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Economia e Demografia - Bônus Demográfico

16.06.2008
 
Pages: 12
Economia e Demografia - Bônus Demográfico

Luiz Machado

"Uma única morte é uma tragédia; um
milhão de mortes é uma estatística".
Josef Stalin


A interatividade da Internet obriga-me a retornar ao assunto abordado em meu último artigo. Atendendo a inúmeros pedidos de internautas e alunos, focalizo com mais detalhes a relação entre economia e demografia e, mais especificamente, a questão do bônus demográfico.

A relação entre economia e demografia não é, efetivamente, muito percebida pela maior parte dos economistas, haja vista que poucos são os cursos que mantém a demografia como disciplina obrigatória. A rigor, uma das poucas vezes que o tema é abordado na maior parte dos cursos ocorre quando, na cadeira de História do Pensamento Econômico, estuda-se a contribuição do economista clássico Thomas R. Malthus e seu alerta para o risco de explosão demográfica. No entanto, a demografia trata de aspectos que têm profunda importância para a economia, razão pela qual esse desinteresse relativo não pode deixar de provocar certa preocupação.

Em seu excelente Dicionário de economia do século XXI , escreve o Prof. Paulo Sandroni:

Demografia. Estudo estatístico das coletividades humanas. Os dados para esse estudo, que abrange o tamanho, a distribuição territorial e as mudanças de uma população, são obtidos por meio dos censos, estatísticas vitais e outras observações específicas. O estudo de populações antigas é feito por meio de documentos, que constituem o campo da demografia histórica. Distinguem-se duas áreas na demografia: a análise demográfica, que relaciona a composição populacional à natalidade (ou fertilidade), mortalidade e migração, por meio de levantamento de dados, cálculo de índices e elaboração de modelos matemáticos; e o estudo populacional, que relaciona esses dados numéricos a fatores de ordem social, psicológica, econômica, política, sociológica, cultural e geográfica.

Como se vê, portanto, na definição do Prof. Sandroni, a demografia vai além do simples registro estatístico da população de um município, estado ou país, envolvendo também as tendências de fertilidade e os movimentos migratórios locais, regionais e internacionais, interferindo, desta forma, em fenômenos fundamentais da análise econômica, tais como produção, emprego e renda, para ficar apenas nos mais evidentes.

Num livro muito interessante publicado em 2003, Cidades imaginárias, o Prof. José Eli da Veiga questiona os dados do último censo realizado no Brasil no que se refere à distribuição da população entre rural e urbana. No seu entender, a população urbana no Brasil é menor do que a oficialmente reconhecida, pois os critérios utilizados pelo IBGE para definir o que é considerado zona urbana são muito restritos, o que faz com que muita gente que vive em pequenas aglomerações populacionais encravadas nos descampados do País seja contabilizada como habitante urbano, o que, para ele, é um equívoco.

Voltando o foco agora para a questão do bônus demográfico, tema a que me referi no artigo "Janela de oportunidade – De País do futuro para País do presente?", a primeira coisa que gostaria de destacar é que se trata de um fenômeno estreitamente relacionado à transição demográfica vivida pelo Brasil nas últimas décadas do século passado, quando se verificou acentuada redução do nosso crescimento demográfico. Graças a essa redução, o Brasil está entrando agora numa fase extremamente favorável em se tratando da contribuição da variável demográfica para a obtenção do crescimento econômico.

O Prof. José Eustáquio Diniz Alves, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (CEDEPLAR-UFMG), é um dos maiores pesquisadores do Brasil sobre o assunto. O trecho que se segue contém as conclusões de um texto distribuído por ele em recente palestra ministrada no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em cujo site – www.braudel.org.br pode ser encontrada a íntegra do mesmo.


A economia brasileira viveu em 2004 o seu melhor momento da nova década. O quadro internacional, sem dúvida, ajudou muito.


Mas existem questionamentos se o país entrou em um ciclo de crescimento sustentado. A resposta para essa questão vai depender da gestão macroeconômica da política monetária, fiscal e desenvolvimentista. Porém, se o Brasil ainda enfrenta dificuldades decorrentes dos 500 anos de “herança maldita”, o país herdou uma situação inquestionavelmente favorável pelo lado demográfico. O quadro populacional do Brasil nas três primeiras décadas do século XXI favorece o crescimento econômico.

É o chamado “bônus demográfico” que representa uma “janela de oportunidade” decorrente da mudança da estrutura etária da pirâmide populacional.

Em qualquer país, a transição demográfica só acontece uma vez e somente uma vez se pode utilizar o bônus demográfico. No entanto, essa janela de oportunidade de nada adiantará para a solução dos problemas sociais se o país não for capaz de absorver a mão-de-obra disponível e incentivar as potencialidades da alta proporção de pessoas capazes de contribuir para a elevação da produção e da produtividade.

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