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EUA precisam desesperadamente de iranianos e sauditas

16.09.2014
 
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A complexa palavra que o presidente dos EUA Barack Obama não pronunciou sequer uma vez no discurso da 4ª-feira em que expôs sua 'estratégia' para combater o Estado Islâmico foi "Irã". A ambiguidade estratégica que Washington quer preservar é autoevidente. Obama permanece em silêncio, mas o secretário de Estado John Kerry fala pelos cotovelos pela rádio estatal Voice of America.

14/9/2014, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/09/12/us-needs-saudi-and-iranian-allies/


Kerry disse, ainda em Bagdá, na 4ª-feira, pouco antes de Obama falar em Washington, que os iranianos "estão sozinhos" [por conta própria] na luta contra o Estado Islâmico, mas os EUA "não cooperamos militarmente ou de qualquer outro modo - nem temos qualquer intenção nesse processo de fazê-lo - com o Irã." Hmm. Categórico demais, muito, além da conta.

Mas interessante é que tampouco Kerry desaprovou o envolvimento político-militar do Irã contra o Estado Islâmico no Iraque. Por outro lado, Voice of America publicou comentário logo no dia seguinte da fala de Kerry em Bagdá, cuja autora argumenta persuasivamente, que a "coalizão de vontades" comandada pelos EUA para lutar contra o Estado Islâmico "tem de incluir o Irã."

O comentário revelou que o vice-secretário de Estado dos EUA William Burns "já levantou a questão do Iraque em reunião com funcionários iranianos pelo menos em duas ocasiões."

Verdade é que também há especulações de que o Irã pode vir a ser convidado para participar da chamada 'conferência internacional' a realizar-se na 2ª-feira em Paris, convocada pela França. Não há dúvidas de que Washington examinou e 'autorizou' a lista de convidados.

Enquanto esse jogo de sombras prossegue, Obama aparentemente apresentou pedido ao Congresso dos EUA de autorização para treinar um exército de rebeldes sírios em bases do exército na Arábia Saudita. De fato, na fala da 4ª-feira, Obama jurou que se livrará do regime sírio, "de uma vez por todas".

A ideia geral em Washington parece ser que as forças da 'oposição' síria - o chamado Exército Sírio Livre - possam ser modeladas até se converterem em força de combate com real capacidade para derrotar as forças do governo legal. Kenneth Pollack, um dos mais citados especialistas norte-americanos em Oriente Médio, expôs, em longo artigo na revista Foreign Affairs, "uma estratégia plausível para vitória a custo aceitável", com a qual os EUA "podem pôr fim à guerra civil síria em temos que interessam aos EUA (...) e sem envolver soldados norte-americanos em solo."

Qual afinal é o plano de jogo de Obama no que tenha a ver com o papel do Irã? Para começar, Obama não pode ser visto em conversas com a liderança iraniana: Israel não gostaria. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez importante discurso no qual (a) avisou Obama de que os esforços dos EUA para enfraquecer radicais sunitas não devem resultar em fortalecer "o Irã extremista"; (b) repetiu que o Estado Islâmico e o Hezbollah são ramos da mesma árvore; (c) um Irã com armas atômicas será, em todos os casos, o terror máximo; (d) muitos estados árabes sunitas (leia-se: a Arábia Saudita) avaliaram sua relação com Israel - "Entendem que Israel não é inimiga deles, mas aliada na luta contra esse inimigo comum"; (e) Israel apoia integralmente a conclamação que Obama fez, de ações unidas contra o Estado Islâmico - "Algumas das coisas são conhecidas; outras são menos conhecidas". É bem claro que a demanda de Netanyahu é que Obama não fique muito íntimo de Teerã, não importa o quão 'grave' seja a ameaça que o Estado Islâmico implique.

Em segundo lugar, Obama não pode meter os dois, Arábia Saudita e Irã, na sua tenda. A Arábia Saudita nunca alivia nas diatribes contra as políticas do Irã. E, afinal, a Arábia Saudita, a quem caberá pagar a guerra contra o Estado Islâmico, é que é a aliada indispensável aos EUA.

Em terceiro lugar, Obama não poderá recompensar positivamente qualquer contribuição que receba do Irã na luta contra o Estado Islâmico. Teerã espera  alguma boa vontade dos EUA, pelo menos, na questão nuclear; mas Obama está com as mãos atadas e, simplesmente, não tem o capital político necessário para conter a oposição que vem de Netanyahu.

Por outro lado, Obama quer toda a ajuda que o Irã lhe possa dar militarmente e politicamente, para a guerra contra o Estado Islâmico - desde, é claro, que a ajuda venha sem condições. Por que Obama não poderia aceitar ajuda do Irã, se for grátis?

Pode-se supor que, ao preservar tão atentamente a ambiguidade estratégica na fala da 4ª-feira, Obama também espera fazer pressão sobre o governo sírio e, também, sobre Moscou. De fato, comentários russos recentes têm chamado a atenção para a importância de todos se manterem em alerta contra as tentativas, pelos EUA, de meterem uma cunha entre Moscou e Teerã.

Acima de tudo, o governo Obama parece trabalhar sobre a premissa de que haveria um cisma dentro do governo iraniano entre conservadores e reformistas, e que a luta surda pela supremacia aproxima-se de um momento de definição. Washington já não responde à retórica dos elementos 'linha duríssima' em Teerã.

Na verdade, a declaração iraniana em nível do Ministério de Relações Exteriores distribuída no final da 5ª-feira parecia vazada em termos duros, mas evitava cuidadosamente qualquer referência direta à fala de Obama, da véspera. 

Fazia uma crítica 'genérica' e não contraditava a declaração explícita de Obama de seu projeto para atacar a Síria. Diferente disso, as declarações russa e síria denunciavam, em termos muito claros, que qualquer ataque dos EUA contra a Síria caracterizaria "agressão" e violação da lei internacional. *****

 


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