, mas tão somente uma guerra estrangeira contra a Síria. Não há, na Síria, povo lutando contra povo. Ou povo local, a população no geral, lutando contra o exército nacional. Não há essa situação.

Na Síria de 2011 até hoje, o que há é uma invasão de 125 mil mercenários terroristas fortissimamente armados, treinados nas bases da OTAN na Turquia pelas forças especiais da Inglaterra, França e Estados Unidos, e pagas pelas petro-monarquias do Golfo, destacadamente pela Arábia Saudita e Qatar.

O objetivo desses países é derrubar o governo legítimo da Síria para instalar no seu lugar um governo fantoche, títere, que garanta àqueles países a implementação dos seus planos de poder e dominação.

É, em termos mais simples, a realização de uma solução logística, quer-se dizer, de um sistema logístico de dutovias para escoamento de hidro carbonetos.

Isso porque o verdadeiro problema na Síria é que querem os citados países construir um gasoduto do Qatar para a Turquia, e da Turquia para a Europa. Com esse gasoduto, eles pretendem asfixiar a economia do Irá e da Rússia, que são os maiores fornecedores de gás e petróleo para a Europa.

Igualmente, esse gasoduto será estendido da Turquia para Israel, em uma instalação submarina, já em fase de construção. E o Qatar não poderia ser acusado pela Liga dos Estados Árabes de fornecer gás para Israel, porque eles diriam que não estariam fazendo isso, mas a Turquia sim, eximindo-se dos votos de condenação que receberiam dos demais países da Liga.

E para a construção dessa dutovia, ela terá que passar pelo território da Síria em uma extensão de 800 km, com uma largura de faixa de segurança total de 20 km, 10 km de cada lado dos dutos, constituindo-se uma área total de 16 mil quilômetros quadrados, significando 60% mais do que a superfície total do Líbano.

O problema mesmo é que a Síria tem que, absurdamente, abdicar da soberania desse território todo, que passará ao domínio da companhia de petróleo que iria operar o modal logístico pretendido.

Como essa hipótese é impensável, então se estabeleceu esse conflito, com os meios de comunicação ligados aos interesses ocidentais divulgando descarada e massivamente as mentiras que estamos a assistir todos os dias.

Na hipótese de obterem os países interessados êxito nessa empreitada, a Rússia, tanto quanto o Irã, seria afetada tanto pela enorme perda de mercado para o seu gás, como pelo consequente fechamento da sua única base militar mantida fora do território russo, que é a base naval de Tartous, na Síria.

E, ainda, por conta dessas perdas, a sua influência no Oriente Médio seria grandemente afetada, sem dúvida alguma.

Quanto aos Estados Unidos, eles não têm capacidade de manter uma guerra como a que poderá ocorrer, caso um ataque militar de uma força estrangeira ocorra, na medida ameaçada por Obama.

Os Estados Unidos definitivamente não estão envolvidos nessa crise por motivos humanitários, nem tampouco os de garantia de direitos humanos, ou para a implantação de suposta democracia. Eles estão atolados até o pescoço nessa crise para a garantia de que a dutovia qatari-turca seja construída, assim como a turca-euroréia e a turca-israelense. Ou a qatari-européio-israelense, via Turquia.

Os Estados Unidos estão nessa "coalizão" pelos mesmos motivos que estiveram no Iraque, na Líbia e nas demais 48 guerras que eles se fizeram presentes, das 52 ocorridas no mundo todo nos últimos 120 anos.

Como disse certa vez Henry Kissinger, quando era Secretário de Estado americano, "os Estados Unidos não têm amigos, mas interesses".

Brasil no Mundo: A comunidade internacional insiste em chamar o Presidente Assad de Ditador, como o senhor vê o Governo de Assad e o momento atual?

Carlos Tebecherani Haddad: Quem insiste em chamar o Presidente Bashar Al Assad de 'ditador' não é a comunidade internacional, mas tão somente os meios de comunicação ocidentais, a imprensa.

E essa qualificação só teria dois motivos para ocorrer: por ignorância, ou por extrema má-fé.

Todavia, eu não acredito que os jornais, revistas, agências de notícias sejam ignorantes, que ignorem coisa alguma nesse mundo de Deus em que vivemos.

Portanto, esses órgãos de imprensa e notícias não ignoram que a Síria é uma república parlamentarista, e o Presidente da República é o chefe da Nação, e não o chefe do governo.

Assim sonante, não é necessário que alguém seja especialista em Teoria Geral do Estado para perceber ser meridianamente claro que o Primeiro Ministro é o chefe de governo, e o Presidente Al Assad nunca poderia ser ditador, porque ele não exerce o poder de governar, somente o de chefiar e representar a Nação síria.

Também é sabido que Bashar Al Assad foi eleito em escrutínio livre, para mandato de 7 anos, em um plebiscito onde ele obteve 99% dos votos do povo. Posteriormente, em outra eleição, ele obteve outra vitória, com mais de 90% dos votos diretos do povo sírio. Até no Brasil houve votos, pela comunidade árabe síria que aqui mora, originários, filhos, netos de sírios, e que detém direito eleitoral segundo as leis da Síria.

E a própria agência de inteligência dos Estados Unidos, a CIA, já informou o governo Obama de que se Al Assad for candidato nas próximas eleições de 2014, ele será eleito com 85% dos votos do seu povo.

Também não se viu qualquer contestação à lisura, legitimidade e validade das eleições sírias dos últimos 15 anos, duas das quais elegeram Bashar Al Assad como Presidente da República Árabe Síria.

Sem qualquer sombra de dúvidas, portanto, já que a CIA é a 'garante' dessa afirmação, Bashar Al Assad tem o apoio da esmagadora maioria do povo sírio, vale dizer, pelo menos 85% daqueles nacionais e cidadãos. E todo e qualquer problema da Síria pertence aos sírios. Da mesma forma que o problema dos Estados Unidos pertence aos norte-americanos, os da França aos franceses, os de Botswana aos botswanis, os do Brasil aos brasileiros, e assim por diante.

De todo modo, essa desinformação, essa deformação da realidade, esse esmagamento ético da verdade, fazem com que substancial proporção dos cidadãos não sírios do mundo acreditem nas mentiras propagadas pela imprensa e meios de comunicação, com as honrosas exceções que sempre existem.

Finalizando este tópico, vimos que somente pode Bashar Al Assad ser chamado de Ditador por uma extrema, odiosa, deplorável MÁ FÉ.

Brasil no Mundo: De uma forma geral, as relações entre Brasil e Síria sempre foram positivas. Considerando o momento atual, é até oportuno um trabalho diplomático e comercial mais aprofundado entre os dois países, como o senhor vê isso?

Carlos Tebecherani Haddad: A Síria é o maior país árabe, depois do Egito. E ela forma um bloco muito grande e de enorme potencial econômico, financeiro e comercial, onde estão referidos o Iraque, Líbano, Irã, que representam para o Brasil mercados muito maiores e mais promissores do que a maioria dos países da Europa. Mais do que a Suíça, ou a Áustria, por exemplo.

A balança comercial do Brasil com os países árabes aumentou mais de 600% nos últimos 10 anos, indo de cerca de US$ 2 bilhões em 2001 para aproximadamente US$ 14 bilhões em 2012. E esse aumento só não foi maior porque em 2011 deflagrou-se a crise na Síria, pelos motivos já citados aqui, e os negócios ficaram estagnados em patamares inferiores. Isso por conta do receio que os exportadores brasileiros têm de enfrentar problemas com vendas para a Síria, e também para não facearem desconfortos com parceiros europeus, norte-americanos e japoneses, na esteira do embargo e boicote imposto pelo ocidente à Síria, que resultou, inclusive, em dificuldades de se encontrar meios de pagamentos, já que também a grande maioria dos bancos internacionais aderiram às sanções econômicas e financeiras, boicote e embargo que oneram a Síria. Eu não só entendo que a ação diplomática é capaz de aparar arestas e aplainar dificuldades, como também, e principalmente, que a pronta ação positiva, pró-ativa, das empresas brasileiras é importante, relevante e necessária para que se aproveite o momento atual, de dificuldades, para o reconhecimento pelos sírios de "quem é quem" no seu rol de amizades e relações internacionais e que se obtenha bom proveito desse ambiente propício advindo do alinhamento e ajuda àquele país pelo Brasil, suas empresas, organismos e organizações, mitigando o sentimento de isolamento que assola a Síria, causado pelas circunstâncias vigentes.

Brasil no Mundo: Sobre as armas químicas, o último relatório da ONU, dá uma dúbia impressão, qual a sua opinião sobre os ataques, e a posição real do governo sírio?

Carlos Tebecherani Haddad: Quando ocorreu em 2.012 um ataque com armas químicas na vila de Khan Al Assal, próxima de Alepo, o governo sírio pediu às Nações Unidas que enviasse uma equipe de especialistas para investigar a ocorrência. Esse pedido foi rejeitado pelos Estados Unidas, Inglaterra e França. Mas tempos depois uma equipe de especialistas foi até Khan Al Assal e fez a investigação, que resultou no relatório assinado pela chefe da equipe, a doutora Carla Dal Ponte. Naquele relatório está expresso, com todas as letras, que as armas químicas lançadas em Khan Al Assal foram por ação dos mercenários terroristas que combatem o Exército Árabe Sírio, e não pelas forças governamentais. O último relatório dos investigadores da ONU, relativo ao ataque químico em 21 de agosto em Ghouta Oriental, periferia rural de Damasco, afirma que armas químicas foram usadas, mas não faz qualquer menção, menos ainda insinua qualquer coisa, sobre quem foram os autores daquele ataque. Mas informa que ulteriores investigações seriam necessárias para determinar a autoria.

Por outro lado, a agência Associated Press, que é norte-americana, entrevistou mercenários terroristas que afirmaram terem recebido armas químicas de um enviado da Arábia Saudita, mas não tinham informações sobre o manuseio e uso delas. Disseram, os mercenários terroristas, à Associated Press, que eles lançaram os foguetes com as ogivas químicas sobre Damasco, mas erraram o alvo e elas caíram em Ghouta Oriental. Ghouta Oriental fica a somente 6 km de Damasco.

A Rússia, por seu lado, enviou ao Conselho de Segurança da ONU fotos de satélite mostrando, claramente, sem qualquer sombra de dúvidas, que os dois foguetes que atingiram Ghouta Oriental foram lançados da cidade de Douma, a 10 km de lá, por grupos de terroristas ligados à Al Qaeda, até porque Douma está sob controle daqueles grupos armados, e não do Exército Árabe Sírio. Portanto, as acusações contra o governo sírio, de uso de armas químicas, é mentira.

Faz-se uma pergunta: a quem interessaria esse ataque químico? Aos mercenários terroristas, como uma provocação, já que Obama, em 2011, já estabelecera, insinuantemente, que havia uma "linha vermelha" que Al Assad não poderia cruzar, sob pena de ser atacado pelos Estados Unidos, e que consistia em o Exército Árabe Sírio usar armas químicas contra o seu próprio povo?

Haveria alguma coerência ou sensatez em Bashar Al Assad ordenar um ataque químico contra o seu próprio povo, que o apoia em mais de 85%, segundo a própria CIA, e estando o local do suposto ataque a cerca de 6 km do local onde se encontram 250 investigadores e especialistas da ONU em armas químicas?

O governo sírio não só não utilizou essas armas químicas como não demorou em aceder à provocação de John Kerry, Secretário de Estado norte-americano, quando esse funcionário dos Estados Unidos disse, em resposta a uma pergunta de uma jornalista sobre se haveria uma alternativa para não ocorrerem os ataques aéreos dos Estados Unidos contra a Síria, de que para que não ocorressem os ataques Bashar Al Assad deveria entregar o seu arsenal químico para uma supervisão internacional. A Síria não precisa dessas armas, porque tem enorme vantagem militar no terreno, contra os adversários mercenários terroristas com quem contende.

Brasil no Mundo: Hoje, como estão sendo desenvolvidos os seus projetos na Síria?

Carlos Tebecherani Haddad: Eu abri um escritório na Síria, em sua capital, Damasco, e tenho um apartamento lá, porque a minha agenda me leva a viagens periódicas entre o Brasil e o Oriente Médio. Esse escritório é a minha base operacional para o trabalho de estreitamento das relações internacionais entre a América Latina e o Oriente Médio, por meio da prospecção de oportunidades de negócios entre aqueles países, o Brasil e os nossos vizinhos da América Latina, notadamente América do Sul. Há, todavia, como conseqüência colateral e subsidiária, uma natural extensão dos negócios para a Índia e a Rússia, por conta de serem esses países aliados da Síria, Líbano, Iraque e Irã. Nós estamos identificando as necessidades de produtos e serviços da Síria, Líbano, Iraque, Irã, e buscando empresas parceiras que queiram exportar os seus produtos para o Oriente Médio, e importar de lá tudo o que haja para uso e consumo aqui na América Latina.

Os mercados foco do meu trabalho mostram uma população de mais de 130 milhões de pessoas, se considerarmos somente o Oriente Médio, mas que aumenta sobremaneira quando consideramos as oportunidades colaterais com a Rússia e Índia. Desse modo, as empresas engajadas nesse projeto, e as que queiram aderir futuramente e ele, possuem um escritório de representação em Damasco, atendendo uma área de abrangência a todos os países que eu citei aqui. Nós desenvolvemos plataformas de negócios para eles. Pelo nosso trabalho, há o registro dessas empresas nos ministérios e órgãos competentes da Síria, Líbano, Iraque e Irã, tanto de forma direta como por intermédio de empresas e agentes de negócios parceiros que estabelecemos na região. Essa prospecção resulta em relatórios periódicos, contactos telefônicos e por outros meios de comunicação direta a cada 3 dias, no máximo, assim como informações sobre mercados e oportunidades, concorrências públicas e licitações em todas as áreas da economia, disponibilidade de produtos exportáveis pelos países citados, e ações desse tipo.

Nós trabalhamos sob comissão, mas o custeio total e mensal dessas atividades, tanto quanto da estrutura montada no Oriente Médio, assim como das viagens necessárias e a subsistência básica da equipe fica por conta da cobrança de um honorário profissional rateado entre as empresas por mim representadas.

Nós estamos identificando as necessidades da Síria, Líbano, Iraque, Irã, e buscando empresas parceiras que queiram exportar os seus produtos para o Oriente Médio, e importar de lá tudo o que haja para uso e consumo aqui na América Latina.

Brasil no Mundo: Na sua última estada na Síria, qual a sua visão geral? E o que o senhor espera do futuro da Síria?

Carlos Tebecherani Haddad: Eu tenho observado, a cada viagem, que a situação da crise e da guerra contra os mercenários terroristas ficam cada vez mais favoráveis ao povo sírio e ao seu governo.  Militarmente, a Síria está em flagrante vantagem no terreno, e vencerá os seus inimigos, apesar de ser uma guerra de guerrilhas, que é extremamente desgastante e cobra um preço muito maior do que se fosse um conflito aberto, entre dois exércitos. O povo sírio está triste e envergonhado, porque nunca houve uma situação como essa, até mesmo porque a Síria era o segundo país mais seguro de se viver em todo o mundo, antes do conflito.

O turismo, que é uma significativa fonte de renda para o país, está destroçado, e todos aqueles que dependem, ou dependiam, dessa atividade, estão muito onerados pela queda drástica nas vendas e nas suas atividades.

Os preços de todos os produtos subiram muito, porque a moeda síria foi tremendamente desvalorizada. Mas nada falta para o povo, nem alimentos, nem combustíveis e energia, nem produtos de primeira necessidade. Eles estão abastecidos de móveis, utensílios domésticos, eletrodomésticos, produtos eletrônicos, computadores e periféricos. Não faltam máquinas e nem equipamentos para a construção civil e para a indústria. Todos os materiais e insumos estão presentes na Síria. E isso tudo graças à China, Rússia, Irã e Índia, na maioria dos casos.

Não há desabastecimento, e nem falta de clientes para comprar. Compra-se menos, por causa da inflação e do aumento dos preços, mas continua-se a comprar de tudo.

A Síria não tem dívida externa, e recentemente ela, mais a Rússia, China, Irã e Índia, assinaram protocolo de comércio em que as transações são feitas nas moedas correntes de cada um dos países, mutuamente. Nesse sistema, aboliu-se o dólar e o Euro nas transações comerciais e financeiras entre aqueles países, e foi uma forma que se encontrou para eliminar os efeitos e consequências do embargo e boicote aplicados à Síria e ao Irã pelos países da Europa e da América do Norte, e pelos seus aliados.

O futuro da Síria é bastante promissor, ainda mais se considerando que a paz será obtida dentro de um curto espaço de tempo, a partir das negociações de Genebra 2, a ser implementada em meados de novembro próximo. Considerando-se que a reconstrução da Síria será uma obra envolvendo inicialmente algo em torno de US$ 100 bilhões, depreende-se que nos próximos 10 anos seja o país um dos melhores lugares do mundo para se fazer negócios e trabalhar. Se tomarmos sentido de que esse extraordinário movimento de reconstrução vai obrigatoriamente se propagar e lançar ramificações para os países vizinhos, notadamente Líbano, Iraque, Irã, então fica claro que o futuro será sorridente e próspero para o país, e para todos os que se alinhem a ele neste momento, demonstrando amizade e vontade de ajudar na recuperação da economia e no fortalecimento das relações de amizade e fraternidade. Quer-se dizer, no fortalecimento das relações internacionais entre os países, pelas suas empresas, companhias, órgãos e organismos comerciais e diplomáticos.

Eu tenho certeza disso!

 

Carlos Haddad

 

 Por Fábio Pereira Ribeiro

 

Fonte: Blog Exame Brasil no Mundo (Revista Exame)

 


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