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O significado do presente que o Papa Francisco recebeu na Bolívia

13.07.2015
 
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Luis Espinal Presente!

Ao contrário da desinformação mal-intencionada da mí(r)dia mercenária, houve um simbolismo na entrega do (sic) "polêmico" crucifixo pelo Presidente Evo Morales, da Bolívia, ao Papa Francisco dias atrás, durante a estada do pontífice católico na terra dos devotos de Nossa Senhora de Copacabana, sobretudo para aqueles que lutaram contra os narcogenerais e suas quadrilhas entre as décadas de 1970 e 1980.

Por Schabib Hany

Ocorre que o seu autor, o saudoso Frei Luis Espinal Camps, jesuíta adepto da Teologia da Libertação e conterrâneo do incansável Dom Pedro Casaldáliga (Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso), o criara no intuito de fazer uma relação entre a luta de Jesus Cristo e a dos milhões de lavradores e operários bolivianos, vítimas da repressão, exploração e opressão nos anos de chumbo.

Portanto, entre o dignitário boliviano e o pontífice católico havia pelo menos um espírito de luz que se encontrava exultante, depois de 35 anos de seu covarde assassinato, ao sair de uma sessão cinematográfica no centro da capital boliviana. Pouco antes de morrer, havia deixado um livro, intitulado Religião, em que profetizava: "Quem não tem a coragem de falar pelos homens, tampouco tem o direito de falar de Deus."

E como a ignorância é arrogante! Caso os boçais editores do telejornalismo, radiojornalismo e dos jornalões tivessem lido ao menos os livros célebres de dois de seus colegas das décadas de 1970 e 1980 - Se me deixam falar, de Moema Viezer, e Com a pólvora na boca, de Júlio José Chiavenato -, teriam feito a diferença nestes pobres e burros tempos de apagão global, em que o ofício de editor se resume ao me(r)díocre ato de mandar requentar textos vomitados pela corja camuflada por trás da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), com sede em Washington.

Esses pobres diabos, os penas de aluguel contemporâneos, mal sabem que Lucho Espinal, além de sacerdote de rara erudição, era Jornalista formado nas melhores escolas da Europa e que entre 1960 e 1968, no calor das transformações do Concílio Vaticano II, se destacou no Jornalismo televisivo espanhol ao afrontar o franquismo opressor em sua terra, a Catalunha, e por isso acabou sendo levado a um exílio contra a sua vontade para a Bolívia, como professor na Universidade Católica de La Paz.

Chegara no ano seguinte ao assassinato covarde de Ernesto Che Guevara, em plena ditadura de René Barrientos, mesmo assim logo de início se destacou pela ousadia de produzir e comandar um programa na emissora de televisão estatal, e que não demorou muito para ser censurado. Seu texto indignado era de uma presença de espírito descomunal, tal qual a escultura que, décadas depois, foi entregue por um Presidente índio, das camadas populares, eleito e reeleito pelo voto democrático, ao Sumo Pontífice católico nascido na Argentina de Ernesto Che Guevara: "Se a Igreja e os opressores se identificam de tal modo, a gente se pergunta o que foi feito do Evangelho, que foi pregado aos pobres e levou a Jesus Cristo para a Cruz."

Com rara capacidade de conciliar com brilhantismo desconcertante as atividades docentes na Universidade Católica, conduzir uma paróquia populosa na periferia de La Paz e dedicar-se ao Jornalismo investigativo na mídia eletrônica, logo estava numa das melhores redações da Bolívia: a do extinto diário Presencia (jornal católico fundado no ano da Revolução de 1952 pelo emblemático Jornalista Huáscar Cajías Kauffman, maior opositor dos regimes de exceção entre 1964 e 1982, e curiosamente fechado por ordem da cúpula da Igreja conservadora em 1999, auge das reformas neoliberais empreendidas na Bolívia e demais países latino-americanos).

Além de ter sido fundador e primeiro diretor do emblemático e combativo semanário Aquí (cuja consigna era "semanário do povo"), que fez escola, ele também foi o artífice da criação, ao lado do Padre Pedro Tumiri (outro grande lutador das causas maiores do povo boliviano), da Assembleia Permanente de Direitos Humanos, uma das mais influentes entidades da sociedade civil latino-americana na luta pelas liberdades democráticas, ainda forte e atuante.

E se tudo isso fosse pouco, dedicou-se ao cinema com dois memoráveis documentários, premiados em grandes festivais pela temática social e linguagem vanguardista, até porque ele entendia que, num continente com tanto analfabetismo, nada melhor como o audiovisual para levar mensagens de esperança e luta. Aliás, como missionário católico dera voz e vez aos milhões de excluídos que constituem o milenar povo do país localizado no coração da América Latina, e acabou torturado e morto por paramilitares em março de 1980.

Parece que sua eliminação física foi um (mau) presságio para os tempos de uma segunda ditadura sanguinária que viria a se abater sobre a Bolívia: os filhotes de Hugo Banzer dois meses depois tomaram literalmente de assalto o frágil governo da Presidente constitucional Lidia Gueiler Tejada e promoviam uma carnificina igual ou pior que a do seu nefasto mestre, sob a batuta de dois narcogenerais, Luis García Meza e Luis Arce Gómez, medíocres de cérebro mas ousados na peçonhenta arte da tortura.

Sob esse regime corrupto e sanguinário foram torturados e mortos com requintes de crueldade nada menos que o combativo senador e professor universitário Marcelo Quiroga Santa Cruz (quarto colocado nas duas eleições presidenciais de 1979 e 1980) e o lendário líder operário comunista Simón Reyes, além dos jovens dirigentes políticos no massacre tristemente célebre da Calle Harrington, em La Paz. Junto com Lucho Espinal, morria a nata da esquerda ética da Bolívia, para deixar os sabujos ruborizados travestidos de esquerda entreguista, tal qual a que conhecemos por estas plagas.

*Para quem quiser saber mais sobre Luis Espinal, sugiro o blog de um ex-colega de redação desse grande Jornalista, pelo link, cujo depoimento é bastante revelador.


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