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Turquia impõe limite na 'estratégia' de Obama

17.09.2014
 
Turquia impõe limite na 'estratégia' de Obama. 20879.jpeg

A diplomacia turca tem história de jogar duro e conseguir o que quer. Só desiste quando os termos estão pelo menos satisfatórios, mesmo que não sejam ótimos. Daí que as reservas turcas não devam ser levadas demasiadamente a sério. Mas pode-se argumentar que, sim, dessa vez a conversa é para valer.  

13/9/2014, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/09/13/turkey-draws-red-line-on-us-isil-strategy/


De fato, sabe-se que a Turquia não endossou a declaração distribuída depois da reunião de Jeddah do contingente do Oriente Médio da "coalizão de vontades" liderada pelos EUA na 5ª-feira sobre o início de ação militar contra o Estado Islâmico. Não é difícil de explicar porque Ancara não quer provocar o Estado Islâmico (EI), que tem em seu poder hoje 49 reféns turcos, entre os quais mulheres e crianças e o cônsul-geral em Mosul. 

Mas a verdadeira questão é outra: se Ancara confia ou desconfia da eficácia da estratégia do presidente Barack Obama dos EUA, vista com desconfiança até mesmo dentro dos EUA, como o demonstra Jim Lobe; e também, e, o que pensa da parte que cabe(ria) à Turquia naquela estratégia. 

Os Pashas e diplomatas turcos são suficientemente espertos para avaliar que a posição a eles reservada na "coalizão de vontades" será muitíssimo diferente da reservada a Arábia Saudita, Qatar ou Bahrain. O ponto é que, se há país no Oriente Médio que tem hoje potencial para assumir papel de combate no Iraque e/ou Síria, é a Turquia e só a Turquia. E se a estratégia de Obama exige "coturnos em solo" em algum momento, como a maioria dos analistas já anteveem, terão de ser coturnos turcos. 

É absolutamente inconcebível que europeus (mesmo que sejam os "Novos Europeus") ou os EUA, venham a assumir funções de combate direto. Arábia Saudita, Qatar et allii não têm nos respectivos DNA, o gene para combate de rua. Assim sendo, o ônus cai sobre a Turquia - e não é admissível que a Turquia veja com tranquilidade tal 'papel'. A história otomana permanece ainda muito viva na consciência coletiva na região. 

Além do mais, a Turquia é esperta o suficiente para saber que a coisa está só começando. A mente de Obama é sempre permeável às ideias mais estranhas. O que garante que, se ele diz que o governo sírio é pária na luta contra o Estado Islâmico, essa venha a ser, mesmo, a última palavra? E Ancara sabe, melhor que ninguém, que o chamado Exército Sírio Livre não passa de piada. 

Depois, há os curdos, carta também coringa. A Turquia gostaria de monitorar o modo como os EUA jogam com a carta curda, que afeta os interesses turcos mais básicos. Além e acima de tudo mais, Síria, Iraque e Irã - esses três países são 'rivais' da Turquia num ou noutro sentido na política regional. Por falar nisso, há na Turquia considerável população de alawitas (a seita que constitui a espinha dorsal do regime sírio). 

Por fim, há a charada dentro da incógnita, dentro do enigma: onde exatamente fica a Turquia em relação aos grupos islamistas extremistas? McClatchy citou o último embaixador dos EUA na Turquia, Francis Ricciardone (que completou seu turno em Ancara e retornou aos EUA mês passado), que teria dito que os EUA continuam a pressionar a Turquia no sentido de que rompa as relações que mantém com grupos extremistas, mas que "São questões sérias ainda não resolvidas (...) talvez sequer sejam resolvíveis. Só nos resta aceitar que não aceitamos."    

A Turquia gostaria que seu envolvimento na estratégia de Obama para derrotar o Estado Islâmico se limitasse a oferecer ajuda humanitária e informação de inteligência. Mas... a Turquia conseguirá safar-se só com esse modesto papel? Os EUA não cederão nem admitirão facilmente que assim seja. 

Semana passada, Obama teve reunião de uma hora e meia com o primeiro-ministro Recep Erdogan, durante a cúpula da        OTAN em Gales, e dele arrancou uma promessa de que os turcos cooperarão. 48 horas depois, o secretário de Defesa dos EUA Chuck Hagel chegava a Ancara para dar 'andamento' aos acertos. 

Mas, então, Erdogan provavelmente já pensara melhor, depois de várias consultas com a inteligência, militares e diplomatas turcos. A imprensa-empresa turca bem relacionada com o establishment noticiou amplamente que Erdogan é contra fornecer apoio militar de qualquer tipo, inclusive disponibilizar bases turcas nas fronteiras síria e iraquiana, como base de lançamento para ataques aéreos e operações de forças especiais. Portanto... o secretário John Kerry desembarcou em Ancara na 6ª-feira. 

Não há dúvidas de que Kerry empenhou-se muito, mas, se Erdogan cedeu, não há disso qualquer indício. Relatos turcos dão a impressão de que Kerry saiu sem qualquer garantia de coisa alguma.

Não surpreendentemente, Kerry fez relato muito positivo do resultado de sua missão, mas, o que é significativo, foi mais vago do que é costume: "continuaremos nossas conversações com nossos militares e outros especialistas, para definir com calma o papel que a Turquia desempenhará." Disse que lhe parece "inteiramente prematuro e, falando com franqueza, até inapropriado, nesse momento, nos pormos a definir, país por país, o que cada nação individual fará." Entenderam?  

Não há dúvidas de que a estratégia de Obama despencará mesmo antes de realmente ter decolado, sem a cooperação da Turquia. A Turquia conhece o Estado Islâmico de dentro para fora; a inteligência turca é muito presente dentro do Curdistão Iraquiano e da Síria; a Turquia tem longas fronteiras com Iraque e Síria; e a Turquia tem capacidade para garantir apoio logístico a qualquer grande operação militar. Mais importante: a Turquia é membro da OTAN e leva a sério suas responsabilidades com a Aliança. 

Mas há um problema. Erdogan alcançou o pico de sua carreira política em luta feroz contra ataque que os EUA assestaram contra ele, em meses recentes, servindo-se de Fetullah Gulen. Várias vezes esteve por um fio, porque Gulen é homem de grande influência na Turquia. Isso por um lado. 

Por outro lado, e muito mais importante, há o senso de destino do próprio Erdogan, que se vê como o portador da bandeira do islamismo no Oriente Médio Muçulmano.

Quem tenha estudado a vida política de Erdogan, suas crenças e agudo senso da orgulhosa história turca - além, claro, de sua personalidade de 'predestinado' - facilmente entenderá que Erdogan não sinta qualquer desejo de, nesse momento de sua vida, comprometer toda a própria história, para deixar-se ver como mero fantoche que ajudou o Ocidente a jogar muçulmanos contra muçulmanos e a perpetuar a hegemonia ocidental num Novo Oriente Médio que começa a erguer-se das ruínas do acordo Sykes-Picot de 1916. O acordo Sykes-Picor foi, como se sabe, evento dos mais dolorosos da brutal vivissecção do Império Otomano, que ainda faz sangrar de vergonha a orgulhosa psique nacional turca. *****

 


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