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Repressão e controle do petróleo no mundo árabe

15.03.2011
 

Wladmir Coelho

O modelo regulatório encontrou no mundo árabe sua maior oposição efetivada a partir de  inúmeros protestos e revoltas contra a corrupção, desemprego, fome e exploração dos recursos minerais em beneficio dos oligopólios de sempre. Este quadro de inconformismo da população exibiu ao mundo aspectos omitidos durante as décadas de predomínio do chamado neo-liberalismo revelando, inclusive, a insegurança à qual foram submetidos os sistemas econômicos nacionais.


       Sabemos agora que os maiores produtores de petróleo do Oriente Médio e Norte da África não possuem condições de manter em funcionamento com trabalhadores e tecnologias locais os campos petrolíferos operados, em sua maioria por mão de obra estrangeira, tornando-se esta alvo imediato da sofrida população.


       Estes trabalhadores estrangeiros, diante dos conflitos, não encontram outra solução a não ser a fuga imediata dos campos petrolíferos e refinarias obrigando a paralisação das atividades produtivas. Na
Líbia, as primeiras notícias informavam que aproximadamente 13 mil trabalhadores chineses (o número total seria superior a 30 mil) foram obrigados a sair do país e relatavam agressões por parte de revoltosos.


       A proposta inicial do governo, através do presidente da National Oil Corporation (NOC) Dr. Shokri Ghanem, foi convocar trabalhadores locais, mas logo a realidade dos fatos mostrou inexistirem no país a
mão de obra com a necessária formação técnica. A Líbia depende das rendas do petróleo e não formou trabalhadores para o setor preferindo contratar o serviço completo dos oligopólios mesmo existindo 30% de desempregados no país.


       Diga-se de passagem, foi o atual presidente da NOC o responsável pela introdução da política de abertura da exploração petrolífera na Líbia, através dos contratos de partilha da produção, tendo ocupado para este fim os postos equivalentes a premier, ministro da energia e dirigente da OPEP. Apesar da crise o Dr. Ghanem continua firme em seu cargo e nunca foi retratado na imprensa internacional como um elemento do regime; é apontado como técnico responsável pela modernização econômica. O leitor constatou o nível destes "novos tempos".


       O Dr. Ghanem independe do nome a ocupar a chefia do Estado. Ele representa um poder maior e tem tudo para continuar à frente da política econômica do petróleo na Líbia tendo a revolta local um final
favorável ou não ao Coronel Kadhafi.


Ditadura no Egito e preservação do governo saudita
       No Egito a situação ilustra com clareza este quadro. A revolta local apresentou como primeiro resultado a troca do ditador assalariado dos EUA por um colegiado de ditadores submetidos ao mesmo patrão. Estes novos senhores, para manter a ordem colonial, transformaram as antigas reivindicações políticas e econômicas em questões religiosas e anunciam a volta da lei marcial como forma de garantir as liberdades alcançadas através da "revolução". Incrível! Para os membros do Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito houve uma revolução e eles, que eram membros destacados do regime, tornaram-se lideres deste movimento.


       Esta transformação das reivindicações políticas em questões religiosas ganha força na imprensa internacional à medida que aumentam os conflitos sociais nas cercanias e interior do reino saudita existindo a preocupação dos grandes consumidores em preservar a ordem econômica. O quadro saudita, quanto ao problema da mão de obra para o setor petrolífero, é idêntico ao relatado na Líbia verificando-se igual abertura aos oligopólios.


O discurso do conflito religioso para justificar o uso das armas
       Um aprofundamento das revoltas na Arábia Saudita representaria a interrupção de 11% no fornecimento de óleo aos Estados Unidos acrescido da dependência européia do petróleo saudita em função do declínio da produção líbia.


       No caso egípcio não podemos esquecer a posição estratégica do país para a defesa de Israel e temos ainda a questão da segurança energética israelense tendo em vista a dependência do gás proveniente do Egito, somado ao controle do Canal de Suez, vital para o transporte de cargas e tropas da Europa e EUA.


       Estes detalhes econômicos começam a desaparecer das informações ou notícias das revoltas árabes que assumem, na imprensa internacional, a antiga oposição entre xiitas e sunitas assumindo os governos ditatoriais, antigos e novos, a condição de defensores da "paz" justificando-se as leis marciais e massacres em praças públicas.


       Neste caso a intervenção militar externa fica camuflada através do fornecimento de armas, treinamento e dinheiro; no Egito o salário do Exército é pago com verba aprovada no Congresso dos Estados Unidos dispensando a necessidade de ampliação das ocupações estrangeiras na região.


Os interesses do Irã
       A situação do Irã precisa, neste contexto, ser analisada de modo especial tendo em vista as modificações econômicas em marcha (pautadas por privatizações e políticas compensatórias) indicando as intenções do capital local em expandir sua influência no Oriente Médio. Ao Irã também interessa o discurso religioso e pode ser utilizado sim para aproximação e domínio de diferentes estados e posterior controle e disciplina da mão de obra.


       Sei que este tema é polêmico e muitos podem entender o Irã como barreira ao imperialismo. Reconheço que neste momento, representam os iranianos, um obstáculo ao controle total do petróleo por parte das potências ocidentais, mas nem de longe constituem a solução para a crise social ou pobreza da região.


        A elite econômica iraniana prepara-se para aumentar o seu poder com o forte apoio do Estado Clerical e, alcançando este objetivo, certamente vai procurar um acordo com as potências capitalistas para garantir, em determinado momento, a sua posição.


       As revoltas no Oriente Médio tendem a receber a camuflagem religiosa, escondendo-se em sua base o controle do petróleo, principal riqueza da região, ficando o capital ocidental dependente da manutenção dos atuais regimes enquanto o crescimento do Irã, incapaz de apontar uma diferenciação econômica do modelo predominante internacionalmente, depende do mesmo discurso religioso como forma de aproximação da população dos países em conflito social.

 


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