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Agências de inteligência dos EUA versus Argentina

11.12.2014
 
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Começou a temporada das provocações: Falta menos de um ano para as eleições presidenciais na Argentina, marcadas para o dia 25 de outubro de 2015. Cristina Fernández de Kirchner já foi eleita duas vezes para o mais alto cargo da República Argentina, em 2007 e 2011, e não pode concorrer novamente à presidência.


A questão da sucessão está sendo discutida na Argentina, cada vez com mais frequência. Quem assumirá a filosofia do kirchnerismo, versão moderna da ideologia do Partido Justicialista fundado em 1947 por Juan e Evita Perón? Néstor Kirchner, político destacado que sempre aparecia mencionado no mesmo parágrafo, ao lado de Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, morreu em 2010. Mas Cristina Fernández conseguiu manter as políticas que ele construíra: fortalecer a soberania argentina, opor-se ao que os EUA ordenam para o continente e levar adiante várias reformas com vistas a atender interesses populares.

O nome mais provável, para dar continuidade às políticas dos Kirchners parece ser Daniel Scioli, que foi vice-presidente da Argentina e atualmente é governador da província de Buenos Aires. Scioli evita confrontos políticos e prega que se façam concessões à oposição, motivo pelo qual não é nome que agrade aos kirchneristas mais cintura-dura, que se opõem a qualquer modalidade de diálogo com a direita argentina. Scioli é negociador hábil, tem demonstrado seriedade e temperança e dá sinais de querer cooperar com os círculos financeiros e empresariais que mantêm fluxos constantes de recomendações e propostas, inclusive sobre como romper relações com Cristina. Há também outros candidatos que foram mais próximos de Néstor e são hoje da equipe de Cristina - ministros, governadores, e senadores - que trabalham ativamente para fazerem-se conhecidos. O candidato será decidido em eleições primárias em agosto de 2015, quando todos os candidatos à presidência da coalizão governante Frente para a Vitória passarão pelos processos seletivos.

Pode-se avaliar a complexidade do momento pelo qual Cristina Fernández está passando, pelos resultados das eleições parlamentares de outubro de 2013. A coalizão governante não alcançou maioria decisiva. Não perdeu a maioria simples nas duas casas legislativas, mas não alcançou a maioria qualificada constitucional de dois terços. A coalizão ganhou o governo de apenas metade das 24 províncias argentinas. A tradicional rivalidade entre o Partido Justicialista e seus oponentes representados pela União Cívica Radical e pelo Partido Proposta Republicana, de direita, foi tornada ainda mais difícil por causa de uma divisão dentro do próprio partido governante. Ainda assim, a Frente para a Vitória ainda é a principal força política na Argentina.

Néstor Kirchner, depois de abandonar o modelo econômico neoliberal, conseguiu arrancar a Argentina da profunda estagnação em que vivia. Adiante, em plena crise global, Cristina foi forçada a tomar decisões difíceis, entre as quais apertar o controle estatal sobre importações e sobre a taxa de câmbio. Também teve de atacar o poder de burocratas encastelados no Estado, a inflação, movimentos de especulação com moeda estrangeira e outras frentes. Ao mesmo tempo, Cristina iniciou revisão profunda em bancos e casas de câmbio argentinos, na luta para fechar canais de lavagem de dinheiro. Sob a acusação de retirada ilegal de dinheiro do país, foram suspensas, na Argentina, todas as operações da empresa Procter & Gamble norte-americana. E prosseguem as investigações sobre crimes cometidos pelas forças de segurança durante a ditadura militar, de 1976 a 1983.

Não surpreende portanto que Cristina tenha tantos inimigos, inclusive na empresa-imprensa, chamada 'mídia', que está empenhada em campanha diretamente orientada para desacreditar a presidenta. As declarações de renda da presidenta, do marido falecido e dos filhos adultos estão sendo examinadas e re-examinadas. Todos estão sendo acusados de ocultação de renda. E pessoas do círculo de contatos pessoais da família também estão sob mira.

Segundo analistas políticos, os ataques atualmente lançados contra a presidenta da Argentina são parte de um plano elaborado para assegurar que ela não consiga fazer sucessor, e que seja eleito, para presidir a Argentina, alguém que represente as forças políticas aliadas aos EUA, que promovam mudança radical nas atuais políticas.

Nessa mesma linha deve-se inscrever também a história dos "fundos abutres" (os mesmos que, em 2013, voavam agourentos sobre a Ucrânia), que compraram papéis da dívida de países que enfrentavam dificuldades financeiras por preço baixíssimo e na sequência recorreram a cortes judiciais para exigir pagamentos que excediam em muito o valor da dívida. Foi exatamente o que aconteceu com a Argentina. 

Falando à Assembleia Geral da ONU em setembro, Cristina Kirchner condenou fortemente essa prática, e exigiu que se adotassem medidas legislativas para restringir a atividade desses 'abutres'.

Quanto ao julgamento, a Argentina - estado soberano - enfrentou o juiz federal norte-americano Thomas Griesa. O governo argentino não considera que a atual situação caracterize 'calote' [ing. does not consider the current situation a default]: Buenos Aires está disposta a saldar suas obrigações com seus credores, mas por valores da dívida restruturada, não pelos valores que os 'fundos abutres' estão cobrando e que o juiz Thomas Griesa insiste em que a Argentina deva pagar. Os credores podem receber os correspondentes pagamentos pela División Fideicomisos del Banco de la Nación.   

Mas Thomas Griesa agora ameaça com novas represálias. Se Buenos Aires não se render e aceitar pagar o que os 'abutres' estão cobrando, a Argentina será banida do sistema internacional e não poderá negociar com bancos norte-americanos. Buenos Aires não parece assustada nem, sequer, impressionada e já deu as costas às negociações. Qualquer decisão de juiz norte-americano que dificulte a reestruturação da dívida argentina ou tente alterar decisão do governo argentino será tomada como interferência em assuntos internos do país.

A 'notícia' de que a Argentina estaria à beira de 'declarar o calote' de dívidas legais - que é notícia falsa, mas repetida incessantemente pela propaganda norte-americana - está provocando compreensível irritação entre as autoridades argentinas. Em setembro de 2014, o diplomata encarregado de negócios na embaixada dos EUA na Argentina, Kevin Sullivan, disse ao jornal Clarin: "Para voltar a um caminho de crescimento econômico estável e atrair os investimentos de que a Argentina precisa, é importante que o país deixe imediatamente a posição de devedor inadimplente." 

Sullivan foi imediatamente convocado a prestar esclarecimentos ao ministério de Relações Exteriores da Argentina, onde ouviu que suas palavras "não têm qualquer fundamento factual e repetem, de fato, exclusivamente as palavras e a posição dos fundos abutres." O diplomata norte-americano foi avisado de que "se declarações desse tipo voltarem a acontecer, com novas intromissões nos assuntos internos da República Argentina, serão adotadas as medidas mais extremas previstas na Convenção de Viena sobre conduta de representantes diplomáticos." Como alguns jornais noticiaram na Argentina, implica que a Argentina pode declarar Kevin Sullivan persona non grata.

Deve-se dizer que o posto de embaixador dos EUA na Argentina está vago desde julho de 2013. Na América Latina essa situação já não é rara: as embaixada dos EUA no Equador permaneceu sem titular por muito tempo, e Washington não conseguiu manter embaixadores na Venezuela e na Bolívia.

Já há mais de um ano, os EUA consideram nomear Noah Bryson Mamet - empresário, que joga golfe regularmente com o presidente dos EUA e, mais importante, é dos mais ricos doadores de campanha dos Democratas -, para o posto de embaixador dos EUA na Argentina. Nas sabatinas pelas quais tem passado no Senado, Mamet deu sinais claros de saber rigorosamente coisa alguma, nada, sobre a realidade argentina. Algumas críticas de senadores chegaram aos jornais: a Argentina é "estado em situação de pré-crise econômica e política, e é preciso mandar para lá um profissional do serviço diplomático, não esse tipo de amador".

Fato é que o prédio da embaixada dos EUA na Argentina, por obra do Departamento de Estado, do Pentágono e das agências de inteligência, já vive repleto de profissionais especialistas em 'provocar' a tal situação de "pré-crise" de que falaram os senadores norte-americanos. A lista dos diplomatas dos EUA publicada pelo ministério de Relações Exteriores da Argentina incluem vários nomes conhecidos por intensa atividade subversiva em outros países. São empregados da CIA, como Timothy Murdoch Stater, não apenas agente 'prático', mas também teorizador do serviço de promover subversão em outros países; além de Kenneth Roy, Yordanka Roy, Brendan O'Brien, Michael Lance Eckel e vários outros, o que prova que a subversão provocada não é delírio, mas evidência fortemente sugerida, se não claramente comprovável. 

Na mesma lista também aparece o nome de Anaida K. Haas, que fez carreira no Afeganistão, de onde foi transferida para o Departamento de Estado, Gabinete de Assuntos Russos. É possível que a transferência de Haas para a Argentina esteja conectada a missão relativa a relações comerciais entre Rússia e Argentina. 

Washington está furiosa porque Cristina Fernández foi dos primeiros, na América Latina, que se declarou disposta a vender produtos argentinos necessários para suprir demandas do mercado russo; e imediatamente depois da declaração, os negócios começaram.

A capacidade para resistir, do governo de Cristina Fernández de Kirchner poderá ser estimada logo nos primeiros meses do próximo ano. Difícil esperar que a campanha presidencial seja pacífica, uma vez que há muitos agentes norte-americanos especialistas em desestabilização já trabalhando com a oposição. Haverá 'clamor' para que Cristina renuncie (por questões de saúde), a '5ª coluna' estará mobilizada e a pleno vapor, eclodirão greves nos transportes públicos, e não se deve descartar a possibilidade de sabotagem nas redes de energia, com 'apagões' estratégicos. Tudo isso está acontecendo com frequência crescente em países que Washington considera seus oponentes geopolíticos.

A ação subversiva e sediciosa da embaixada dos EUA em Buenos Aires pode ser estimada a partir dos relatos de informação que estão sendo distribuídos pelos funcionários da embaixada - só para cidadãos norte-americanos. São 'relatórios' que falam de aumento dramáticos nos índices de criminalidade e sugerem que os lugares públicos devem ser evitados. Falando em rede nacional de televisão, Cristina Fernández referiu-se a esse tipo de 'relatórios', como "atos de provocação".

A temporadas de provocações, pelas agências de inteligência dos EUA na Argentina, está só começando. ******

 

9/12/2014, Nil NikandrovStrategic Culture - http://goo.gl/mqYFAA

 


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